Arquivos equidade de gênero - Canal MyNews – Jornalismo Independente https://canalmynews.com.br/tag/equidade-de-genero/ Nosso papel como veículo de jornalismo é ampliar o debate, dar contexto e informação de qualidade para você tomar sempre a melhor decisão. MyNews, jornalismo independente. Thu, 28 Nov 2024 23:13:13 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.7.2 Brasil está aquém dos EUA em representatividade feminina no legislativo https://canalmynews.com.br/opiniao/brasil-esta-aquem-dos-eua-quando-o-assunto-e-representatividade-feminina-no-legislativo/ Thu, 28 Nov 2024 14:53:55 +0000 https://localhost:8000/?p=48906 Câmara Federal brasileira conta atualmente com quase 18% de mulheres eleitas, percentual ainda inferior ao índice das norte-americanas

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Nos pleitos de 2024, as mulheres não receberam a quantidade desejável de votos para o legislativo quando o tema é a equidade de gênero na política, embora tenha havido um ligeiro crescimento no Brasil a partir da eleição municipal e uma ligeira queda nos EUA a partir da nacional.

A comparação advém de números absolutos de institutos independentes ou públicos, considerando que, em cada país, o tipo de eleição ocorre em momentos diferentes, embora os períodos de análise sejam os mesmos.

Ainda que nos EUA tenha havido queda, a proporcionalidade da representação e o número de cadeiras disponíveis faz com que o país consiga apresentar mais equidade feminina na política do que o Brasil — sendo 435 na Câmara Federal e 100 no Senado americano, versus 513 e 81 no brasileiro.

No Brasil, foram mais de 10,6 mil mulheres eleitas para as câmaras municipais, preenchendo 18,2% das vagas, ante 16% no pleito de 2020, de acordo com o TSE. Nos EUA, a situação foi oposta. Os norte-americanos, que até 2025 contam com 151 congressistas (Câmara Federal e Senado) ou 28,2% das cadeiras, terão, a partir da próxima legislatura, 148 mulheres, o equivalente a 27,7%, segundo o Center for American Women and Politics – Eagleton Institute of Politics.

Apesar da queda, os resultados são notáveis, sobretudo em comparação com o Brasil, que não alcança 30% de cadeiras na maior parte das casas legislativas, apesar da política nacional de cotas promulgada em 1995. Atualmente, a Câmara Federal brasileira conta com quase 18% de mulheres eleitas, número semelhante ao conquistado na eleição municipal deste ano, e ainda inferior ao índice das norte-americanas.

Em 1998, mesmo após a implementação das cotas de 30%, na Câmara Federal brasileira houve uma queda de 33 para 28 mulheres eleitas. Considerando o número de senadoras para a 51ª legislatura — 10 — o país contava com 38 congressistas. No mesmo período, os EUA registraram 54 eleitas para a Câmara e 9 para o Senado, totalizando 63.

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A partir dos anos 2000, o Brasil alcançou 43 eleitas para a Câmara Federal e 11 para a 52ª legislatura do Senado, totalizando 54. Em 2002, os EUA chegaram a 59 e 13, totalizando 72. Nos anos 2006, 2010 e 2014, o Brasil chegou a 45, repetiu 45 e alcançou 51 deputadas, além das senadoras, que somaram 17 (53ª), 16 (54ª) e 17 (55ª legislatura), totalizando 62, 61 e 68 congressistas, respectivamente. No mesmo período, nos EUA, as eleitas eram 67 na Câmara e 14 no Senado, totalizando 81 (2006); 73 e 17, totalizando 90 (2010); e 80 e 20, totalizando 100 (2014).

Dilma Rousseff, a primeira presidente eleita por um grande partido (PT) em 2010, contribuiu para um ligeiro aumento no número de vitoriosas, enquanto a primeira candidata não eleita lançada por um grande partido norte-americano em 2016, Hillary Clinton (Democratas), estimulou o salto para 84 mulheres na Câmara e a manutenção de 21 no Senado em 2017.

A partir de 2018, com a eleição de dois conservadores — Trump em 2016 e Bolsonaro em 2018 — o número de eleitas aumentou de maneira significativa nos dois países. No Brasil, foram 77 para a Câmara e 22 para o Senado (56ª legislatura), totalizando 99 congressistas.

