Arquivos holocausto - Canal MyNews – Jornalismo Independente https://canalmynews.com.br/tag/holocausto/ Nosso papel como veículo de jornalismo é ampliar o debate, dar contexto e informação de qualidade para você tomar sempre a melhor decisão. MyNews, jornalismo independente. Fri, 24 May 2024 14:36:41 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.7.2 Lula tira Bolsonaro das manchetes e dá munição ao comício golpista de domingo https://canalmynews.com.br/balaio-do-kotscho/lula-tira-bolsonaro-das-manchetes-e-da-municao-ao-comicio-golpista-de-domingo/ Tue, 20 Feb 2024 17:30:08 +0000 https://localhost:8000/?p=42468 Não seria preciso invocar Adolfo Hitler para defender os palestinos e atacar o governo genocida de Israel

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No momento em que o STF e a Polícia Federal fechavam o cerco a Bolsonaro e sua gangue de golpistas, todos eles convocados a depor nesta quinta-feira gorda em Brasília, Lula lhes fez o favor de tirá-los das manchetes, ocupadas agora pelas desastradas declarações sobre o massacre de Israel contra o povo palestino, comparando-o ao Holocausto que incinerou 6 milhões de judeus nas câmeras de gás.

De quebra, entregou farta munição para o ex-presidente inflamar seu comício marcado para este domingo, na avenida Paulista, em São Paulo, “em defesa da democracia, do Estado Democrático de Direito e da liberdade”, ou seja, tudo o que ele tentou destruir em seus quatro anos de governo.

Agora, esse ato, “sem atacar ninguém”, vai ser também em defesa do Estado de Israel e contra Lula, insuflando os bolsonaristas evangélicos, que ganharam de graça uma bandeira para levar às ruas e um mote para a sua manifestação de protesto contra o cerco ao seu líder deflagrado pela Justiça e pela Polícia Federal.

Claro que Lula se referia ao governo de Benjamim Netanyhau, responsável pela morte de mais de 30 mil palestinos, e não ao povo judeu, espalhado pelo mundo, a quem deveria se dirigir diretamente para explicar melhor o que quis dizer ao fazer essa comparação, sem lastro nos fatos históricos, um grave erro. Comparações são sempre perigosas. Não seria preciso invocar Adolfo Hitler para defender os palestinos e atacar o governo genocida de Israel.

Claro também que a milícia digital bolsonarista, que pegou fogo nos últimos dias, não iria fazer esta distinção. Era tudo que eles queriam para mobilizar os devotos.

Nenhum líder mundial até este momento saiu em defesa de Benjamim Netanyahu nesta batalha de Itararé verbal, mas os prejuízos para Lula e o governo já são grandes aqui dentro, ao ressuscitar e dar um novo embalo à oposição bolsonarista no Congresso e à ala lavajatista na mídia, que caíram matando no presidente. Com tantos problemas ainda para atacar na reconstrução do país, o Brasil não precisava disso agora, bem quando a economia começa a se recuperar.

Lembro-me que Lula respondia com uma pergunta quando algum assessor lhe levava uma ideia de jerico: “E o que nós ganhamos com isso?”.

É o que eu gostaria de perguntar agora a Lula, que arrumou uma grande e desnecessária encrenca multinacional, às vésperas do ato golpista para Bolsonaro se defender, disfarçado de “democrático”, marcado por ele já no desespero, ao se ver cercado por todos os lados, sem defesa, diante de tantas provas dos seus crimes de lesa-pátria, sem discurso e sem bandeiras, e resolveu partir para o tudo ou nada. Agora ninguém sabe o que pode acontecer no domingo. Coisa boa não será, seja qual for o tamanho da manifestação.

Vida que segue.

