CONDENADOS A NUNCA SE ENTENDEREM

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Talvez, amanhã, se entre numa sociedade exteriormente bem organizada, perfeita e incensurável no que tange ao público, mas que, nas relações privadas, seja vazia devido à indiferença, ao insulamento, à impenetrabilidade.

O mal da modernidade é a solidão, que começa no fundo, nas raízes do ser e que nenhuma embriagues pública, nenhuma sinfonia política, pode pretender extirpar facilmente.


A meu ver, porém, por meio do cinema, existe, entre uma pessoa e outra, um modo de vencer esta solidão, de infiltrar uma ideia entre elas, de compreender, de quase descobrir os laços profundos e mútuos que possuem.


A “Estrada da Vida” exprime uma dessas experiências. Procura achar a comunicação, mais que natural, personalista entre um homem e uma mulher que, sendo o que são, estariam destinados a nunca se entenderem.
Essas palavras não são minhas. A ausência de aspas é proposital, tamanha a vontade de tê-las escrito. Saíram da pena do cineasta Frederico Fellini e foram publicadas, em 1955, em um jornal italiano com o título “Carta a um crítico marxista”. Fellini, usando a mesma destreza poética com que fez o clássico “A Estrada da Vida” (La Strada) defendia sua obra, duramente atacada por críticos italianos. Eles o acusavam de ter feito um filme que fugia ao movimento neorrealista, estilo que prevalecia quando começou sua carreira, guiado pelas mãos de outro cineasta do Olimpo, Roberto Rosselini.

Nesse 2020, em que se comemora o centenário de nascimento de Fellini, tive a oportunidade de rever boa parte da sua obra. Impressionou-me sua atualidade. Em “La Strada”, a história de amor entre a frágil Gelsomina e o brutamontes Zampano, vemos a esperança em superar diferenças. Quer tema mais atual? O filme é o primeiro de uma trilogia existencialista seguido de “A Trapaça” (Il Bidone) e terminando com “Noites de Cabiria” ( Le Notti di Cabiria). Mais que cinema, temos a poesia mostrando a luta para a recomposição moral da humanidade.

Muitos críticos o acusavam justamente por ser poético demais. “Seus filmes não são cinema, são verdadeiros romances”, diziam. Ao que Fellini responde: “às vezes, um filme que prescinde de referências concretas a uma realidade histórico-politica e que representa, quase em figuras míticas, o contraste dos sentimentos contemporâneos numa dialética elementar, pode redundar muito mais realista que outro que aluda a uma realidade sócio-política precisa. Por isso, não acredito na objetividade, pelo menos como vocês a entendem. Nem reconheço o conceito que vocês fazem do neorrealismo, que não esgota, nem de longe, o cunho do movimento a que me orgulho de pertencer”.


Trago, aqui, apenas fragmentos do texto* que você não pode deixar de ler. A longa resposta que Fellini dirigiu ao critico Massimo Puccini reflete um tempo em que o debate intelectual era articulado, lógico, argumentativo. Ingredientes tão ausentes nos debates atuais.

*A íntegra da Carta a um crítico marxista está no livro Fellini por Fellini. A edição em italiano você encontra aqui.

LEIATAMBÉM