colunista Beatriz Prates
Jornalista
Coluna – Beatriz Prates

Aulas com atividades presenciais: um alívio para poucos

"Se a educação fosse realmente prioridade para os governantes , todos os estudantes já teriam voltado pelo menos parcialmente para a escola, com os devidos procedimentos de segurança"
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Recebi nessa semana a notícia mais incrível dos últimos meses. Meu filho de 14 anos que passou o ano de 2020 inteiro com aulas remotas vai, finalmente, ter atividades presenciais. Juro que quando a secretária da escola me falou sobre aula presencial minha vida se iluminou. Pena que este alívio é pra poucos. Em São Paulo, pelo menos, ele só acontece neste momento para pais e mães, como eu, que conseguem pagar uma escola particular.

Numa conversa com duas mães com filhos em escolas públicas o cenário é de desespero. Elas têm medo que os filhos desaprendam, não queiram mais ir à escola. O impressionante no nosso país é que se passou quase um ano do início da pandemia e até agora as autoridades não têm uma solução para, na minha opinião, um dos principais problemas do Brasil: como voltar às aulas com atividades presenciais de uma forma segura?

Manifestantes na Avenida Paulista pedem abertura de escolas e volta às aulas durante a pandemia de Covid-19
Manifestantes na Avenida Paulista pedem abertura de escolas e volta às aulas durante a pandemia de Covid-19. (Foto: Roberto Parizotti/Fotos Públicas)

Vou dar o exemplo do Canadá. O país está num lockdown severo desde dezembro por causa do aumento dos casos de morte e infecção por Covid-19, mas as escolas de todos os estados, com exceção de Ontario, estão abertas. Os governos estaduais decidiram que as crianças estarem na escola é essencial para que o país consiga manter um mínimo de saúde mental. Então bares, restaurantes, academias e comércios estão fechados, recebendo ajuda financeira do governo, mas as escolas estão abertas, assim como farmácias e supermercados. 

Aqui é exatamente o contrário. Bares, comércio e restaurantes estão abertos há muito tempo e as escolas ainda têm restrições. No estado de São Paulo, por exemplo, com o crescimento de casos de Covid, a política pública do governo estadual foi atrasar o início das aulas e colocar como não obrigatória a presença de alunos nas fases laranja e vermelha, quando aumentam o número de casos de coronavírus. Já as escolas particulares poderão retomar atividades presenciais, se quiserem, com 35% da capacidade. É cada um por si. E a desigualdade só aumenta.

A verdade é que não existe um plano efetivo e coordenado para a volta às aulas. Sindicatos de professores são contra, prefeituras e estados não conseguem se articular e o governo federal… Bem, por onde anda o MEC?

Se a educação fosse realmente prioridade para os governantes de todas as esferas, todos os estudantes já teriam voltado pelo menos parcialmente para a escola, com procedimentos de segurança determinados pelo Ministério da Saúde e investimento pra dar segurança para professores, funcionários e alunos.

Não pode ser tão complicado assim que não tenha solução. Vamos deixar nossos estudantes durante quanto tempo sem aulas presenciais? Aula remota no Brasil só funciona pra quem tem internet em casa. Uma pesquisa do Ipea em setembro mostrou que 5,8 milhões de estudantes não têm acesso à rede banda larga ou móvel.

É preciso reunir as mentes brilhantes deste país nas áreas da saúde, educação e tecnologia pra pensar numa logística. É obrigação do estado garantir a educação para o seu povo. O meu alívio tem que ser democratizado.

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