Arquivos coluna - Canal MyNews – Jornalismo Independente https://canalmynews.com.br/tag/coluna/ Nosso papel como veículo de jornalismo é ampliar o debate, dar contexto e informação de qualidade para você tomar sempre a melhor decisão. MyNews, jornalismo independente. Tue, 23 Jul 2024 22:28:12 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.7.2 “O mundo está acabando?” Não, ainda não, minha senhora, mas as notícias não são nada animadoras… https://canalmynews.com.br/balaio-do-kotscho/o-mundo-esta-acabando-nao-ainda-nao-minha-senhora-mas-as-noticias-nao-sao-nada-animadoras/ Tue, 02 Jan 2024 18:52:55 +0000 https://localhost:8000/?p=41880 Depois de uma certa idade, e só fica velho quem está vivo, as esperanças tornam-se mais frágeis

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Estava eu sossegado num quiosque, logo cedo, tomando um café e lendo meu jornal, quando uma senhorinha de idade com forte sotaque alemão se aproximou, ar de preocupada:

– Com licença… Posso lhe fazer uma pergunta?

– Pois não, se eu souber responder…

– O mundo está acabando?

Passado o susto da pergunta, feita assim de supetão, no segundo dia do novo ano, olhei bem para ela e procurei acalmá-la.

– Não, minha senhora, ainda não, mas as notícias do jornal não são nada animadoras…

Pela nossa idade, nós não vamos ver o mundo acabar, mas parece que os terráqueos estão fazendo o possível para acelerar o processo.

Terremoto no Japão, enchentes em Minas Gerais, seca na Amazônia, as guerras da Ucrânia/Russia e da Palestina/Israel, fora todas as outras, o doido da Coréia do Norte ameaçando soltar armas nucleares, o louco varrido da Argentina anunciando seu plano para acabar com os argentinos, os americanos e o resto do mundo correndo o risco de cair novamente nas mãos sinistras de Donald Trump, Putin cavando o enésimo mandato sem concorrentes, a China comuno-capitalista espalhando seu poder pelo mundo, a CBF sem presidente e a seleção brasileira sem técnico… E o que mais?

A humanidade não está se comportando bem, comentaria o filósofo popular Ronald Golias, aquele grande humorista do século passado. Cada vez mais desumanas, as relações entre países e pessoas em permanente conflito, dentro e fora de suas fronteiras, há tempos flertam com o Apocalipse, o fim dos tempos temido pela minha interlocutora germânica.

Apesar de tudo, sobrevivemos até aqui, e procuro animá-la em seu passeio matinal, empurrando o andador de rodinhas para não cair:

– Olha lá, o sol saiu, as nuvens estão indo embora e nós continuamos respirando por mais um dia… Quem sabe amanhã tenhamos notícias melhores, vindas de não sei onde…

Balançando a cabeça, ela não se convenceu muito. Depois de uma certa idade, e só fica velho quem está vivo, as esperanças tornam-se mais frágeis, mas precisamos preservá-las com muito carinho para não desesperançar de vez.

Basta ver o que aconteceu com o Brasil de um ano para outro. Parece que voltamos a viver num país normal, sem sair daqui, apenas trocando o supremo mandatário. Outro dia escrevi aqui que, pelo menos, saímos do inferno, e as muitas resenhas que li neste final de ano concordaram num ponto: 2023 foi o ano do alívio, pudemos voltar a respirar sem sustos.

A passagem do ano no calendário levou multidões às ruas e praças de todo o país, dançando e cantando, se reencontrando consigo mesmas e a alegria de viver, sem medo de ser feliz amanhã. O réveillon antecipou o Carnaval de fevereiro, mas hoje é dia de pagar os boletos e fazer as contas para o salário chegar no final do mês.

Vida que segue.

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Flávio Dino no Supremo Tribunal Federal https://canalmynews.com.br/politica/rodrigo-augusto-prando/flavio-dino-no-supremo-tribunal-federal/ Fri, 15 Dec 2023 01:57:50 +0000 https://localhost:8000/?p=41795 Dino, ontem, ficou mais de dez horas sendo sabatinado – junto com Paulo Gonet (também aprovado como o novo Procurador Geral da República) – e obteve 47 votos favoráveis, 31 contrários e 2 abstenções.

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Muitos jornalistas usaram de metáfora futebolística para noticiar a sabatina e a votação no Senado de Flávio Dino para o Superior Tribunal Federal (STF). Assim, ventilava-se, em Brasília, que gol feio é gol e que partida vencida por 1 x 0 é também vitória.