Nos EUA, eram 87 e 23 em 2018, totalizando 110; em 2019, 101 e 25, totalizando 126. Em 2022, no Brasil, o número de eleitas para a Câmara Federal passou para 91 e para 11 no Senado (57ª legislatura), totalizando 102. Os EUA, no mesmo período, contavam com 122 e 24, totalizando 146, que saltaram para 126 e 25 em 2023, totalizando 151.

Os dados indicam que a representatividade feminina é maior nos EUA pelo menos desde a década de 1990, quando no Brasil foram instituídas as cotas. Não obstante, demonstram que o Brasil foi pioneiro no lançamento de uma presidente capaz de vencer, embora o fato não tenha resultado em um aumento imediato do número de eleitas no país.

Da mesma forma, o lançamento de Clinton ou Kamala Harris para a presidência americana não contribuiu imediatamente para o aumento do número de eleitas no legislativo norte-americano, apesar de ter havido um aumento proporcional na linha do tempo após as duas vitórias de Trump. O aumento dos números seria uma reação às gestões conservadoras? O que as norte-americanas têm a ensinar às brasileiras?

Juliana Fratini é doutora em Ciência Política, membro conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel) e organizadora da obra Princesas de Maquiavel: Por Mais Mulheres na Política, publicado pela Editora Matrix.

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O futuro do trabalho tem espaço para as mulheres? https://canalmynews.com.br/mais/futuro-do-trabalho-tem-espaco-para-mulheres/ Fri, 24 Sep 2021 19:06:19 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/futuro-do-trabalho-tem-espaco-para-mulheres/ Numa realidade multitarefas e com diversas exigências sociais para as mulheres, o futuro do trabalho cada vez mais digital pode ser oportunidade de promover equidade de gênero, ou de aumentar as disparidades

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O comércio eletrônico cresceu 68% em 2020 no Brasil e, com a pandemia da COVID-19, a adoção do trabalho remoto decolou, assim como a educação a distância. A acelerada transição da economia digital no mundo, juntamente com a inserção de novas tecnologias, como inteligência artificial e robótica, prometem redesenhar a natureza do trabalho. A questão que fica é: o futuro do trabalho está sendo pensado de forma a incluir as mulheres? Reportagem da revista AzMina busca debater este tema.

A artesã Isabel Ribeiro, 61 anos, viu o isolamento social desafiar a existência da Associação de Artesãos de Campos Sales, no Ceará, que vende produtos feitos com palha de milho, couro e trançados há mais de 18 anos. Muitos clientes chegavam pela loja física e ela se sentiu de mãos atadas desde o ano passado, sem saber como manter o negócio, coordenado por ela.

“Para mim está sendo difícil. Eu ainda estou meio perdida”, disse sobre a transição do negócio para o digital. Isabel conseguiu fazer uma conta no Instagram para a associação, mas as vendas virtuais são escassas e o balanço comercial já está perto do vermelho. Ela considera que domina bem competências digitais básicas, como acesso ao e-mail e às fotos no computador. Mas não tem noção de gerenciamento de redes, plataformas de vendas ou mesmo como usar planilhas eletrônicas para controlar o fluxo de caixa do negócio.

“O desespero da mulher empreendedora hoje é que ela já entendeu que o digital é necessário, que é a única saída, mas ela ainda não sabe como usar as ferramentas nos negócios”, explica Ana Fontes, fundadora e presidente da Rede Mulher Empreendedora (RME).

A alta exigência por competências digitais e a demanda por estudos e requalificação são desafios para muitas profissionais no Brasil. Mulheres enfrentam jornadas duplas atreladas ao trabalho doméstico, algo que foi ainda mais acentuado durante a pandemia. Com a redução de redes de suporte presenciais, muitas se tornaram as únicas cuidadoras responsáveis pelos filhos e parentes.

A transição para o futuro do trabalho pode ser uma oportunidade para promoção de equidade de gênero, com a possibilidade de as mulheres assumirem cargos mais bem remunerados e papéis de liderança. Mas também pode levar ao aumento das disparidades sociais e salariais, e eventualmente até à exclusão do mercado de trabalho.

