colunista Beatriz Prates
Diretora geral do MyNews

O mundo deu um triplo carpado e as escolas não mudam

Por que ainda estamos tentando replicar o modelo de antigamente?
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Semana passada saiu o boletim do trimestre do meu filho de 15 anos. Entre as várias recuperações estava a de Educação Física. Não, você não leu errado. Em plena pandemia, sem aula presencial, rolou uma recuperação de educação física. Ele estuda numa escola particular que abriu por 3 semanas em fevereiro e até hoje não conseguiu voltar com as aulas presenciais. 

Pedi uma conversa com o coordenador. Meu filho é novo nesta escola e vem praticando o isolamento social à risca. Não fala com professores, colegas e qualquer outra pessoa da escola. Ele, que era um menino estudioso, foi super mal em todas as matérias. Eu estava esperando. Ele já tinha dado o sinal de que não conseguia mais prestar atenção em nenhuma videoaula, incluindo Educação Física. 

Perguntei para o coordenador se era possível liberar da Educação Física quem está com muita dificuldade de se concentrar em videoaulas. A resposta foi que as atividades eram parte do currículo obrigatório. Mas e se a pessoa faz atividades físicas em outro lugar?, perguntei. Também não pode.

A triste realidade é que o mundo deu um triplo carpado e as escolas não saíram do lugar. Boa parte dos professores – que não tinha treinamento para dar aula online – continua sem saber como fazer. E não é só a questão do conteúdo: é a dinâmica da sala de aula. 

Nessa escola meu filho ficou algumas vezes sem ninguém para fazer trabalho em grupo por pura timidez. Os professores nem notaram. Será que mais de um ano depois da pandemia não era possível ter criado um processo para ter certeza se os grupos foram formados e se os alunos adolescentes no auge de todas as dúvidas e crises do mundo estão entendendo e interagindo?

São muitas as dificuldades dos professores e reconheço cada uma delas. A culpa não é só deles. Tem todo um sistema de dinâmica online que eles não conhecem. Os alunos estão prostrados e eles, professores, exaustos. Mas será que não é possível pensar diferente, usar outras estratégias?

Bom, este é um recorte da minha experiência, de uma pessoa privilegiada que tem condições hoje de pagar uma escola particular. E nas públicas, o que está acontecendo? 

A diferença é tão assustadora que não dá nem para comparar. O problema não é de dinâmica. Abriu-se um fosso de desigualdade. Mais de 4,3 milhões de estudantes, segundo o IBGE, não tinham acesso à internet em 2019, sendo 95,5% deles em escolas públicas. Ou seja, se o processo educacional fosse uma corrida, esses estudantes em 2020 não conseguiriam nem dar a largada. 

Só no Estado de São Paulo, 90 mil não conseguiram acompanhar as aulas em 2020. O governo do estado já fez uma estimativa que, dependendo da série em que o aluno está, seja necessário de 1 a 11 anos para recuperar a aprendizagem perdida. Na pesquisa com estudantes da rede estadual eles mediram principalmente o desempenho em português e matemática. 

Como é que a nossa sociedade vai lidar com este impasse? 

Acho que o abandono desses estudantes não será resolvido facilmente. Vai precisar de investimento, inteligência e uma grande mudança na abordagem do currículo escolar pré-pandêmico. Eu torço por um sistema educacional mais justo, mais flexível e com mais acolhimento.

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