Dino, ontem, ficou mais de dez horas sendo sabatinado – junto com Paulo Gonet (também aprovado como o novo Procurador Geral da República) – e obteve 47 votos favoráveis, 31 contrários e 2 abstenções. Eram necessários 41 votos dentre os 81 senadores. Assim, o novo ministro do STF tomará posse, ao que tudo indica, em 22/02/2024.

Dino, ao longo da sabatina, frustrou seus adversários políticos que tinham a crença que ele poderia perder a calma e aceitar os ataques ao longo dos questionamentos. Em suas respostas, Dino conjugou seu saber jurídico, compreensão do jogo político e, não raro, recorreu a trechos bíblicos objetivando clarear sua trajetória e ideias. Não houve, neste primeiro ano de Governo Lula, ministro que tenha sido mais atacado do que Dino. E isso se deve ao fato de que foi o ministro que enfrentou, diretamente, as ações do dia 08 de janeiro, quando foram atacadas as sedes dos três poderes por bolsonaristas extremistas. A partir deste momento, as narrativas fantasiosas, queriam colar em Dino e no governo, um misto de cumplicidade e incompetência em lidar com a turba golpista.

No mundo da pós-verdade bolsonarista, Dino era coniventemente responsável pelos atos atentatórios ao Estado Democrático de Direito e, por isso, numa grande conspiração, não permitiu acesso às imagens do episódio, entre muitas outras acusações.

Além disso, Dino tem origem ideológica e no campo dos valores no comunismo e tal fato é um prato cheio para alimentar a retórica da guerra cultural encampada pela extrema-direita. No entanto, Dino é católico e, como demonstrou na sabatina e em outras ocasiões, é leitor e conhecedor da Bíblia. Houve até mesmo um momento durante sua fala na Comissão de Constituição de Justiça ao responder a um senador de que, embora respeitasse voto acerca do aborto da ministra do STF, ele discordava e que tal posição era pública, de conhecimento de muitos. Seus adversários – e Dino fez questão de usar o termo adversário político e não inimigo – trouxeram à tona todo o conjunto de fake news que pulularam nas redes sociais e foram, com calma e didatismo, rebatidas uma a uma.

Na política, nos tempos que correm, vale mais a lacração, os memes e os cortes para alimentar as redes sociais do que uma visão mais abrangente e profunda dos fenômenos políticos e sociais. E, aqui, outro ponto: Dino irritou demasiadamente os bolsonaristas pelo fato de, nas redes ou nas comissões que foi convidado a falar, responder com ironia, inteligência e até deboche (na cartilha bolsonarista e olavista estas condutas são exclusivas deles).

No mais, muitos senadores usaram a sabatina de Dino como palco para alimentar as críticas ao STF no geral e a muitos ministros em particular.

Flávio Dino chegará ao STF depois de ter sido juiz, governador, senador da república e ministro de Estado. Certamente, terá ao seu lado ministros considerados poderosos como Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes (que, explicitamente, foram seus apoiadores junto a Lula). Dino herdará 344 ações e estas incluem temas afeitos à CPI da Covid, ações contra Jair Bolsonaro e Juscelino Filho, ministro de Lula.

Aguardemos sua postura como ministro do Supremo.

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54 anos esta noite https://canalmynews.com.br/maria-aparecida-de-aquino/54-anos-esta-noite/ Mon, 19 Dec 2022 21:06:00 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=34975 "Ditadura foi terrível e negativo para o Brasil sob todos os aspectos"

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O título deste artigo é uma referência ao livro do brilhante jornalista Paulo Francis: 30 anos esta noite – o que vi e vivi (SP, Cia. das Letras, 1994) – relançado em 2004 – e não ao filme de 1963, de mesmo nome, de Louis Malle. Nele, Francis rememora suas impressões e vivências do Golpe de Estado de 1964 que mergulhou o Brasil na escuridão, da qual ainda tentamos nos livrar e com a qual ainda temos contas a acertar.

Mas, a referência estanca aí. A noite a que me refiro não é a de 30 para 31 de março de 1964, antessala do Golpe de Estado e, sim, a noite de 12 para 13 de dezembro de 1968 que completou, há poucos dias, longos 54 anos. No dia 12 de dezembro de 1968, em votação histórica, a Câmara dos Deputados Federais, negou o pedido de licença para processar o Deputado Federal Márcio Moreira Alves, incluindo nesses votos 94 de parlamentares da Aliança Renovadora Nacional (ARENA), o partido do governo. Este foi estrepitosamente derrotado: 216 votos contrários, 141 favoráveis e 12 abstenções.