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“Existe um massacre acontecendo”, diz Padilha no programa Roda Viva https://canalmynews.com.br/politica/existe-um-massacre-acontecendo-diz-padilha-no-programa-roda-viva/ Tue, 20 Feb 2024 15:49:36 +0000 https://localhost:8000/?p=42462 Nesta segunda-feira (19), o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, falou sobre a declaração do presidente Lula a respeito do conflito na Faixa de Gaza - que se tornou uma crise diplomática

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No domingo 18 de fevereiro de 2024, numa coletiva de imprensa na Etiópia, o presidente Lula comparou as ações de Israel na Faixa de Gaza ao Holocausto, extermínio judeu feito pela Alemanha Nazista de Adolf Hitler. Ao responder à pergunta de jornalista sobre o governo brasileiro ser doador para a Agência da ONU de repasses para garantias de direitos humanitários após suspensão de outros países, disse que “o que está acontecendo na Faixa de Gaza com o povo palestino não existiu em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu. Quando Hitler resolveu matar os judeus

A repercussão da fala foi imediata e rodou as manchetes do Brasil e do mundo de forma polêmica e, em geral, negativa. O governo de Israel tratou classificou Lula como “persona non grata”, uma repreensão grave no mundo da diplomacia e a conversa ocorre, tradicionalmente, a portas fechadas. O embaixador brasileiro em Israel e o Itamaraty foram surpreendidos, porém, com o aviso de que o encontro se daria com a presença da imprensa e no Museu do Holocausto.

Se instalou uma crise diplomática entre Brasil e Israel desde a fala do presidente Lula e a proporção que tomou o caso. A primeira dama e socióloga, Janja Lula, se pronunciou em sua rede social em defesa do presidente “a fala se referiu ao governo genocida e não ao povo judeu. Sejamos honestos nas análises”


O ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, também se pronunciou sobre a declaração no programa Roda Viva, da TV Cultura, que foi ao ar nesta segunda. Padilha comentou todo o caso e também o pedido de impeachment contra Lula, protocolado por 90 parlamentares – sobre este afirmou que “não vai progredir”.

Ao fazer referência a Benjamin Netanyahu, afirmou que é ele o isolado em suas posições e que não se preocupa que a repercussão atrapalhe o lugar do Brasil na política internacional, pois “Netanyahu é passageiro” e as relações de solidariedade entre os países ultrapassam o primeiro-ministro. Reafirma também para os jornalistas da bancada o posicionamento do presidente Lula:

“Existe um massacre acontecendo e tem que acabar o mais rápido possível. Eu torço para que a posição nova dos Estados Unidos mobilize e acabe com qualquer tipo de obstáculo dentro da ONU para que a gente migre para o cessar-fogo o mais rápido possível”

O MyNews debateu o assunto no programa Segunda Chamada e abaixo você pode acessar o trecho já disponível – não deixe de comentar:

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O holocausto é aqui! https://canalmynews.com.br/colunistas-convidados/o-holocausto-e-aqui/ Mon, 06 Feb 2023 19:47:26 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=35791 Nosso 'turning point' como brasileiros acontece agora ao encararmos a tragédia dos Yanomami

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O transcorrer do tempo e a repetição das imagens faz com que se naturalizem fatos que nunca poderiam ser naturalizados. Recentemente, vimos tantas vezes as cenas criminosas de destruição do malfadado dia 08/01/2023, atingindo o Palácio do Planalto, o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional, que elas quase já se naturalizaram para nós. Não causam tanto estupor e indignação como nos primeiros momentos. Precisamos lutar contra isso e manter forte a indignação, pois, só ela impedirá que estes fatos se repitam. Pelo contrário, a cada vez que as enxergarmos, devemos descobrir novos elementos para ativar nosso repúdio.

Assim é com as cenas que mantém vivo nosso horror ao contemplar as imagens da liberação dos campos de concentração nazistas ao término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Imagino o estupor do mundo ao dizer que contemplava essas cenas pela primeira vez. Afinal, o mundo todo se fechou numa negação conveniente afirmando o desconhecimento do que acontecia no intramuros do nazismo.

Gérard Vincent em memorável artigo para a magnífica coleção História da Vida Privada: Guerras ditas, guerras silenciadas e o enigma do identitário (vol. 5: Da Primeira Guerra a nossos dias. SP, Cia. das Letras, 1992. p. 201-247) observa que os franceses gostam de enfatizar seu desconhecimento sobre o que acontecia com os judeus no período.

Em 1940 parte da França foi conquistada pelos nazistas e o país viveu seu turning point, seu momento de inflexão, onde foram colocadas à prova todas suas mais profundas concepções enquanto povo e país. A França ocupada pelos nazistas viveu um pesadelo de colaboracionismo – os franceses (muitos) que colaboravam com o nazismo – e, como em todo território dominado pelos alemães, o horror da perseguição implacável aos judeus mandados para campos de concentração e para a morte.

