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]]>Depende. Por metonímia certamente. Chamamos todas as esponjas de aço de bombril, mesmo que Bombril, maiúsculo, seja apenas uma delas. Vamos falar em sentido estrito ou estamos num churrasco e queremos apenas “acabar” com ele? Se estivermos na segunda posição, então não há nada de errado, a metonímia serve muito bem, assim como chamar de nazista um neonazi ou de comunista um protossocialista que sonha com revolução. Afinal, é isso o que são.
Se alguém pensa e age como fascista, recebe representantes da AfD, reconhecida na Alemanha como de inclinações neonazi, se manda afagos aos autoritários do mundo e tira fotos com malucos fantasiados de Hitler ou afins, então dá para dizer que sim. É fascista. E não estaria completamente errado chamá-lo de franquista ou outro nome que o valha. Mas, e se… estivermos tentando falar de modo estrito, tentando estudar o fenômeno com suas características mínimas e compreendê-lo de tal modo que, conhecendo a doença, podemos conhecer também a cura? Aí é diferente. A afirmação é mais cuidadosa, assim como a negação é pouco assertiva.
Em seu bom, mas impreciso, livro “Como funciona o fascismo”, Jason Stanley utiliza o “rótulo” (sic) fascismo para ultranacionalismos nos quais a nação é representada na figura de um líder autoritário e, entre seus vários exemplos, fala dos confederados norte-americanos na época da Guerra da Secessão que ocorreu décadas antes do termo fascismo ser cunhado e Mussolini e Gentile e outros nascerem.
“Eis uma ideologia fascista clássica…”, escreve Stanley. Eis um erro de principiante no estudo da História, o famigerado anacronismo. A grosso modo, anacronismo é referir-se a um objeto histórico de uma época com termos próprios a outra.
Mas e se os confederados tiverem confirmadas características suficientes para, como o bolsonarismo, serem chamados de nazistas? E eles tinham essas características! Eram então nazifascistas? Não. Eram outra coisa, eram confederados. Mas como explicar que eram e não eram algo. Eram fascistas por metonímia, digamos. Ou seja, não eram, mas podem levar esse nome por imprecisão, mas estavam acometidos do mesmo mal. O que os aproxima é outra coisa, e pior, por ser subestimada. O nome dessa doença é reacionarismo.
Eu sei, reacionarismo é um termo que não desconta nossa raiva e é mais difícil de se comunicar usando termos menos populares, mas é a vida… É o custo da precisão, se a desejamos. Os fascismos são o reacionarismo constituído em um movimento. Reaças isolados não metem medo. Mas quanto mais organizado, mais próximo da imagem clássica do nazifascismo.
O movimento de rua passo a passo se organiza e se radicaliza: consegue tornar-se um partido, consegue tomar o governo, suspender as legalidades constitucionais, rasgar as instituições, perseguir adversários, torná-los inimigos objetivos da nação, expandir fronteiras, no limite talvez eliminar os que não seguem o grande líder ou que este não seleciona para viver. Mas esse é o limite chamado totalitarismo.
Voltemos ao bolsonarismo. Se o chamamos de fascista como Jason Stanley chamou os confederados estaremos
usando o diagnóstico genérico em vez do diagnóstico acurado. Fascismo existiu um, “fascismos” há muitos. Cada doença precisa de uma cura, cada doença deve ter sua designação própria. A doença é os movimentos reacionários; confederacionismos, bolsonarismos, franquismos, salazarismos, fascismos e nazismos são suas manifestações, suas variações reinventadas que não fluem necessariamente de Mussolini, fluem da inclinação política reacionária.
Uma peste! O oposto do revolucionarismo. Este quer quebrar as instituições ao meio, para supostamente levar a um progresso em muito pouco tempo. Reacionarismo quer o regresso, mas um regresso muito grande nas instituições, nos costumes, na organização do povo, e para isso ambos utilizam de artifícios parecidos de controle. O reacionarismo é a peste que, cuja ideologia (um conjunto de ideias supostamente lógico inventado a partir de poucas ideias de base) apoia-se em Deus, nação, pureza, honra, virilidade, força, hierarquia… É nesse âmbito mínimo de ideias que surge a crença de superioridade do movimento reacionário nas repúblicas modernas.
Reacionários veem a nação de modo primitivo e tribal e anseiam a purificação dos outros. Nunca encontrando na própria miscigenação sinal de impureza, somente na miscigenação alheia. Foi assim antes do fascismo, continuou sendo após sua queda. Uma coisa é a doença: o modo como as pessoas tendem a pensar politicamente de acordo com suas tendências pessoais, em parte impulsivas e em parte racionalmente aprendidas. Outra, são os sintomas que dependem do organismo, do país e da época em que se instala: o movimento político, conjunto mais ou menos coeso de pessoas em torno a ideias comuns que pode se tornar um sistema bem fundamentado de proposições ou não e ainda um grupo bem organizado de pessoas ou não.
Há uma fraqueza nesse pensamento, afinal precisamos utilizar de modo menos estrito certos termos para conseguirmos nos comunicar. Um exemplo é a palavra democracia. Surgiu numa Grécia tão antiga, que o significado era outro, dizem que até pejorativo. Quando hoje no Brasil atual falamos em democracia, falamos de outra coisa, mas a mesma palavra nos remete a coisas diferentes, ainda que próximas, sem que a gente se perca no raciocínio.
Mas ainda assim pode-se falar de modo mais preciso sobre as democracias como democracias representativas, republicanas, modernas… entre outras atualizações. Ou seja, não há regra absoluta. Pode-se usar um nome para se referir a fenômenos complexos em política, desde que se saiba que há subdivisões necessárias a serem consideradas.
Fascismo é um guarda-chuva impreciso arranjado para abarcar e nomear algo anterior e posterior a Mussolini: movimentos reacionários. Defendo que referir-se a vários movimentos políticos diferentes com o mesmo nome é ruim porque não privilegia as diferenças específicas de cada movimento e como tal dificulta o entendimento e o consequente poder de ação contrário aos autoritarismos deles resultantes.
E referir-se às tendências políticas através da História que desenvolvem vários movimentos diferentes, ainda que parecidos, é mais desejável exatamente porque privilegia a especificidade de cada evento histórico, facilitando o entendimento e a ação preventiva ou contrária aos autoritarismos, aos movimentos antidemocráticos, reacionários, primitivistas.
O bolsonarismo se aproxima mais das “democracias iliberais” da Hungria e Turquia até o momento, nunca se constituiu em partido ou em movimento coeso como no século XX, e pode descambar em uma ditadura clássica sul-americana, ou num protofascismo pseudodemocrático novo. Todas essas variações são próximas e, em geral, afora Maduro, são reacionárias e tendem a não romper claramente a democracia, mas não a deixam em paz também. Não nos deixam em paz.
E então? Depois disso tudo. A metonímia ou o senso estrito permanece? Vai! Pode me dizer: no que digo nos meus churrascos mando eu.
Pai, graduado em Filosofia – UFPR, fotógrafo amador, aficionado por política, literatura e afins.
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