Marina Silva fecha série de entrevistas do Jornal Nacional

Temas mais debatidos foram combate à corrupção e formação de alianças

Na quinta-feira (30), Marina Silva (Rede Sustentabilidade) compareceu ao Jornal Nacional, da Rede Globo, para finalizar a série de sabatinas aos candidatos à Presidência da República nas eleições deste ano.

Segundo critério adotado pela emissora, apenas os presidenciáveis de melhor posição na última pesquisa Datafolha de intenção de voto puderam participar.

Dos cinco mais relevantes no cenário eleitoral de acordo com esses dados, apenas Lula (PT) não pôde participar. Nome escolhido pelo Partido dos Trabalhadores, o ex-presidente cumpre pena em Curitiba (PR) por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

 

Postura da candidata

Apesar do usual perfil calmo e ponderado, Marina mostrou-se combativa diante dos questionamentos dos apresentadores William Bonner e Renata Vasconcellos.

A maioria dos tópicos abordados falavam de corrupção: desde coligações distritais ao apoio da candidata a Aécio Neves (PSDB), no segundo turno das eleições de 2014. A busca por contradições da candidata pautou a linha de perguntas, o que pode tê-la forçado a adotar uma atitude defensiva.

A candidata Marina Silva, da Rede Sustentabilidade. (Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

Questionando seu perfil de liderança, o êxodo de políticos de seu partido também foi um dos assuntos debatidos. Em carta aberta, sete deles alegaram “inexistência de posicionamento para os grandes problemas do Brasil” por parte da Rede.

Mesmo diante dessas tentativas, a ambientalista conseguiu manter a coerência em seu discurso.

“Vejo o processo de pessoas saindo de um partido como um processo natural de uma democracia”, disse Marina. “São pessoas que eu continuo mantendo uma relação de respeito. Mesmo elas estando distantes da Rede, tenho absoluta certeza que em uma coisa elas concordam comigo: os ideais que eu defendo para o Brasil são capazes de unir pessoas de diferentes partidos”, completou.

 

Ponto baixo

A falta de posições claras da presidenciável gerou muitas críticas das pessoas que acompanharam a sabatina, principalmente nas redes sociais, uma reafirmação constante da necessidade do diálogo não tem sido vista como suficiente em tempos de grande polarização.

Em determinado ponto da entrevista, Renata Vasconcellos também apontou essa característica. “Uma crítica frequente dos seus adversários é sua postura diante de temas polêmicos, mas importantes para o país, como a reforma da Previdência. Quando a senhora é questionada sobre esses temas, sempre defende a necessidade de um debate, mas não apresenta propostas concretas”.

Marina Silva, Renata Vasconcellos e William Bonner durante o Jornal Nacional. (Foto: Divulgação)

Durante a resposta, Marina apontou uma suposta estranheza de população no que diz respeito ao debate. “Tem gente que se incomoda com a ideia de debater porque a gente se acostumou com os pacotes. A gente vem da cultura do pacote, um em cima do outro do povo brasileiro. Quando alguém diz que vai debater, vai dialogar, parece estranho, mas numa democracia isso é normal”.

Apesar do discurso favorável à reforma em questão, consensualmente importante para o país, o caráter vago do programa de governo em determinados pontos motivou nova cobrança da apresentadora por maior convicção nas declarações. Tema principal foi a idade mínima para a aposentadoria.

Mas esses oito anos não foram suficientes para a senhora amadurecer posições tão importantes quanto essa?”, indagou.

 

Ponto alto

Em contrapartida, o desempenho da candidata surtiu o efeito desejado na consolidação do eleitorado. Seu discurso final dialogou com eficiência diante da parte moderada das pessoas que votarão em outubro, onde se encontra a maior fatia de seus apoiadores.

Marina relembrou sua trajetória de vida até conquistar votos e respeito no meio político, ocupando cargos importantes durante a carreira pública. A ambientalista comentou seu passado humilde, tendo trabalhado como seringueira e empregada doméstica, se alfabetizando apenas aos 16 anos.

A presidenciável também se declarou negra e mencionou o fato de ser mãe de quatro filhos. Essa realidade, cotidiana na vida de grande parte dos brasileiros, gera simpatia das minorias e da população mais carente.

Sei que muita gente acha que pessoas com a minha origem não têm capacidade para ser presidente da República. Eu estou aqui trazendo mais que um discurso. Trago uma trajetória, um compromisso de construir um país que seja justo e bom para todos. Para empresários, para trabalhadores, para jovens e para mulheres”, afirmou. Muitas vezes as pessoas me admiram como uma exceção, mas não quero um país de exceção. Eu quero um país de regras”, completou Marina.

 

O vice Eduardo Jorge

Ex-integrante do PV, Marina Silva utilizou a necessidade de se manter coerente como justificativa para deixar o partido. No entanto, a candidata escolheu um integrante do mesmo para ocupar a vaga de vice-presidente em sua chapa.

Marina Silva e seu vice Eduardo Jorge, do Partido Verde. (Foto: Divulgação)

Renata Vasconcellos confrontou a postulante ao Planalto sobre o tema em busca de uma contradição. A ex-ministra explicou sua saída do antigo partido, alegando a visão de processos” como principal motivação, além da vontade de criar um partido em rede.

“A minha saída do PV tinha a ver com a visão de processo em relação ao que eu queria muito, que o PV se tornasse um partido em rede. Mas a cultura política da direção do PV entendeu que não, então eu criei um partido em rede. Mas em termos programáticos, não há divergências em vários aspectos”, justificou. “Eu não posso querer impor a cultura partidária da Rede a outros partidos. O importante é que nós temos convergências”, disse.

Marina diz que ela e Eduardo Jorge têm muitas convergências, algumas divergências, mas isso é normal numa democracia.

“Nós do Partido Verde e da Rede fizemos uma aliança inteiramente programática, inclusive com o PV reconhecendo a soberania do meu programa em várias questões que haviam diferenças. Isso é típico da democracia”, reafirmou a candidata, que aproveitou para atacar adversários na corrida presidencial.

“Incoerência sabe o que é? É fazer aliança por tempo de televisão. É fazer aliança em troca de dinheiro para enganar a população com marqueteiro vendido a peso de ouro. Isso é incoerência”, concluiu.