Moravam na França cerca de 300.000 judeus. Estatísticas baseadas nos arquivos alemães calculam que cerca de 75.721 judeus franceses foram deportados para a “solução final”, o extermínio, e os mesmos dados apontam para 2.500 sobreviventes, ou seja, apenas 3% ao término do conflito.

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Vincent pergunta: os franceses sabiam? Sua resposta é que: eles sabiam da deportação ao vê-los desaparecer. Não poderiam imaginar o que era a “solução final”.

Até que ponto isso pode eximi-los de culpa?
Nosso turning point como brasileiros acontece agora ao encararmos a tragédia dos Yanomamis. A maioria dos povos indígenas que povoam as Américas migraram da Ásia em direção ao Continente Americano, através do Estreito de Bering, cerca de 15.000 anos atrás. Os Yanomami estabeleceram-se na região que ocupam atualmente há aproximadamente um milênio.

Depois de uma longa luta e muitas denúncias sobre a sua condição e devastação pelo contato, particularmente, com o garimpo, em 1992, finalmente, houve a demarcação do território Yanomami. Seu território no Brasil é de mais de 9,6 milhões de hectares. Para se ter uma ideia, é o dobro do tamanho da Suíça. Se reunirmos suas terras no Brasil com as da Venezuela, onde também habitam, chegaríamos ao maior território indígena coberto pela floresta em todo o mundo.

Segundo reportagem da Revista Carta Capital – edição número 1245, de 08/02/2023, p. 16 -, o território Yanomami possui “a tabela periódica inteira”, tal a riqueza e a diversidade mineral contida em suas terras. Se isto poderia representar sinal de prosperidade para o povo, transformou-se na razão de sua desgraça, dada a ganância dos exploradores que para lá se dirigem para roubar as riquezas de seu solo e conduzir uma verdadeira operação de extermínio do povo.

Até final do século XIX, os Yanomami mantinham contato apenas com outros grupos indígenas vizinhos. Seus primeiros encontros diretos com caçadores e soldados da Comissão de Limites ou viajantes estrangeiros deu-se entre 1910 e 1940. Entre 1940 e 1960, o contato se sofistica com a presença das missões católicas e evangélicas que lá se estabeleceram. O encontro sempre foi danoso aos Yanomami, trazendo surtos epidêmicos de doenças que não existiam na região e dizimaram parte do povo.

Porém, foi durante a Ditadura Militar que se desenvolveu o Plano de Integração Nacional, com a abertura da estrada Perimetral Norte invadindo o território Yanomami. Desenvolveu-se o RADAM, um Projeto de Levantamento de Recursos Amazônicos, que alertou para a existência de importantes jazidas minerais na região. Estava dado o mote para a invasão do território e para o desencadear da corrida do ouro. Em 1993, garimpeiros invadiram uma aldeia e assassinaram 16 indígenas, o que ficou conhecido como “Massacre de Haximu”. Houve julgamento e condenação por genocídio do episódio.

Estimativas calculam que, entre Venezuela e Brasil, existiriam aproximadamente 35.000 Yanomamis, sendo que, só no Brasil, teríamos cerca de 15.000 pessoas distribuídas em 250 aldeias.

No mês de janeiro de 2023, o Ministério da Saúde decretou emergência para combater o descaso com a população Yanomami depois da denúncia do Ministério dos Povos Indígenas de que cerca de 570 crianças morreram nos últimos 4 anos devido ao avanço descontrolado do garimpo ilegal.

A visão desoladora da situação dos Yanomamis só encontra semelhança com a dos campos de concentração no momento de sua liberação em 1945. Sabemos que o aval dado pelo último governo para o garimpo na região tem profunda responsabilidade com este novo genocídio.

Porém, da mesma forma como não adianta aos franceses apelar para o desconhecimento da situação de holocausto judaico em seu território, não adianta a nós brasileiros alegarmos o mesmo desconhecimento em relação à situação de genocídio dos Yanomamis. Nada vai nos eximir da culpa enquanto povo.

Foi muito bom para os franceses encarar seu colaboracionismo com o nazismo. A nós brasileiros será salutar compreender que a tragédia Yanomami é responsabilidade de todos nós.

Só assim poderemos crescer como população digna e soberana!