“Se o mundo continuar como está, o futuro do trabalho vai ser de quem sempre ocupou as posições de poder: homens brancos, cisgênero, de classe média alta”, argumenta Silvana Bahia, idealizadora do PretaLab, um projeto dentro da organização Olabi, que busca estimular a participação de mulheres negras e indígenas no setor de tecnologia.

Elas na tecnologia

Lorrane Santos, 27, começou a trabalhar ainda na infância. Quando fez 15 anos, ela foi selecionada para um programa de jovem aprendiz em Salvador e pôde realizar o sonho de comprar um computador. Com a bolsa de R$ 250 por mês, Lorrane cobria as parcelas do laptop que o tio dividiu em dez vezes no cartão e usava o restante do valor para ajudar a avó, que vivia de reciclagem, a pagar o aluguel e as despesas da casa.

“Ninguém na minha família me incentivou. Minha mãe queria que eu fizesse medicina ou engenharia para melhorar de vida”, conta Lorrane, que não desistiu. “Eu queria fazer daquilo a minha profissão. Queria investir no computador para estudar”. Hoje, ela trabalha como UX Designer em uma startup que vende soluções digitais para negócios.

Lorrane, no entanto, é parte de uma minoria na realidade brasileira. O número de mulheres no mercado de trabalho no Brasil caiu de 53,1% no quarto trimestre de 2019 para 45,8% no terceiro trimestre de 2020, o percentual mais baixo em 30 anos, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Mesmo com a economia brasileira em baixa, o setor de tecnologia gerou 54 mil novos empregos em 2020, conforme dados da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais, a Brasscom. O problema é que mulheres como Lorrane ocupam menos de 40% de todas as vagas formais, enquanto os homens estão em 70% dos cargos de liderança. A pandemia também levou muitas mulheres a migrarem para o empreendedorismo digital por necessidade, onde encontraram novos desafios relacionados à manipulação de plataformas online e digitalização dos negócios, como foi o caso da artesã Isabel.

Gráfico mercado de trabalho tecnologia - AzMina
Homens ainda são maioria no mercado de trabalho relacionado à tecnologia/Imagem: Revista AzMIna/Reprodução

Segundo dados da Rede Mulher Empreendedora (RME), organização da sociedade civil que reúne mais de 1 milhão de mulheres donas de negócios no Brasil, 80% das empreendedoras foram impactadas pela pandemia. A maioria das empresas cadastradas na rede operava presencialmente a nível local antes da COVID-19. A mesma pesquisa do RME demonstrou que mais de 70% das mulheres não sabem como fazer vendas online ou não tem estrutura empresarial para fazer. Mais de 91% acreditam que as redes sociais são os únicos meios digitais para vendas pela internet.

“Existe uma questão de gênero no acesso às tecnologias que vai além das relações individuais e afasta as mulheres dessas carreiras”, afirma Iana Chan, CEO e fundadora da PrograMaria, que promove formação e engajamento de mulheres na tecnologia para aumentar a diversidade no setor. Iana reforça que as mulheres enfrentam estigmas e estereótipos que associam carreiras em ciência, tecnologia e engenharia ao sexo masculino.

Um futuro do trabalho excludente também inquieta Emanuelly Oliveira, CEO e fundadora do Social Brasilis, que desenvolve programas educacionais voltados para o desenvolvimento de habilidades digitais e empreendedorismo em comunidades periféricas.

“O avanço da tecnologia, principalmente da robótica e da automação, vai cortar postos de trabalho, que serão substituídos por sistemas e máquinas”, indica Emanuelly. Ela imagina um futuro do trabalho muito excludente para a população na base da pirâmide e, sobretudo, para as mulheres que têm menos familiaridade com as novas tecnologias. “Robótica, por exemplo, virou uma questão de gênero”, destaca.

Sobrecarga pandêmica

É preciso trazer o fenômeno chamado de “crise do cuidado” para essa conversa. Cuidados com filhos, idosos e doentes, e as tarefas domésticas ainda são responsabilidades que recaem sobre as mulheres no Brasil. Inclusive, ficaram mais complexas com a crise sanitária: metade das brasileiras passaram a cuidar de alguém desde o início da pandemia , segundo levantamento da Gênero e Número e da Sempreviva Organização Feminista.

