colunista Beatriz Prates
Diretora geral do MyNews

Jornalismo sob ataque

De sequestro a xingamentos. Governos autoritários e a perseguição de jornalistas.
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Quem não se espantou com o sequestro do jornalista de Belarus nos últimos dias? Numa ação inacreditável, o governo autoritário de Alexander Lukashenko forçou o pouso de um avião comercial da irlandesa Ryanair, que ia para outro país, para prender o jornalista Roman Protasevich. Roman montou um canal de jornalismo independente no Telegram onde faz críticas ao regime Lukashenko, há 26 anos no poder. Não é a primeira vez que um avião é obrigado a fazer pousos forçados para a prisão de alguém, mas de um jornalista eu nunca tinha ouvido falar. 

A União Europeia se pronunciou horas após a prisão e, entre outras sanções, proibiu todas as companhias aéreas de Belarus de usarem o espaço aéreo e os aeroportos dos 27 países-membros do bloco. Apesar das sanções, o jornalista continua preso. 

Um ataque desses em plena Europa assusta, mas a verdade é que jornalistas são perseguidos no mundo todo. 

Pra mim, um dos casos internacionais mais marcantes foi o do saudita Jamal Khashoggi que escrevia para o The Washington Post. Ele era crítico da monarquia saudita. Jamal foi  torturado e esquartejado no consulado da Arábia Saudita em Istambul em outubro de 2018.  Ele tinha ido até lá para pegar um documento para se casar.  

Aqui no Brasil, um dos momentos mais tristes da história do nosso jornalismo foi a morte do Tim Lopes. Tim foi assassinado em 2002 enquanto fazia uma reportagem sobre abuso de menores e tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Foi sequestrado, torturado e executado por traficantes que queimaram covardemente o corpo do jornalista. 

O Brasil não é um país fácil para jornalistas. No ranking mundial de liberdade de imprensa feito pela ONG  Repórteres Sem Fronteiras estamos na posição 111. Ao todo são 180 países neste ranking onde os últimos lugares são ocupados por China, Turcomenistão, Coreia do Norte e Eritreia. 

Desde a chegada de Jair Bolsonaro ao poder os ataques à imprensa, segundo a Fenaj,  aumentaram em 105,77%. Você deve ter visto algumas dessas agressões. Bolsonaro  já mandou jornalistas calarem a boca, chamou profissionais de canalhas, disse que um jornalista tinha “cara de homossexual terrível”, insinuou – num ataque misógino e covarde  – que a jornalista da Folha Patrícia Campos Mello conseguiu informações em troca de favores sexuais e por aí vai. 

Xingar jornalistas, claro, não é exclusivo de Bolsonaro. Outros presidentes brasileiros já fizeram isso também. A diferença é que hoje descredibilizar a imprensa é política de estado, assim como fazia Trump. 

Os apoiadores mais cegos do presidente replicam o comportamento das redes sociais nas ruas. Na última manifestação pró-Bolsonaro, um repórter da CNN que estava trabalhando teve que sair acompanhado de seguranças enquanto uma multidão raivosa gritava “lixo”. 

Os que estavam gritando não admitem críticas aos seus ídolos. Já aconteceu também em outros governos. São pessoas que  querem uma imprensa conivente, que só dê notícias boas, que não incomode. Não entendem que o problema não são os jornalistas, mas as notícias, os fatos… O jornalismo é perfeito? Não. Empresas de comunicação têm as suas agendas. Mas hoje existem vários veículos independentes com jornalismo profissional, como o MyNews. Você pode se informar por uma variedade de canais sérios e chegar às suas próprias conclusões. Isso é ampliar e melhorar o debate. Quem quer calar a imprensa não tem a mínima noção das consequências disso. Sem imprensa, não há democracia. Sem jornalismo, só sobram trevas. 

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