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Auschwitz, 77 anos depois https://canalmynews.com.br/mais/auschwitz-77-anos-depois/ Mon, 31 Jan 2022 21:20:34 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=23334 Relembrar as grandes atrocidades cometidas pelo ser humano contra a própria humanidade pode nos ajudar a nunca mais repeti-las

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A libertação pelos soviéticos do maior e mais terrível – se é que é possível mensurar nesse nível de atrocidades cometidas – dos campos de concentração nazistas, Auschwitz, ocorreu há 77 anos, em 27 de janeiro de 1945.

Quem já visitou algum campo de concentração nazista se assusta com alguns aspectos: a preservação magnífica e sua semelhança com tudo o que vemos nos filmes que se dedicam à temática da II Guerra Mundial (1939-1945).

Auschwitz funcionou entre 1940, quando foi construído e, 1945, quando os soviéticos libertaram os últimos prisioneiros (aproximadamente 7.000). Durante sua vigência, cerca de 1,3 milhão de pessoas foram deportadas para seus campos e, destas, foram exterminadas 1,1 milhão. Desses, por volta de 960.000 eram judeus.

Localiza-se ao sul da Polônia, na região da Cracóvia. É formado por três grandes unidades (Auschwitz I, II e III), além de outros subcampos, sendo que Auschwitz-Birkenau (Auschwitz II) era voltado principalmente para o extermínio.

A maioria dos prisioneiros de Auschwitz era composta de judeus, mas, havia, também, ciganos, alemães que haviam cometido infrações recorrentes e prisioneiros políticos poloneses, originários de outros campos.

O primeiro de seus comandantes (1940 a 1943) foi Rudolf Hess. Foi condenado à prisão perpétua nos famosos julgamentos de Nuremberg. Havia ajudado a redigir as execráveis “Leis de Nuremberg”, em 1935, que retiravam direitos dos judeus e são consideradas um dos marcos iniciais das atrocidades nazistas. Morreu, aos 93 anos, na prisão de Spandau, para onde foi transferido após o julgamento.

O escritor Primo Levi foi prisioneiro de Auschwitz. Escreveu: É isto um homem? (RJ, Rocco, 1988), narrando suas desventuras, mas, principalmente, refletindo sobre as dificuldades de adaptação à vida após a experiência limítrofe dos campos nazistas. Suas palavras nos forçam a pensar – além dos campos – sobre o que resta aos sobreviventes. Sua reflexão, extremamente dolorosa, ultrapassa o senso comum estabelecido historicamente acerca dos campos de concentração e demais experiências nefastas vivenciadas pelo homem, ao longo do tempo.

A mim, fica a indagação, muito debatida, mas ainda válida: como o ser humano é capaz de tais atrocidades?  Senão, vejamos: quando os soviéticos se aproximavam (e os nazistas sabiam antecipadamente de sua chegada) as guardas especiais alemãs, as SS, tentando uma evacuação do campo, fizeram dezenas de milhares de prisioneiros caminhar (o que ficou conhecido como “Marcha da Morte”) por muitos quilômetros. Atiravam nos que não conseguiam prosseguir. Aproximadamente 15.000 morreram na “Marcha”.

Outro questionamento que fica diz respeito à alegada ignorância dos referidos campos de concentração no transcorrer da II Guerra. Quando os campos, ao final da guerra, foram definitivamente desnudados para o mundo, boa parte dos povos protestaram ignorância sobre sua existência e, obviamente, sobre as condições vivenciadas pelos prisioneiros dentro deles.

Um exemplo chocante é o da França. Parcialmente ocupada por nazistas a partir de 1940, teve cerca de 75.000 judeus enviados para campos de concentração. Deles, somente cerca de 2.500 retornaram. E os franceses persistiram na constatação de ignorância acerca do que havia acontecido. Como você pode ignorar as pessoas ao seu redor desaparecendo? A escolha da conveniência assume muitas facetas. Essa, cruel, é uma delas.

Aos que presenciaram atrocidades cometidas pelo homem sempre resta a memória (às vezes é só o que resta). Os nazistas sabiam da sua importância, por isso, tentaram destruir o produto de sua ignomínia. Auschwitz, também, foi alvo de incêndio de documentação do ocorrido nos campos.

Aliás, é de se questionar: por que a maior parte dos regimes autoritários faz questão de preservar a documentação de seus horrores? Acreditam que durarão para a eternidade e que nunca serão derrubados? A mim parece que lhes falta o básico conhecimento da história da humanidade.