No dia 2 de setembro de 1968, Márcio Moreira Alves discursou na Câmara dos Deputados, fazendo referência ao 7 de setembro que se aproximava. Pediu aos pais dos estudantes que não deixassem seus filhos participarem dos desfiles convocados para a comemoração da data e que as moças não dançassem com cadetes e não namorassem os jovens oficiais. Poucas pessoas presentes e pequena repercussão. Mas, os militares consideraram o discurso uma afronta. Em 12 de setembro começou o processo de cassação de Márcio Moreira Alves no STF e, dias depois, os ministros militares pediram que fosse processado com base na Lei de Segurança Nacional. Como Márcio era deputado e tinha imunidade parlamentar houve a necessidade de licença da Câmara para processá-lo o que foi negado na histórica votação de 12 de dezembro de 1968.

Mas, a vingança não tardaria. No dia seguinte, 13 de dezembro de 1968, o governo lança novo Ato Institucional 2 , o AI-5. Elaborado por Luís Antônio da Gama e Silva, Ministro da Justiça – vejam só!, o antigo reitor da Universidade de São Paulo/USP – do governo do General Artur da Costa e Silva, o segundo dos ditadores militares, pós-1964. O Ministro Gama e Silva anunciou o AI-5 pelo rádio lendo seus 12 artigos que consolidavam definitivamente a Ditadura com: fechamento do Congresso Nacional, das Assembleias Legislativas Estaduais e das Câmaras Municipais; intervenção federal nos Estados e Municípios; cassação de deputados, senadores e vereadores; suspensão dos direitos políticos dos cidadãos; decretação do Estado de Sítio sem consulta ao Legislativo; proibição do habeas corpus para os considerados crimes políticos.

Como se pode ver, a noite de 12 para 13 de dezembro de 1968 foi tenebrosa e precursora de tragédias anunciadas.

Eis que, transcorridos 54 anos, temos uma também tenebrosa noite de 12 para 13 de dezembro de 2022. Criminosos, em Brasília, incendiaram carros e ônibus, tentaram invadir a sede da Polícia Federal na Capital do país, depredaram prédios, almejaram invadir o Hotel onde se hospeda o presidente legitimamente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, dentre outras barbaridades. E isto, sem que houvesse qualquer reação policial contra os atos criminosos de vandalismo. O Governador do Distrito Federal, bem como o Ministro da Justiça – aquele que foi convocado pelo Presidente em exercício para dialogar com o, não menos criminoso, ex-deputado federal, Roberto Jefferson – nada fizeram. Nenhuma prisão contra os criminosos foi sequer anunciada. E eles prosseguiram, livremente, barbarizando a cidade. São os mesmos que se encontram acampados no Palácio da Alvorada; em frente ao Quartel General do Exército e, também, em frente aos quartéis.

Qualquer cidadão comum sabe que os quartéis e, obviamente, o Quartel General do Exército, constituem áreas militares das quais não se pode aproximar. Deve-se, por segurança, manter um distanciamento desses prédios. Como explicar os “acampamentos” e as invasões? A única resposta possível é a conivência policial de todas as escalas. E, também, governamental. Quem já participou de movimentos sociais conhece muito bem a rígida repressão policial, muitas vezes expressa com violência a manifestações de cunho pacífico, em luta por direitos.

O futuro Ministro, Flávio Dino, foi taxativo – e é necessário que o seja – observando que, se os criminosos não forem penalizados nestes poucos dias finais do governo atual, o serão no próximo governo. Só assim, romperemos com uma tradição nociva e tipicamente brasileira, a da conciliação, em nome do “ordeiro e cordial” povo brasileiro. Se não se julgam crimes, não se pode virar a página. E a história continuará sendo escrita e vivida com violência política tratada como banalidade.

Assim foi em relação à Ditadura Militar Brasileira (1964-1985). A Anistia foi feita para torturados e torturadores. Os torturados haviam sido penalizados de todas as formas, incluindo prisões, mortes e desaparecimentos. E os torturadores continuaram impunes. Isto é responsável pela construção de uma “memória positiva” da Ditadura Militar. O que faz com que muitos bradem: queremos a volta dos militares! No tempo dos militares é que era bom! Vade retro! Foi terrível e negativo para o Brasil sob todos os aspectos. Como se não bastasse, quando houve a oportunidade de rever essa excrescência, na Comissão Nacional da Verdade (CNV), nada foi feito e prevaleceu a anistia de ambas as partes.

