Arquivos fascismo - Canal MyNews – Jornalismo Independente https://canalmynews.com.br/tag/fascismo/ Nosso papel como veículo de jornalismo é ampliar o debate, dar contexto e informação de qualidade para você tomar sempre a melhor decisão. MyNews, jornalismo independente. Tue, 23 Aug 2022 13:16:13 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.7.2 A ponte entre o liberalismo e o fascismo https://canalmynews.com.br/voce-colunista/a-ponte-entre-o-liberalismo-e-o-fascismo/ Tue, 23 Aug 2022 13:16:13 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=33209 O fato é que o capital não tem nenhuma resistência com economias de países ditatoriais, desde que se mantenha uma economia nos moldes liberais.

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Em uma matéria recente do Guilherme Amado para o site Metrópoles, o Brasil descobriu que um grupo de empresários bolsonaristas conversam abertamente sobre como, segundo eles, um golpe de estado seria preferível a volta do Lula a Presidência da República.

O jornalista teve acesso a conversas de WhatsApp destes empresários. Entre vários absurdos, quero destacar a frase de Jose Koury. Segundo o proprietário do Barra World Shopping, “Prefiro um golpe que a volta do PT.  Um milhão de vezes. E com certeza ninguém vai deixar de fazer negócios com o Brasil. Como fazem com várias ditaduras no mundo.”

Esta frase é difícil de engolir em vários aspectos. Temos um empresário analisando o impacto de um golpe de estado nos Brasil sob o aspecto dos negócios. O que importa para ele é que os investidores estrangeiros não deixariam de investir no Brasil caso entremos em um regime de excessão.

Apesar da falta de compromisso com a democracia ser chocante, o mais assustador é que a frase é em sua essência verdadeira. Meio verdadeira. Se é verdade que a lógica do mercado não gosta de instabilidades e de incertezas, e portanto seria reticentes com reviravoltas ditatoriais, também é verdade que a história nos mostra que regimes ditatoriais não impedem uma economia de mercado.

Como exemplo histórico podemos citar a origem da marca Fanta, criada pela Coca-Cola para continuar a negociar com a Alemanha Nazista, contornando as dificuldades dos embargos econômicos em uma economia em guerra. Um exemplo inofensivo, se compararmos, por exemplo, com o uso de judeus em campos de concentração por empresas como a Bayer.

Mas nem de longe o exemplo se resume a Alemanha nazista. Podemos citar até exemplos domésticos como as empresas automobilísticas durante a Ditadura Militar. Exemplo ainda melhor foi o Chile de Pinochet, que adotava políticas econômicas liberais ortodoxas em um regime totalmente autoritário. Ou atuais, como a dificuldade de estrangular a economia e o comércio de petróleo e derivados russos, mesmo com embargos comerciais nunca antes visto.

O fato é que o capital não tem nenhuma resistência com economias de países ditatoriais, desde que se mantenha uma economia nos moldes liberais. Mesmo com estados interventores, mantendo-se o controle privado dos meios de produção, o dinheiro continua vindo. Até para a China do Partido Comunista.

Isto é em uma primeira vista contraditório. Afinal a ideologia liberal é a mãe do conceito de Estado Democrático de Direito. O liberalismo surge como uma crítica ao estado autoritário e como uma defesa das liberdades individuais. Algum malabarismo precisa ocorrer para que alguns liberais prefiram ditaduras a governos que defendam uma economia com perfil mais social. Importante destacar que no caso aula brasileiro são alguns empresários, uma parte minoritária, como as assinaturas da Carta às brasileiras e aos brasileiros demonstram.

Mas mesmo assim algumas figuras muito influentes e muito ricas dos “conservadores no costume, liberais na economia” escolhem, por motivos ideológicos, um regime autoritário, uma ditadura, o oposto do liberalismo em sua origem.