Sua ignorância histórica é nosso passaporte para o conhecimento e uma de nossas garantias da luta contra o esquecimento e, consequente aprendizado com o passado. Nunca mais! Para não esquecer e não repetir!


Quem é Maria Aparecida de Aquino?

Maria Aparecida de Aquino é professora de História Contemporânea, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). Especialista nos estudos do regime militar brasileiro (1964-1985).

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Negacionismo https://canalmynews.com.br/mais/negacionismo/ Thu, 19 Aug 2021 19:44:07 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/negacionismo/ O negacionismo oferece uma percepção imaginária de um mundo confuso, sem rumo. Na melhor das hipóteses, é um misto de dúvida e de credulidade, na pior, um oportunismo político com objetivo de ganhos de curto e médio prazo

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O termo negacionismo foi criado pelo historiador francês Henry Rousso, na década dos 80 do século passado. Inicialmente, negacionismo indicava a atitude de negação de um fato histórico como o extermínio dos judeus da Europa pelos nazistas. Os negacionistas visam não a rever ou reexaminar o fato histórico, mas falsear a história, a partir de motivações ideológicas.

Mais recentemente, o negacionismo, como a tentativa de revisar a história, a ciência e influir na política, ressurgiu com força na Europa, em especial na França e na Alemanha, e nos EUA, em particular com Donald Trump. Em 6 de novembro de 2012, já pensando em sua candidatura presidencial, Trump enviou um tweet sobre mudança do clima em que dizia que o conceito de aquecimento global foi criado pelos chineses para deixar as manufaturas americanas não competitivas. Da vacina à mudança do clima, do genocídio ao terraplanismo, chegou-se, na campanha presidencial e durante o governo de Trump, ao QAnon, movimento de extrema direita, negacionista total, que teve intensa participação na tentativa de invasão do Congresso em Washington, na mais séria ameaça à democracia nos EUA, desde a guerra civil em 1861. Fake News e teorias conspiratórias passaram a negar fatos comprovados e verdades estabelecidas pela ciência com objetivos políticos.

O negacionismo tenta negar as descobertas da ciência
O negacionismo é uma tentativa de revisar a história, a ciência e influenciar a política/Imagem: Pixabay

“O negacionismo vai além de um boato ou fake news pontual. É um sistema de crenças que, sistematicamente, nega o conhecimento objetivo, a crítica pertinente, as evidências empíricas, o argumento lógico, as premissas de um debate público racional, e tem uma rede organizada de desinformação. Essa atitude sistemática e articulada de negação para ocultar interesses político-ideológicos muitas vezes escusos, que tem sua origem nos debates do Holocausto, é inédita no Brasil”, observa muito apropriadamente Marcos Napolitano, professor da Universidade de São Paulo (USP).

O negacionismo oferece uma percepção imaginária de um mundo confuso, sem rumo, em que se vive em condições de opressão, desespero e privações, no qual nada tem de ser aceito sem questionamento e onde ninguém deve ser confiável. O negacionismo, na melhor das hipóteses, é um misto de dúvida e de credulidade, na pior, um oportunismo político com o objetivo de ganhos de curto e médio prazo.

No Brasil, o negacionismo, historicamente presente na discriminação racial e no tratamento das comunidades indígenas, chegou com força no governo Bolsonaro. Durante a pandemia do Covid-19, o governo atual levou o negacionismo a proporções nunca vistas, com a negação ou minimização da gravidade da doença, no boicote às medidas preventivas, na subnotificação dos dados epidemiológicos, na omissão de traçar estratégias nacionais de saúde, no incentivo a tratamentos terapêuticos sem validação científica e na tentativa de descredibilizar a vacina, entre outras políticas e atitudes. Em outras áreas, um ministro do governo não se cansava de repetir sua atitude negacionista no tocante ao globalismo, à mudança climática, ao terraplanismo, ao marxismo cultural.