Se não fizermos a necessária revisão da Lei da Anistia de 1979 o Brasil não poderá virar a página e continuaremos sob a égide dos militares. O atual governo é o melhor exemplo disso com a ocupação inédita de cargos e funções por militares de carreira. O lugar de militares é na caserna e na defesa dos interesses e da salvaguarda da população brasileira, o que não se tem visto.

Começa um novo período que, espero, tenha a coragem de virar aquela página nefasta da História brasileira: a Ditadura Militar.

*Profa. Dra. do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). Mestrado e Doutorado pela FFLCH/USP e Pós-doutorado pela UFSCar. Autora de Censura, Imprensa, Estado Autoritário (1968-1978). Bauru, EDUSC, 1999 e Bons Tempos, Hein? SP, Todas as Musas, 2022. Especialista em estudos sobre a Ditadura Militar Brasileira (1964-1985).

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A educação financeira e o machismo https://canalmynews.com.br/voce-colunista/a-educacao-financeira-e-o-machismo/ Wed, 07 Dec 2022 20:05:07 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=34829 Questão do machismo não é abordada com frequência em discussões sobre educação financeira

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Cada vez mais o tema educação financeira se torna pauta das redes sociais. Influenciadores ganham espaço mostrando que aprender a lidar com o dinheiro vai bem além da conta básica de gastar menos do que se ganha. A chamada economia comportamental – que atrela questões emocionais à gestão do dinheiro ganha força e com razão, pois muito da nossa gestão financeira vem da gestão das emoções. Quando digo “nossa” falo do grupo que ganha o suficiente ou mais do que o suficiente para manter suas necessidades básicas, pois temos uma parcela considerável do país que não sabe se terá condições de comer amanhã.

Mesmo dentre esses influenciadores que trazem a questão comportamental para as finanças – e tem muita gente boa fazendo isso – vejo que um tema específico não aparece com relevância (pode até ser que apareça e que eu tenha pesquisado menos do que deveria). Esse tema é o machismo e seus impactos na vida financeira de uma família. 

Vou contar um caso que ilustra a relevância de trazer esse tema à tona.  Não sou educadora financeira (inclusive aprendi a gerir bem meu dinheiro há poucos anos), mas como já fiz alguns cursos de economia comportamental, há cerca de dois anos um cliente me pediu ajuda para lidar com um funcionário. A história é real, só vou trocar os nomes. Vamos chamá-lo de Marcelo. Aos 40 anos, Marcelo trabalha em uma empresa de médio porte em um cargo de coordenação na área operacional. Casado, dois filhos e renda mensal de quase cinco salários-mínimos. Não paga aluguel, pois construiu uma casinha nos fundos da casa dos pais.

Marcelo tem um sedan médio com alguns anos de uso, valendo por volta de 80 mil reais. A esposa não trabalha e os colegas de trabalho de Marcelo se referem a ela como “madame” pois toda semana vai ao cabeleireiro, frequenta o shopping e faz questão de viajar nas férias e “ganhou” um carro do marido. Marcelo está endividado. E muito. Já “pediu para ser mandado embora”, gastou a indenização e o FGTS, foi recontratado em outro CNPJ do mesmo grupo e está pedindo o segundo empréstimo para a empresa.  Uma situação recorrente nos quase 20 anos em que trabalhei nesse meu cliente.

Foi na segunda solicitação de empréstimo – com o primeiro ainda não totalmente pago – que meu cliente pediu para eu entrar em ação e aplicar os meus poucos conhecimentos de economia comportamental para que Marcelo fosse “mais firme com a madame” que “exige” tanto. Vamos chamar a suposta “madame” de Soraia. Na primeira conversa com Marcelo, vi que Soraia não tinha nada de “madame”.  Ela simplesmente não sabia da situação financeira do marido porque Marcelo escondia dela até o quanto ganhava. Para Soraia, o estilo de vida da família era totalmente compatível com o salário de Marcelo.

Foram várias conversas até convencer Marcelo que ele não deixaria de ser “homem” se Soraia soubesse o quanto ele ganhava de verdade e que todas as semanas o casal se sentasse para analisar uma planilha de gastos. Que Soraia continuaria bela mesmo com uma visita mais espaçada ao cabeleireiro. E que os meninos já não eram tão pequenos assim, então Soraia poderia trabalhar, já que eles moravam no mesmo terreno dos pais de Marcelo e os filhos poderiam ficar com a avó ao voltarem da escola.