A ponte entre o liberalismo e o autoritarismo começa por um foco ilusório na economia. Primeiro se afirma que a essência do liberalismo seria apenas a defesa de um Estado  Mínimo e de uma economia de livre mercado, retirando da ideologia a parte de direitos fundamentais e liberdades individuais. E depois se faz uma separação impossível entre economia e relações sociais, pretendendo que uma pode ser independente de outra.

Com esta distorção se torna possível defender a aprovação de empréstimos consignados com o Auxílio Brasil. Afinal se podemos separar a economia do social, então o fato do Auxílio Brasil ser uma verba destinada a retirar uma camada social da miséria absoluta se torna irrelevante, e passa a ser aceitável aplicar a lógica do mercado financeiro para uma verba que deveria ser de caráter alimentício e de subsistência.

Esta mesma lógica de tratar toda relação econômica livre como justa, ignorando a parte social, pode levar liberais como Joel Pinheiro a defender que a autorização do comércio de orgãos não vitais seria uma forma aceitável de diminuir as filas de transplante e ajudar pessoas em necessidade econômica. Ou, em outros termos, não ver problemas éticos em pessoas se mutilarem para evitar a miséria vendendo seus órgãos para quem possa comprar.

Mas esta desconexão entre economia e sociedade não explica totalmente como liberais podem apoiar os regimes mais extremos, o fascismo, o nazismo e seus similares. Para tanto precisamos de um ingrediente a mais. Algo que justifique ideologicamente que alguns grupos sociais possam ser colocados a parte dos direitos humanos supostamente universais. No século XIX alguns liberais não viam problema na escravidão. No século XX, outros liberais acreditaram que o fascismo era uma ferramenta para se evitar o comunismo.  Hoje alguns liberais enxergam  nas causas identitárias e nas políticas afirmativas uma ameaça a liberdade econômica.

A justificativa moderna para se excluir grupos sociais inteiros daqueles que merecem ter direitos humanos plenos é a meritocracia. Sim, a aparentemente inofensiva meritocracia, que parece ser apenas uma bobagem usada por coachs para capturar o dinheiro de seus alunos. Esta é a ponte possível entre o liberalismo e o fascismo contemporâneos.

Para tal basta passar a entender as diferenças econômicas e sociais como resultado de uma mentalidade inadequada, de escolhas erradas ou de mera incompetência ou falta de vontade de vencer. Este é o momento que classificamos os marginalizados como pessoas que querem privilégios, que não se esforçam, ou que são incompetentes. Em resumo, são inferiores. São incapazes. São parasitas. São menos do que nós, os cidadãos de bem.

A meritocracia não é apenas uma ilusão para convencer a classe média que ela pode ser tornar rica se trabalhar mais. É na verdade um culto as elites, e uma desumanização dos miseráveis. Pois para quem acredita na meritocracia, basta se esforçar para sair da miséria.

Não é coincidência que estes empresários que preferem um golpe de estado a um governo de esquerda sejam também os que defendem que os movimentos sociais são uma ameaça a democracia. E que querem que os cidadãos de bem se armem e exterminem as ameaças sociais que o outro, o diferente e o excluído representam. E também não é coincidência que sejam os maiores defensores da meritocracia. Estes são a ponte entre os supostamente liberais e os fascistas. Em nome de Deus, da Pátria e da Família. ANAUÊ!

 

*Aniello Olinto Guimarães Greco Junior é servidor público concursado do Tribunal Superior do Trabalho, Aniello Greco passou tempo demais na universidade, sem obter diploma. Já fingiu ser jogador de xadrez, de poker, crítico de cinema, sommelier de cerveja. Sabe de quase tudo um pouco, e quase tudo mal.

