Arquivos Beatriz Prates - Canal MyNews – Jornalismo Independente https://canalmynews.com.br/tag/beatriz-prates/ Nosso papel como veículo de jornalismo é ampliar o debate, dar contexto e informação de qualidade para você tomar sempre a melhor decisão. MyNews, jornalismo independente. Tue, 29 Dec 2020 20:14:18 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.7.2 16 facadas https://canalmynews.com.br/sem-categoria/16-facadas/ Tue, 29 Dec 2020 20:14:18 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/16-facadas/ Fico com aquela sensação de desalento: isso pode acontecer com todas as outras mulheres que sofrem violência e que não vão ter acesso rápido a proteção

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16 facadas. 

No rosto e na cabeça, no pescoço e nas costas.

Na frente das 3 filhas. 

No meio da rua.

A juíza Viviane Vieira do Amaral Arronenzi de 45 anos foi brutalmente assassinada pelo ex-marido. Por ser mulher, por dizer não, por covardia dele, por desumanidade. 

O assassino, Paulo José Arronenzi,  já tinha um passado de violência. Agrediu uma ex-namorada em 2007. Tinha inclusive ameaçado a própria Viviane em setembro. Ela se protegeu e depois confiou. Dispensou a escolta armada em novembro. O assassino, pelo jeito, estava só esperando. 

Além da Viviane, outras 5 mulheres, até agora enquanto escrevo, foram assassinadas no Brasil neste fim de ano de pandemia. Tenho a impressão que os últimos fins de ano têm sido sempre assim. O que assusta no caso da Viviane é que ela era juíza, teve acesso rápido a uma escolta, e mesmo assim o crime aconteceu. Paulo José não se intimidou diante do aparato do Estado. Fico com aquela sensação de desalento: isso pode acontecer com todas as outras mulheres que sofrem violência e que não vão ter acesso rápido a proteção. 

Cultura do estupro e do assédio contra mulheres é uma situação cotidiana
Machismo e cultura de violência contra a mulher é uma situação cotidiana no Brasil.
(Foto: Pixabay)

O Brasil ocupa o quinto lugar em um ranking de 83 nações que mais matam mulheres, segundo a ONU. A cada um minuto, duas mulheres são espancadas, a cada oito, uma mulher é estuprada.  Mas no Brasil machista tem juiz, colega de profissão da Viviane, que desdenha da lei Maria da Penha, criada para ajudar mulheres em situação de violência doméstica. Numa audiência de pensão alimentícia em São Paulo, o juiz Rodrigo de Azevedo Costa disse: “Se tem lei Maria da Penha contra a mãe, eu não tô nem aí. Uma coisa eu aprendi na vida de juiz: ninguém agride ninguém de graça.” O vídeo foi divulgado pelo portal Papo de Mãe. Imaginem a situação de mulheres que sofrem violência doméstica, conseguem dar um grande passo que é se separar do agressor, enfrentam constrangimento em delegacia, justiça e depois têm que ouvir de um juiz que a culpa foi delas. 

Em 2020, com as audiências virtuais, outro vídeo que escancarou o machismo no sistema judicial brasileiro foi o do caso da influencer Mariana Ferrer. O vídeo foi publicado pelo site The Intercept Brasil. Mariana acusava o empresário, André de Camargo Aranha, de estupro. Na audiência, Mariana foi submetida a humilhações proferidas pelo advogado de defesa do empresário, Cláudio Gastão da Costa Filho. Depois das agressões, o juiz Rudson Marcos pergunta se ela quer tomar uma água para se acalmar e pede um “bom nível ao advogado”. Só isso.

O machismo está tão entranhado na nossa cultura que não nos choca mais. Tem sempre alguém que repete a frase do juiz de São Paulo “ninguém agride ninguém de graça”.  E aí, as cenas que não param de se repetir. Passa Natal, passa Ano Novo e a violência continua. 

16 facadas, no rosto e na cabeça, no pescoço e na barriga. 

As filhas pedindo para parar. A morte.

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Assediadores não podem passar https://canalmynews.com.br/sem-categoria/assediadores-nao-podem-passar/ Tue, 15 Dec 2020 19:00:21 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/assediadores-nao-podem-passar/ Enfrentar assédio moral numa empresa é mais do que criar uma área de compliance. A mudança tem que vir de cima

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Eu já sofri assédio moral. Foi duro, doloroso e levou um tempo para recuperar minha autoestima. Aconteceu há alguns anos. E posso dizer: o assédio moral te mina, aos poucos. É uma construção. O assediador, de repente, toma conta da narrativa do profissional que você é e constrói um caminho que te fragiliza, te desmoraliza. Por um tempo, você aceita aquela situação. Até você não aguentar mais.