Marcelo foi bem resistente, pois além de ter de assumir sua real condição dentro de casa, como nos encontros de família ele poderia dizer que naquele ano eles não passariam férias no Nordeste? Afinal ele era o irmão mais velho então deveria ser o mais bem sucedido. Como encarar que a irmã dois anos mais nova poderia ter um salário maior que o dele? Se fosse um irmão mais novo ainda vai, mas a irmã?

Conversa daqui, conversa dali, Marcelo resolveu abrir o jogo com Soraia. Ela, além de acolher imediatamente o marido, arrumou um emprego em uma movimentada loja menos de um mês depois. Acabei conhecendo Soraia por acaso, já que é uma loja que eventualmente frequento. Ela me contou que estava feliz com o emprego e parecia mesmo. Menos de um ano depois não vi mais Soraia na loja. Pode ter arrumado outro emprego, pensei.

Passados quase dois anos desse caso, há cerca de dois meses meu cliente me chamou novamente para falar sobre Marcelo. Ele fora promovido na empresa – com salário agora um pouco maior do que seis salários-mínimos – e mesmo assim estava mais endividado que nunca. O dono da empresa se recusava a dar mais um empréstimo já que novamente havia sido feita a “jogada da demissão” para o recebimento do FGTS e do auxílio-desemprego e que novamente já havia um empréstimo em dívida. Soraia – que tem o ensino médio e nenhuma capacitação profissional – havia parado de trabalhar porque “o marido considerou que ela ganhava pouco” então era melhor “ficar em casa, pois ele poderia dar conta”. 

A conversa semanal do casal com a planilha de gastos em mãos não durou seis meses. O patrão de Marcelo passou a temer que ele recorresse a um agiota, o que é bem provável que aconteça. Sugeri ao patrão de Marcelo que desta vez não focasse na educação financeira, mas custeasse um psicólogo ou grupo de apoio, pois não há educação financeira que derreta o machismo arraigado. Pode não derreter, mas a economia comportamental precisa aprender a detectar e trazer esse assunto para o debate.

*Karen Gimenez é mestre em Comunicação, jornalista com pós-graduação em Estratégia Empresarial e geógrafa. É professora de pós-graduação da Universidade Paulista, pesquisadora associada do Núcleo de Apoio à Cultura e Extensão – Escola do Futuro da Universidade de São Paulo; facilitadora convidada do Sebrae-SP e consultora em Comunicação, Gerenciamento de Crises e Programas de Desenvolvimento para empresas e instituições. O conteúdo deste artigo é de cunho pessoal e não representa qualquer posicionamento das instituições para as quais a autora trabalha.

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Como lidar com os golpistas na mesa de jantar https://canalmynews.com.br/voce-colunista/como-lidar-com-os-golpistas-na-mesa-de-jantar/ Wed, 07 Dec 2022 17:40:05 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=34824 Como lidar com aquele cunhado que não acusa você de ser contra Bolsonaro por querer uma parte na mamata?

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Todo final de ano temos alguns dramas inevitáveis. Como aguentar os intermináveis e constrangedores amigos ocultos? Que por terem se tornado óbvios e cansativos, inventaram variações engraçadinhas que conseguem piorar o que já era desagradável. Como aguentar o enorme debate sobre as uvas passas? A música da Simone? O especial de Roberto Carlos?

Mas cada vez mais um dilema vai ganhando dimensões de problemas reais, e não apenas problemas de classe média para alimentar memes. Como lidar com a assim chamada polarização política?

Uns 10 anos atrás era apenas lidar com aquilo que hoje chamamos de “tios do zap”, ou seja, as pessoas que na festa natalina insistiam em soltar pérolas como “bandido bom é bandido morto” ou construir frases como “eu não tenho preconceito mas…”. E a solução que tentávamos adotar era tomar um gole a mais de vinho e mudar de assunto. Tipo perguntar para a nossa prima sobre o novo namorado.

Dava certo? Claro que não. O mesmo reacionário de plantão provavelmente iria comentar algo como “espero que seja melhor que aquele tatuado esquisito da última vez”. Mas entre mortos e feridos, no final da noite tudo o que se tinha era duas ou três fatias de torta de climão para contribuir para a ressaca da manhã do dia 25 de dezembro.

