colunista Beatriz Prates
Jornalista

Atraso de vacinas, ao que parece, não foi só por ideologia

Investigações das denúncias de corrupção no governo Bolsonaro apontam novas possíveis razões para a demora na compra dos imunizantes
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp

Estamos vivendo aqueles dias de notícias com denúncias bombásticas, histórias ainda incompletas e depoimentos pra lá de confusos na CPI da Covid. Parece que o cérebro não dá conta de tanta informação. Vivemos aquela ansiedade de conseguir entender tudo o que aconteceu, desatar os nós e refazer o caminho dos fatos. 

A CPI já tinha provado que o governo Bolsonaro agiu deliberadamente para atrasar a compra de vacinas. No caso da Pfizer, vale lembrar, foram mais de 50 e-mails com ofertas não respondidas. O epidemiologista da Universidade  Federal de Pelotas, Pedro Hallal, fez as contas de quantas vidas dos mais de 520 mil brasileiros mortos poderiam ter sido salvas se a gente tivesse comprado a tempo: 95 mil. 

Para mim sempre foi muito difícil entender a ideologia criminosa do Governo Federal. Por que não comprar vacinas? Por que incentivar aglomerações? Insistir no uso de medicamentos que não funcionam? E ainda o absurdo da cruzada contra as máscaras. 

A CPI destrinchou como funcionava o chamado “gabinete paralelo” que aconselhava o presidente. Além do deputado federal Osmar Terra (MDB) – que errou em todas as previsões sobre a Covid  – participavam deste grupo médicos defensores de remédios sem efeito comprovado, empresários charlatões e integrantes do gabinete do ódio, ou seja, o combate a maior pandemia do século no Brasil tá na mão de gente que é, no mínimo, mal intencionada. 

Agora, com as denúncias de corrupção que surgiram com o depoimento dos irmãos Miranda na compra da vacina Covaxin, o cenário muda bastante e fica a pergunta: será que os atrasos na compra de vacinas não foram por ideologia, foram por corrupção? Ainda não temos todas as respostas. 

Muitas perguntas estão em aberto e, dos poucos fatos já esclarecidos tem um que chama atenção. Sabemos que Bolsonaro não agiu logo que recebeu a denúncia dos Miranda. A PF só começou a investigar agora, três meses depois que o presidente soube do caso, e depois, claro, que o escândalo chegou à CPI. 

Enquanto as investigações avançam, o presidente recorre aos extremos. Ora xinga senadores de bandidos, ora ofende jornalistas mulheres, ou tira máscaras de crianças e fala mal de vacinas… Não é uma novidade. Há dois anos e meio acompanhamos este comportamento sempre que o Bolsonaro se sente ameaçado. Mas não adianta mais o presidente gritar. Os culpados por este morticínio serão apontados e punidos. Se foi por ideologia ou corrupção, eles terão que pagar pelas mais de 520 mil pessoas que perdemos.

Relacionadas
Um caminho cheio de obstáculos
Por que o governo se sente à vontade para desafiar a democracia?
Saúde Mental
A mulher mais poderosa das Olimpíadas disse não. A mulher negra que sofreu abusos, a medalhista, a insuperável, a super atleta, a super tudo, disse não. O poder desse “não” é gigantesco.
De sequestro a xingamentos. Governos autoritários e a perseguição de jornalistas.
Por que ainda estamos tentando replicar o modelo de antigamente?
As dúvidas alimentadas pela fake news do tratamento precoce
Inscreva-se na newsletter

Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade e Política de Cookies. Ao continuar navegando, você concorda com estas condições.