A ARTE DE MORRER

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Eu e você temos mais chances de morrer hoje (toc, toc, toc) do que tínhamos no passado recente. Por isso, precisamos falar sobre ela, a indesejada, a iniludível morte, como diz o poeta.

O mundo está mais perigoso com este inimigo invisível, o coronavírus. Li, no New York Times, o jornalão americano, que, por lá, aumentou muito a procura por advogados. Os norte-americanos querem preparar a morte. Creeedo! 

Os brasileiros vivem como se eternos fossem. Preparações pós-morte para a própria morte chega a ser pior que xingar a mãe. Certamente um mau agouro. Será?

Bom, se você decidir que é interessante, há um checklist a ser feito. Eis aqui alguns pontos, poucos é verdade, dos quais eu mesma já comecei a cuidar:

1- A empresa. O controlador precisa tomar decisões práticas para que os herdeiros não destruam, da noite para o dia, aquilo que levou uma vida para se construir.  Nunca subestime o imbróglio que pode ser gerado por uma briga de herdeiros.

2- Os dependentes. Há que se prever de quanto cada um vai precisar para se manter. Mas, lembre-se, é só uma ajudinha, tá? Não vá chegar do outro lado (sim eu acredito no outro lado) cheio de preocupações porque não conseguiu resolver a vida de todo mundo antes de partir.  Filhos menores de idade, por exemplo, precisarão de recursos para terminar os estudos. Mas muita atenção à expressão menores de idade. 

3- A partilha. É melhor deixar isso já resolvido sob pena de ver o pau comer no seu enterro. E isso não é só uma figura de linguagem.

4- Tá bom, você não morreu, mas ficou incapacitado. Em quem você confia, o suficiente, para ser o responsável pelas decisões financeiras relativas ao seu patrimônio?Atualmente, os norte-americanos estão no centro da pandemia, com mais de 50 mil mortes por Covid-19. Por mais que este assunto não seja dos mais agradáveis, a certeza de que o fim pode estar próximo colocou algumas questões práticas a serem endereçadas com relação a mortalidade. Por aqui, a pandemia ainda não chegou àquele patamar, mas, com esse pandemônio no governo, caminhamos, a passos largos, para ultrapassá-los, numa competição às avessas. 

Já ouvi um especialista falar que, aqui no Brasil, há grandes chances de todos terem alguém próximo vitimado pela Covid-19. Olhei em volta e, sinceramente, nenhum dos que vi seria dispensável. Não seu Corona! Vá bater em outra freguesia! Depois, pensei nos que, por conta da quarentena, estão longe. Mais uma vez, achei péssima a ideia de perdê-los. Bem, provavelmente, este cientista, médico, pesquisador ou lá o que for não está se referindo à minha família nem aos meus amigos.Então, um pouco mais de reflexão, o pretinho básico dos dias atuais, e bingo! Eu posso ser a mais próxima que será vitimada pela Covid-19. 

Ai, ai, ai, não estou gostando nada do rumo dessa prosa. Mas por mais que não goste, a possibilidade existe. Tanto que me mantive, rigorosamente, em casa nesses dois meses. 

Saí apenas uma vez, confesso, porque achei que alguém estava precisando da minha ajuda e me arrependi. Minha ajuda era dispensável e passei dias tendo pesadelos com álcool em gel e respiradores.

Então, iniciei minha vida na quarentena. Nesses dois meses em casa, vi lives de todo tipo, fiz cursos online de roteiro, de literatura e até de aquarela. Por sinal, apesar de não ter aptidão para pintura, estou adorando. 

Descobri cursos online de gastronomia, de cinema, de finanças, lives de personal trainer, de bike, de yoga. Lives emais lives de shows para todos os gostos. Mas, e a morte? Esta velha senhora, que anda lado a lado com a Covid-19, quer ser esquecida. Não recebi nenhum aviso, em nenhuma das redes sociais, sobre o tema. Eu quero falar sobre a morte, mas ninguém quer papo comigo. Compreensível.

LEIATAMBÉM