A professora de espanhol Ivana Oliveira, 40 anos, é parte dessas estatística. Quando a pandemia foi declarada, ela estava de licença-maternidade. Mãe de um bebê recém-nascido e de uma menina de 11 anos, perdeu o emprego quando a licença acabou e precisou buscar vagas em um mercado reticente com a crise econômica.

Como muitas mulheres brasileiras, Ivana começou a empreender através de plataformas online. Ela criou uma conta no Instagram para buscar estudantes e divulgar seu trabalho, se inscreveu em uma pós-graduação em novas tecnologias aplicadas à educação, e abriu uma empresa para oferecer aulas através do Zoom.

“Antes eu era professora, agora são várias novas responsabilidades. Eu administro a empresa, cuido da parte financeira e do marketing, faço contratos, planejo as aulas. Tudo isso no ambiente de casa onde surgem as demandas da família o tempo todo”, contou Ivana, que teve que se adaptar.

Realidades como a de Ivana, mostram que é impossível pensar em um futuro do trabalho que seja inclusivo sem refletir seriamente sobre a distribuição e remuneração dos trabalhos de cuidado.

Redes de apoio para incluir

Menos de 20% da população brasileira domina operações básicas de informática como copiar e mover pastas e arquivos eletrônicos ou enviar e-mails com anexos, segundo dados do último levantamento feito pela União Internacional das Telecomunicações, agência da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2019.

Os números são piores entre as mulheres. Em competências especializadas, como a linguagem de programação, o total de mulheres hábeis não chega a 1,5% da população brasileira. A situação é ainda mais restrita quando analisada com recortes de raça. O total de mulheres negras e indígenas não chega a 2% dos profissionais do setor de tecnologia, segundo dados da Brasscom.

Gráfico desigualdades trabalho tecnologia - AzMina
A desigualdade de gênero começa ainda no treinamento básico para capacidades profissionais/Imagem: Revista AzMina/Reprodução

Em levantamento feito com 570 negras e indígenas que trabalhavam com tecnologia e inovação no Brasil em 2018, o projeto PretaLab identificou que mais de 50% chegou até o setor por contato informal, em grupos de apoio e pela internet. Para Silvana Bahia, idealizadora do projeto, a trajetória por caminhos não-tradicionais mostra a dificuldade que essas mulheres encontram para acessar cursos de graduação e educação técnica. “O fato de muitas dessas mulheres não serem absorvidas nas estruturais formais faz com que elas empreendam e busquem alternativas”, argumenta.

Aline Bezzoco, 30 anos, engenheira de software front-end há quase dez anos, começou a trabalhar como designer gráfico e com marketing digital antes de migrar para a tecnologia. “Eu sempre me interessei por tecnologia e quando era adolescente gostava de consertar computador”, recorda Aline. “A faculdade de ciência da computação me espantou porque era extremamente masculina e branca e continua sendo até hoje”, disse ela, que é negra

Existem muitas iniciativas querendo mudar essa realidade, como Programaria, Preta Lab, Reprograma e tantas outras. E o processo de inclusão e ascensão no setor passa pela desconstrução de estereótipos e estreitamento de redes de apoio, para evitar inclusive assédios

Quando decidiu migrar para a área de tecnologia no final de 2019, Aline Paz, 26 anos, atuava há sete anos como cabeleireira e maquiadora, e se sentia estagnada profissionalmente. Hoje, ocupando um cargo de analista de sistemas, ela acredita que encontrou as portas abertas durante a transição de carreira por causa das comunidades que surgiram nos últimos cinco anos para facilitar a inserção feminina no setor.

“As redes de apoio ajudam muito. Ver que outras mulheres passaram pelos mesmos programas de treinamento e hoje ocupam cargos de gestão dá força para quem está começando”, revela Aline. Ela fez um bootcamp (tipo de treinamento intensivo) de três meses no projeto Reprograma – que ensina programação para mulheres – e, no estágio final do curso, foi contratada por um grande banco.


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