 

*As opiniões das colunas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a visão do Canal MyNews

 

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O quão fascista Bolsonaro é? Ou fascista por metonímia https://canalmynews.com.br/voce-colunista/quao-fascista-bolsonaro-e-ou-fascista-por-metonimia/ Tue, 31 Aug 2021 18:32:36 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/quao-fascista-bolsonaro-e-ou-fascista-por-metonimia/ No livro “Como funciona o fascismo”, Jason Stanley utiliza fascismo para ultranacionalismos nos quais a nação é representada por um líder autoritário e exemplifica com os confederados norte-americanos. Eis um erro de principiante no estudo da História

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As características do fascismo são conhecidas: autoritarismo reacionário pró elites econômicas, militarista, golpista, anticientífico, salvacionista, milicista, virilista aloprado e tantas outras. Se elencarmos todas as principais características, em todas ou quase pode se colocar ‘check’ ao lado na comparação com o que constatamos no movimento bolsonarista. Logo, o capitão e seus capitaneados são fascistas?

Depende. Por metonímia certamente. Chamamos todas as esponjas de aço de bombril, mesmo que Bombril, maiúsculo, seja apenas uma delas. Vamos falar em sentido estrito ou estamos num churrasco e queremos apenas “acabar” com ele? Se estivermos na segunda posição, então não há nada de errado, a metonímia serve muito bem, assim como chamar de nazista um neonazi ou de comunista um protossocialista que sonha com revolução. Afinal, é isso o que são.

Se alguém pensa e age como fascista, recebe representantes da AfD, reconhecida na Alemanha como de inclinações neonazi, se manda afagos aos autoritários do mundo e tira fotos com malucos fantasiados de Hitler ou afins, então dá para dizer que sim. É fascista. E não estaria completamente errado chamá-lo de franquista ou outro nome que o valha. Mas, e se… estivermos tentando falar de modo estrito, tentando estudar o fenômeno com suas características mínimas e compreendê-lo de tal modo que, conhecendo a doença, podemos conhecer também a cura? Aí é diferente. A afirmação é mais cuidadosa, assim como a negação é pouco assertiva.

Em seu bom, mas impreciso, livro “Como funciona o fascismo”, Jason Stanley utiliza o “rótulo” (sic) fascismo para ultranacionalismos nos quais a nação é representada na figura de um líder autoritário e, entre seus vários exemplos, fala dos confederados norte-americanos na época da Guerra da Secessão que ocorreu décadas antes do termo fascismo ser cunhado e Mussolini e Gentile e outros nascerem.

“Eis uma ideologia fascista clássica…”, escreve Stanley. Eis um erro de principiante no estudo da História, o famigerado anacronismo. A grosso modo, anacronismo é referir-se a um objeto histórico de uma época com termos próprios a outra.

Mas e se os confederados tiverem confirmadas características suficientes para, como o bolsonarismo, serem chamados de nazistas? E eles tinham essas características! Eram então nazifascistas? Não. Eram outra coisa, eram confederados. Mas como explicar que eram e não eram algo. Eram fascistas por metonímia, digamos. Ou seja, não eram, mas podem levar esse nome por imprecisão, mas estavam acometidos do mesmo mal. O que os aproxima é outra coisa, e pior, por ser subestimada. O nome dessa doença é reacionarismo.

Eu sei, reacionarismo é um termo que não desconta nossa raiva e é mais difícil de se comunicar usando termos menos populares, mas é a vida… É o custo da precisão, se a desejamos. Os fascismos são o reacionarismo constituído em um movimento. Reaças isolados não metem medo. Mas quanto mais organizado, mais próximo da imagem clássica do nazifascismo.

O movimento de rua passo a passo se organiza e se radicaliza: consegue tornar-se um partido, consegue tomar o governo, suspender as legalidades constitucionais, rasgar as instituições, perseguir adversários, torná-los inimigos objetivos da nação, expandir fronteiras, no limite talvez eliminar os que não seguem o grande líder ou que este não seleciona para viver. Mas esse é o limite chamado totalitarismo.

