colunista Beatriz Prates
Diretora geral do MyNews

Nessa pandemia, só os negacionistas são felizes

Festa do Lira e outras celebrações "contagiantes"
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Ai que saudades de uma festa com amigos, música, dança, todo mundo bebendo e dividindo o copo, uma caipirinha, uma dose de qualquer coisa…. Não curto a audiência, mas o festão da vitória do deputado Arthur Lira (PP/AL) – que é agora o novo presidente da Câmara – me causou repulsa e, ao mesmo tempo, um pouco de inveja. 

Tanta gente sem máscara se abraçando, dancinhas para todos os lados. Vejo as cenas e imagino as gotículas de cada um se espalhando nos passinhos da deputada Joice Hasselmann (PSL/SP), provavelmente a mais filmada da festa. “Stand by me…” cantava a banda na hora que ela percebeu que alguém com um celular incômodo gravava tudo. E foi um tal de brinde à amizade, ao Lira e ao Brasil! “Muito bem!!”, aplaudiam. Tem mais de 226 mil mortos por Covid no país, não temos vacinas suficientes, 14 milhões sem emprego. Nada importa.

“Oh darling, darling, Stand by me!” 

Saindo da esfera política, aconteceu isso também no fim de semana com os torcedores do Palmeiras, do Santos e sei lá mais de onde que comemoraram as vitórias, extravasando a alegria trazida pelo esporte, todos ali bem juntinhos.

É um misto de perplexidade, indignação, raiva e uma sensação de paralisia. São os mesmos sentimentos que vêm à tona quando vejo festas exibidas nas redes sociais. Foto só das mulheres, foto só dos homens, agora todo mundo no aniversário de não sei quem. E claro, sempre tem ele: o brinde… e as gotículas. 

Arthur Lira durante festa em comemoração de sua eleição como presidente da Câmara.
Arthur Lira durante festa em comemoração a sua eleição como presidente da Câmara. Foto: Reprodução Twitter.

São Paulo estava vivendo, até hoje, um misto de fase vermelha com laranja. Nos finais de semana o comércio, bares e restaurantes tinham que ficar fechados. No primeiro fim de semana da medida, o prefeito da cidade Bruno Covas (PSDB), licenciado para o tratamento de câncer, estava com o filho na final da Libertadores no Rio de Janeiro. Ele reclamou que a internet pegou pesado e usou o momento da vida pessoal como justificativa. Tem gente que se solidarizou com o prefeito. Mas eu fico pensando no sacrifício dos milhares de comerciantes que ficaram em casa e que estão cheios de contas para pagar e empregos para manter. Não dá para fechar a cidade e ir viver um momento inesquecível. Quem está no comando, mesmo de licença, tem que dar o exemplo.  

Essa premissa está um pouco esquecida no Brasil por conta do governo negacionista, anti-máscara, antivacina que nós temos. Mas é o mínimo que a sociedade espera dos seus líderes. O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que não nega a pandemia e acelerou o processo da vacina, também errou: no final do ano, quando colocou em prática medidas restritivas no estado, foi para Miami. Teve que voltar às pressas e pedir desculpa.

O resultado de cada um fazer o que quiser e viver seus momentos inesquecíveis a gente viu em Manaus. Fico imaginando o que aconteceu com os comerciantes que comemoraram o não lockdown da cidade. Também fico pensando se os políticos bolsonaristas que celebraram o não fechamento do comércio tiveram um momento de reflexão sobre o papel que estão cumprido. Será que na hora de dormir ali com os travesseiros não bate uma rebordosa? Aí volto para festa do Lira e seus 300 convidados. Nessa pandemia, só os negacionistas são felizes.

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