Lendo na revista piauí o inexplicável percurso da comediante Dani Calabresa para denunciar o assédio sexual que sofreu na Globo, eu lembrei muito da minha jornada. Claro que não dá pra comparar os dois tipos de assédio e na minha época não tinha um departamento de compliance para reclamar. Mas tem alguns pontos parecidos. Os colegas que acobertam, os chefes que não fazem nada e a paralisia da empresa que não toma uma atitude. É a cultura do assédio impregnada em milhares de empresas pelo mundo. Se as empresas não conseguem resolver assédio moral, quem dirá assédio sexual.

Na minha experiência, o assediador era uma mulher. Lembro que entrei para a nova equipe e os colegas me avisaram: “Olha, ela é meio difícil. Grita e trata mal, mas depois de uns meses melhora”. Os assediadores sabem como manipular. Passam uma imagem de eficiência e superioridade. São articulados e, quando em perigo ou ameaçados, atacam. 

Era uma equipe super profissional e super oprimida. Na hora do trabalho ninguém conversava com ninguém. E a voz da assediadora reinava absoluta. Lembro de falar para meus colegas que aquilo não era normal, mas eles pareciam anestesiados.

Assédio moral é um problema mais comum do que se imagina em empresas
Assédio moral é um problema mais comum do que se imagina em empresas.
(Foto: Pixabay)

Depois de vários ataques, um dia a assediadora passou dos limites. Ela achou que eu tinha cometido um erro grave, tinha errado uma conta. Me chamou, me trancou numa sala com o supervisor e gritou barbaridades. Não me ouvia. Disse que sabia, desde o início, que eu ia errar, que era questão de tempo. Me questionou como profissional. Urrava a frase “quem você pensa que é?”. Questionou minha carreira inteira. Na época, tinha mais de 15 anos de jornalismo. E enquanto a gritaria rolava, o supervisor refazia a conta e confirmava que eu estava errada. Não me conformei. Saí da reunião e procurei alguns colegas que refizeram a conta e provaram que eu estava certa. Foram necessárias 4 pessoas diferentes na sala de reunião até que a assediadora aceitasse que quem estava errada era ela.

Fiquei muito mal. No dia seguinte o supervisor me procurou, constrangido. Começou a conversa pedindo desculpas. Confessou que tinha feito a conta errada para agradar a assediadora. Ou seja: ele fez a conta dar o número que ela queria. Ele traiu a lógica, a matemática, o correto, tudo para satisfazer a assediadora. Imagina o risco que uma empresa corre com situações como essa? Ele queria meu perdão.

Levei uns dias para me recuperar e depois tive a coragem de  procurar a chefe da assediadora. Contei o que tinha acontecido. A chefe disse que aquilo era inadmissível. Foi gentil. Me colocou em outra equipe e disse “ vou pensar se vou falar com a assediadora. Tenho medo que ela comece a te perseguir”. Nunca mais tive notícias. Pelo que sei, ambas – a chefe e a assediadora -, continuam na empresa, liderando. 

Enfrentar assédio numa empresa é mais do que só criar uma área de compliance. A mudança, na minha opinião, tem que vir de cima. Não adianta o chefe dizer que não aceita certos comportamentos e quando a denúncia vem, não fazer nada. Os líderes de hoje têm que pesar na avaliação não só o resultado, mas a postura. O estrago que os assediadores causam na equipe também tem que ser medido. E sempre perguntar: vale a pena continuar com alguém que entrega resultados na base da humilhação? Na minha experiência, não. Vi um supervisor trair a lógica e a matemática para agradar uma assediadora.

Enquanto o discurso for “ah, mas é um ótimo profissional” as empresas não avançam. Uma denúncia de assédio moral tem que ser investigada e o assediador precisa ser punido, receber treinamento, se ajustar. Já a denúncia de assédio sexual, na minha opinião,  deveria ser tratada como um caso de Covid, com isolamento do denunciado. Depois, uma investigação séria, rápida e eficiente. Se comprovado o assédio só há uma saída para a empresa: punição exemplar. Assediadores não podem passar. 

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