Voltemos ao bolsonarismo. Se o chamamos de fascista como Jason Stanley chamou os confederados estaremos
usando o diagnóstico genérico em vez do diagnóstico acurado. Fascismo existiu um, “fascismos” há muitos. Cada doença precisa de uma cura, cada doença deve ter sua designação própria. A doença é os movimentos reacionários; confederacionismos, bolsonarismos, franquismos, salazarismos, fascismos e nazismos são suas manifestações, suas variações reinventadas que não fluem necessariamente de Mussolini, fluem da inclinação política reacionária.

Uma peste! O oposto do revolucionarismo. Este quer quebrar as instituições ao meio, para supostamente levar a um progresso em muito pouco tempo. Reacionarismo quer o regresso, mas um regresso muito grande nas instituições, nos costumes, na organização do povo, e para isso ambos utilizam de artifícios parecidos de controle. O reacionarismo é a peste que, cuja ideologia (um conjunto de ideias supostamente lógico inventado a partir de poucas ideias de base) apoia-se em Deus, nação, pureza, honra, virilidade, força, hierarquia… É nesse âmbito mínimo de ideias que surge a crença de superioridade do movimento reacionário nas repúblicas modernas.

Reacionários veem a nação de modo primitivo e tribal e anseiam a purificação dos outros. Nunca encontrando na própria miscigenação sinal de impureza, somente na miscigenação alheia. Foi assim antes do fascismo, continuou sendo após sua queda. Uma coisa é a doença: o modo como as pessoas tendem a pensar politicamente de acordo com suas tendências pessoais, em parte impulsivas e em parte racionalmente aprendidas. Outra, são os sintomas que dependem do organismo, do país e da época em que se instala: o movimento político, conjunto mais ou menos coeso de pessoas em torno a ideias comuns que pode se tornar um sistema bem fundamentado de proposições ou não e ainda um grupo bem organizado de pessoas ou não.

Há uma fraqueza nesse pensamento, afinal precisamos utilizar de modo menos estrito certos termos para conseguirmos nos comunicar. Um exemplo é a palavra democracia. Surgiu numa Grécia tão antiga, que o significado era outro, dizem que até pejorativo. Quando hoje no Brasil atual falamos em democracia, falamos de outra coisa, mas a mesma palavra nos remete a coisas diferentes, ainda que próximas, sem que a gente se perca no raciocínio.

Mas ainda assim pode-se falar de modo mais preciso sobre as democracias como democracias representativas, republicanas, modernas… entre outras atualizações. Ou seja, não há regra absoluta. Pode-se usar um nome para se referir a fenômenos complexos em política, desde que se saiba que há subdivisões necessárias a serem consideradas.

Fascismo é um guarda-chuva impreciso arranjado para abarcar e nomear algo anterior e posterior a Mussolini: movimentos reacionários. Defendo que referir-se a vários movimentos políticos diferentes com o mesmo nome é ruim porque não privilegia as diferenças específicas de cada movimento e como tal dificulta o entendimento e o consequente poder de ação contrário aos autoritarismos deles resultantes.

E referir-se às tendências políticas através da História que desenvolvem vários movimentos diferentes, ainda que parecidos, é mais desejável exatamente porque privilegia a especificidade de cada evento histórico, facilitando o entendimento e a ação preventiva ou contrária aos autoritarismos, aos movimentos antidemocráticos, reacionários, primitivistas.

O bolsonarismo se aproxima mais das “democracias iliberais” da Hungria e Turquia até o momento, nunca se constituiu em partido ou em movimento coeso como no século XX, e pode descambar em uma ditadura clássica sul-americana, ou num protofascismo pseudodemocrático novo. Todas essas variações são próximas e, em geral, afora Maduro, são reacionárias e tendem a não romper claramente a democracia, mas não a deixam em paz também. Não nos deixam em paz.

E então? Depois disso tudo. A metonímia ou o senso estrito permanece? Vai! Pode me dizer: no que digo nos meus churrascos mando eu.


Quem é Valdinéli Ribeiro Martins?

Pai, graduado em Filosofia – UFPR, fotógrafo amador, aficionado por política, literatura e afins.

* As opiniões das colunas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a visão do Canal MyNews


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