COMO É DIFÍCIL SER PRESIDENTE

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O presidente Jair Bolsonaro tem plena consciência da recessão que tem pela frente. Mas talvez ainda não se tenha dado conta de algo mais premente: os 300 bilhões de reais de dívida pública que o Tesouro Nacional precisa rolar até o dia 1º de setembro deste ano. 

Para amenizar os efeitos da recessão, o país passará por uma expansão fiscal brutal. Não estará sozinho. O mundo inteiro vai seguir o mesmo caminho. Mas o Brasil de Jair Bolsonaro tem suas particularidades. Para refinanciar sua dívida pública, os investidores vão exigir mais prêmio, ou seja, juros mais altos. Por enquanto, o Tesouro está segurando os leilões de títulos públicos justamente para não sancionar estes juros. Mas até quando poderá adiar? 

É muito difícil ser presidente. Não é nada fácil”, diz Fernando Henrique Cardoso com pleno conhecimento de causa. Por oito anos, como Presidente do Brasil, enfrentou duras crises econômicas. Mas nada parecido com o que vem por aí. “Não é fácil a posição do presidente Bolsonaro. Ele teve a má sorte de ter uma crise dessa proporção”, acrescenta FHC.

O ex-presidente participou do último Segunda Chamada, programa da grade do canal MyNews que vai ao ar toda segunda-feira às 20:30. Por diversas vezes, ele se referiu à importância da união de todos para sair da crise e ao hábito saudável da conversa para governar. 

Se é assim, há duas ligações que Bolsonaro precisaria fazer urgentemente.

A primeira para o próprio Fernando Henrique Cardoso, que lhe contaria, com riqueza de detalhes, como fica a economia de um país quando os investidores se esquivam de financiar sua dívida pública. FHC viveu este drama intensamente em 2002, último ano de seu segundo mandato. A segunda ligação deveria ser para Lula, sucessor de FHC, que, se tivesse boa vontade, lhe descreveria a ginástica que teve que fazer entre o palanque, onde atacava a “herança maldita” de FHC, e os bastidores, onde, de forma muito pragmática e inteligente, pavimentou a governabilidade de seu mandato, costurando, com o próprio FHC, as linhas mestras do que seria sua gestão. Foi assim que Lula, à época visto com muita desconfiança pelos investidores, fez o pais atravessar o período econômico mais próspero desde a redemocratização. 

O porto que o presidente queria ir acabou”, diz FHC. O porto era o “posto Ipiranga” como ficou conhecido, desde a campanha eleitoral, Paulo Guedes, o Ministro da Economia. Guedes seria o promotor do choque liberal para criar o Estado mínimo por meio de reformas que deixariam o pais de braços abertos para receber os investimentos que fariam a economia brasileira decolar, finalmente. 

Mas, então, vem a realidade e se impõe. O Ministro Guedes será forçado a abandonar seus sonhos liberais e implementar o maior plano keynesiano que este país jamais viu. É consenso entre economistas das mais diferentes escolas que não haverá tempo, no atual mandato presidencial, para se retomar o grande projeto liberal com o qual sonhava Paulo Guedes. Eis o grande imbróglio: Guedes, que ainda reluta em abandonar sua quimera liberal, demonstra pouco conhecer o receituário de Keynes. Mais conversas seriam necessárias. 

O que se tem ao certo, até agora, é que as tretas políticas que o presidente está contratando além de travarem os diálogos, podem acabar desaguando num custo ainda maior para refinanciar a dívida pública. O mercado interpreta essa dificuldade do presidente em conversar como uma incapacidade de alinhavar apoio para a governabilidade. Isso representa um risco. No mercado financeiro, risco se traduz em juros mais altos.

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