Contudo os últimos anos transformaram este climão inevitável em possibilidade de dígitos na extremidade do aparelho digestivo e diálogos intensos com volume acima do confortável. Uma coisa é lidar com os preconceitos difusos e falas abstratas. Outra é lembrar daquela visita no meio da pandemia com a pessoa sabendo estar infectada com o vírus, ou com o fato de seu sobrinho de 14 anos não estar vacinado.

Então, como lidar com aquele cunhado que não vacina seu sobrinho e ainda acusa você de ser contra Bolsonaro por querer uma parte na mamata? Ou com gente gritando que deste jeito a próxima ceia de natal vai ter o Totó como prato principal e com o choro de um primo de sete anos que não quer que seu cachorro seja comido?

A solução que a maioria das famílias irá tentar adotar é a da neutralidade e tolerância. Assumir o acordo de evitar assuntos polêmicos e, no inevitável momento que o poder revelador do vinho se juntar a intolerância, aceitar de forma condescendente a presença de discurso odioso na mesa natalina. Afinal o importante é manter a aparência de harmonia na família.

Para mostrar como esta postura é perigosa, irei lembrar de um dos episódios lamentáveis deste ano. Desculpe por isto. Lembremos do Mamãe Falei indo para Ucrânia e do vazamento daquela gravação com frases como “elas são fáceis porque são pobres”. A sociedade brasileira se revoltou não apenas com o conteúdo das frases, como também com aqueles que tentavam normalizar as declarações por ter sido feita em um grupo sobre futebol. Coisa de homem, disseram alguns.

Agora pensem comigo: se este tipo de frase é inaceitável em um grupo privado sobre futebol, porque seria aceitável na mesa da ceia de natal? Se tentamos convencer as pessoas a não aceitarem frases preconceituosas em uma mesa de bar, e demostrar repúdio contra o machista, o racista, o homofóbico, iremos tolerar isto em nossos parentes?

E pior, não se trata mais de apenas valores, não é mais uma questão de ser “politicamente correto”. Estamos falando de posturas que colocaram nossas vidas em risco na pandemia. Que deixaram algumas cadeiras vazias em nossas mesas.

E que hoje leva a nossos parentes, sangue de nosso sangue, a desejar que alguns de nós sejamos torturados, expatriados ou reeducados. As minorias que se submetam. Mesmo minorias com o mesmo sobrenome.

Buscar uma solução tolerante, diplomática, não é apenas subestimar a violência crescente do cenário atual. É também de uma arrogância perigosa. Se silenciar diante do discurso fascista no nosso lar, no momento de festa, é tratar o intolerante como apenas um iludido, que esta sendo manipulado e não é responsável por seus atos.

No nosso seio familiar o mais importante é criar um ambiente de amor. Mas amor não é apenas carinho, amor não é apenas harmonia. É criar um ambiente onde todos colaborem para que cada um de nós descubramos o caminho para sermos as melhores versões de nós mesmos.

Tolerar o ódio na ceia de natal não é um gesto de tolerância, não é um gesto de amor. É um gesto de covardia. É deixar o amor de lado para evitar um clima ruim, uma discussão, um rompimento. A coragem de criticar, e quando necessário, de repudiar também é um gesto de amor.

Se aquele que amamos esta adotando um caminho destrutivo, e ainda pior, arrastando outros de nós com eles, tolerar esta jornada como apenas uma divergência é colaborar com a ruína. As vezes um pai precisa repreender uma criança para que ela aprenda que a vida tem limites. As vezes temos que repudiar aquele que amamos por estarem destruindo a si mesmos e aos que o rodeiam.

Infelizmente àqueles que hoje acampam em frente aos quartéis, não vacinam seus filhos e que ontem contaminaram vários de nós com um vírus potencialmente letal não estão apenas iludidos ou fanatizados. São pessoas que acreditam estar em guerra pelo seu país, e estão dispostos a matar e torturar quem for inimigo. E sim, as vezes o inimigo seremos nós.

Infelizmente é o momento de demonstrar que o amor nem sempre é cordial. Que virar as costas é uma forma de transmitir a mensagem necessária. A mensagem que não iremos acompanha-los nesta jornada destrutiva.

Não precisa ser um gesto definitivo. O perdão é necessário. Mas não faz sentido perdoar aquele que acredita estar certo.

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Saiba quem foi Giordano Bruno https://canalmynews.com.br/maria-aparecida-de-aquino/giordano-bruno/ Mon, 14 Nov 2022 22:14:43 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=34648 "Nossa indignação deve ser a mesma que a de Giordano Bruno frente à traição de que foi vítima"

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Giordano Bruno (1548-1600), frade dominicano italiano, foi um filósofo, teólogo, matemático, poeta e escritor. Nasceu em Nola (Nápoles) e morreu em Roma, na fogueira, condenado pela Inquisição do Santo Ofício, julgado por heresia. Acreditava que as estrelas eram sóis que possuiriam seus próprios planetas, nos quais também poderia haver vida. Para ele, o universo era infinito, portanto, não se justificava a ideia da existência de um centro.

Pensando em Giordano Bruno recordo um belíssimo filme que leva seu nome, datado de 1973, dirigido pelo laureado cineasta Giuliano Montaldo (1930 – …). Foi assistente de direção de Gillo
Pontecorvo em A Batalha de Argel (1961) e dirigiu, dentre outros, Os Intocáveis (1968) e Sacco e Vanzetti (1971), ambos de Montaldo. Giordano Bruno faz parte da fase brilhante do cinema italiano entre os anos de 1960 e 1970.

O filme foi estrelado pelo magnífico ator Gian Maria Volonté, que vive o frade Giordano Bruno. Volonté (1933-1994) participou de grandes filmes como: Investigação sobre um cidadão acima de
qualquer suspeita (Elio Petri – 1970), A classe operária vai ao paraíso (Elio Petri – 1971) e o já citado Sacco e Vanzetti. Além de ator foi um ativista político pró-comunismo e, durante muitos anos, foi casado com a conhecida atriz italiana Carla Gravina. Dentre muitos prêmios, em 1987, ganhou o Urso de Prata pela atuação no filme O caso Moro, também conhecido no Brasil. Morreu de ataque cardíaco, filmando na Grécia, sob a direção de Theo Angelopoulos (Alexandre, o Grande – 1980; Paisagem na Neblina -1988).

Na época assisti a muitos desses filmes, hoje clássicos, embora em 1973, tenha ocorrido a retirada de cartaz de muitos filmes pela censura férrea da Ditadura Militar brasileira, como A classe
operária vai ao paraíso e Sacco e Vanzetti.

Quando assisti Giordano Bruno me impactou, particularmente, uma frase do filósofo: Que ingenuidade, pedir a quem tem poder para mudar o poder. Como Bruno constava da lista de
procurados pela Inquisição havia se refugiado em Frankfurt. Entretanto, atende ao pedido de Giovanni Mocenigo de uma ilustre família veneziana para acompanhá-lo a pretexto de lhe ensinar a arte de desenvolver a memória. Veneza era conhecida por proteger foragidos e Bruno acede ao convite. Logo percebe que Mocenigo tinha péssimas intenções de utilizar as artes de Giordano para obter mais poder.

Assim, o filósofo se nega a ensiná-lo. Manifesta o desejo de retornar a Frankfurt e o nobre o denunciou à Inquisição. Foi preso e acusado de heresia. Teve a oportunidade de negar – abjurar – mas não o fez sendo condenado à morte, pronunciando a célebre frase aos seus algozes: Talvez sintam maior temor ao pronunciar esta sentença do que eu a ouvi-la.

Esta longa introdução leva às nossas preocupações atuais. Parafraseando Bruno, não podemos ser ingênuos em relação ao presente. Por alguns momentos acreditou-se que o presidente de plantão, escondido no seu silêncio, após a derrota nas urnas, fosse, finalmente, reconhecê-la. Não só não o fez como seus comandados espalharam a sublevação pelo país, buscando concretizar um golpe longamente acalentado.

Nossa indignação deve ser a mesma que a de Giordano Bruno frente à traição de que foi vítima: Que ingenuidade, pedir a quem tem poder para mudar o poder. Como imaginar grandeza em quem
não a tem? O presidente e seu entorno são seres humanos – se é que se pode denominá-los assim – diminutos, em termos de caráter. Portanto, deles só se pode acreditar na promoção da iniquidade de que são dotados.

Entretanto, sua derrota foi inequívoca. A nós compete garantir a consagração da democracia da vitória nas urnas e a posse do governo, legitimamente, eleito pela vontade popular.

*Maria Aparecida de Aquino é Profa. Dra. do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). Tem mestrado e doutorado pela FFLCH/USP; Pós-doutorado pela UFSCar. É especialista em estudos sobre a Ditadura Militar brasileira (1964-1985).

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Meu nome é Gal https://canalmynews.com.br/maria-aparecida-de-aquino/meu-nome-e-gal/ Mon, 14 Nov 2022 21:32:16 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=34644 "Ouvindo Gal Costa tenho a sensação de escutar um pássaro"

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Capa do disco Índia, de Gal Costa, foi censurada pela ditadura

Capa do disco Índia, de Gal Costa, foi censurada pela ditadura

O título deste artigo faz referência a uma das músicas mais conhecidas de Gal Costa (1945-2022), cujo nome completo era Maria da Graça Costa Penna Burgos. Nascida em Salvador (BA) e morta em São Paulo (SP). Para nosso orgulho, como paulistanos, Gal Costa resolveu morar em São Paulo nos últimos anos – sim, uma baiana em São Paulo que já foi chamado, preconceituosamente, de “túmulo do samba” – e aqui criar seu filho que adotou aos 2 (dois) anos de idade.

A canção a que se refere o título é de 1969, de autoria de Roberto e Erasmo Carlos que, nela, lhe fazem uma homenagem bastante carinhosa:

Meu nome é Gal
E desejo me corresponder
Com um rapaz que seja o tal
Meu nome é Gal…

Como música quero falar de sua voz. O que mais ouvi a respeito foi “cristalina”. Mas, é mais que isso. Ouvindo Gal Costa tenho a sensação de escutar um pássaro. É tão precisa e preciosa como uma ave rara cantando. E era rara mesmo.

Felizmente, nos incontáveis necrológios que assisti após sua morte, todos ressaltaram seu papel, além da intérprete genial. Quero destacar dois aspectos que a mim falam muito.

O primeiro deles, a coragem. Durante os anos da Ditadura Militar Brasileira (1964-1985), juntamente, com tantos outros, Caetano Veloso e Gilberto Gil, seus amigos de sempre, precisaram se exilar e foram para Londres. Gal Costa permaneceu aqui e, corajosamente, se posicionou contra o regime ditatorial que vivenciávamos. No período cantou a música, Divino maravilhoso, composta por Caetano Veloso e arranjada por Gilberto Gil para o festival de Música Popular Brasileira (MPB) de 1968. A música alertava para os perigos de se viver sob um regime repressivo e para a necessidade de resistir:

É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte (…)
Atenção. Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso
Atenção para o refrão
É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de temer a morte…

 

O segundo aspecto a ser destacado é seu papel como mulher. Era bissexual e, desde 1998, vivia com a empresária Wilma Petrillo. Algumas vezes expos o seu corpo naturalmente, o que chocou muitos. Em 1973, ao lançar o disco Índia, a capa apresentava Gal com uma tanga bem pequena e, na contracapa, a cantora com os seios de fora.

Isso motivou – que novidade! – a censura da Ditadura Militar e o disco precisou ser acondicionado em um plástico preto. Em 1994, no show, dirigido por Gerald Thomas, O sorriso do gato de Alice, apareceu com uma camisa semiaberta e, novamente, com os seios nus, já prestes a completar 50 anos. Ela cantava a poderosa e agressiva canção de Cazuza, Brasil:

Não me convidaram
Pra esta festa pobre
Que os homens armaram
Pra me convencer
A pagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada
Antes de eu nascer (…)
Brasil
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio
O nome do teu sócio
Confia em mim…

Poderia lembrar de muitas canções magníficas interpretadas por Gal Costa. Mas, quando lembro dela, sempre me vem à cabeça a doçura de Chuva de Prata (1984) de autoria de Ed Wilson e Ronaldo Bastos:

Chuva de prata que cai sem parar
Quase me mata de tanto esperar
Um beijo molhado de luz
Sela o nosso amor…

E foi assim. Na “terra da garoa”, na São Paulo que ela escolheu viver, sob uma suave chuva que Gal Costa foi enterrada. Prefiro acreditar que se tratava de uma chuva de prata que ela merecia. Símbolo da cultura brasileira, sempre engajada, nos últimos tempos, se posicionou contra as sandices do governo atual. Estrela de magnífica grandeza, o Brasil “mostra tua cara” empobrecida pela sua ausência.

*Maria Aparecida de Aquino é Profa. Dra. do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). Tem mestrado e doutorado pela FFLCH/USP; Pós-doutorado pela UFSCar. É especialista em estudos sobre a Ditadura Militar brasileira (1964-1985).

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