Causas do negacionismo

Como explicar essa atitude de negação, cujo objetivo, no fundo, é levar o público à confusão, além de outros efeitos paralelos. Muitos são os elementos para se entender a extensão da contaminação e a rápida aceitação de parte significativa das pessoas, em muitos países. Sem entrar em detalhes, por serem autoexplicativos, podem ser mencionados o crescimento da desigualdade social, o aumento da pobreza, a concentração de renda de forma generalizada no mundo e o baixo nível educacional, explorados por políticos populistas e autoritários. Todos esses fatores criaram um sentimento de ceticismo, de simplificação exagerada das coisas, levando a conclusões inadequadas, vitimização, interpretação diferente de fatos não evidentemente conectados e o culto da mentira e da realidade alternativa. Trump, o principal promotor da difusão das “fake news”, encontrou seguidores em outros países, que ajudaram a espalhar mentiras e teorias conspiratórias por todo o globo, com as facilidades oferecidas pela mídia social.

Quais os efeitos e as consequências?

O negacionismo representa um risco muito alto, como ficou evidenciado nos EUA pelas políticas Trump em relação à pandemia, que tornou os EUA o país com mais mortes no mundo e, nos dias atuais, com os efeitos desastrosos para a saúde das crianças, com a recusa de governadores, nos Estados mais contaminados pela Covid 19, de aceitarem o uso de máscaras em lugares fechados e nas escolas. Ou no Brasil, pelas politicas negacionistas na saúde que levaram a um crescente número de mortes, superando os 560.000, e na área política, com a contestação à lisura das eleições, colocando-se em dúvida, sem qualquer evidência, a segurança das urnas eletrônicas.

Em geral, contudo, os efeitos do negacionismo são menos diretos e concretos, mas não menos deletérios. O negacionismo na mudança do clima não conseguiu destruir o consenso científico de que o que está ocorrendo é decorrência da atividade humana. O que o negacionismo conseguiu foi dar respaldo aos que se opõem a políticas mais radicais para a defesa do planeta, inclusive aqueles que criticam um acordo global, o que ajudou a tornar o desafio ainda mais difícil.

O negacionismo também pode criar um ambiente de ódio e de suspeita. No caso do holocausto, o que se deseja é apoiar a nostalgia do regime totalitário e a utopia eugenista de uma nação pura. A negação do genocídio não apenas é uma recusa de aceitação de fatos históricos, como também representa um ataque a aqueles que sobreviveram e a seus descendentes porque procura apresentar os judeus como mentirosos e reabilitar a reputação dos nazistas. A recusa da Turquia em admitir que o massacre dos armênios existiu em 1915 também é um ataque aos armênios de hoje e uma forma de intimidação a outras minorias na Turquia, que questionam seu status e seus direitos.

Outras formas de negacionismo podem ser menos explícitas, mas não deixam de representar um perigo ou ameaça à verdade. A negação da teoria darwiniana da evolução humana não tem nenhum efeito imediato ou prático, apenas ajuda a desacreditar a ciência, o que pode alimentar atitudes que vão contra políticas baseadas em evidências científicas. Mesmo os lunáticos negacionistas – aqueles que aceitam, por exemplo, as teorias do terraplanismo, isto é, que a terra é plana (lembram-se de Galileu na Idade Média?) – embora difíceis de serem levados a sério, ajudam a criar um ambiente no qual a política e o conhecimento científico e acadêmico são colocados em dúvida em nome de uma ampla suspeita de que nada é aquilo que parece ser.

Penetração do negacionismo

O negacionismo passou das áreas marginais para o centro do discurso público ajudado em parte por motivações políticas e em parte pelas novas tecnologias. Na medida em que a informação se tornou mais livre e acessível online e a pesquisa passou a ser aberta a todos pela internet, multiplicam-se as oportunidades para discutir e contestar as verdades, como aceitas até aqui. É difícil ignorar completamente essas vozes, que seriam consideradas normalmente malucas ou totalmente desfocadas. A profusão de vozes, a pluralidade de opiniões, os ruídos despertados pela controvérsia são suficientes para despertar dúvidas sobre aquilo que se deveria acreditar.

Não há como deixar de reconhecer que o negacionismo representa um perigo real. Alguns casos podem ser indicados como exemplos concretos de negacionismo causando dano efetivo. Na África do Sul, o presidente Mbeki, nos primeiros anos deste século, foi muito influenciado por negacionistas da AIDS, que recusavam aceitar a relação entre HIV e AIDS, chegando mesmo a negar a existência da AIDS, lançando dúvidas sobre a efetividade dos remédios antirretrovirais. Estima-se que a aceitação dessa visão equivocada e a relutância de Mbeki em implementar um programa nacional de tratamento usando antivirais tenha custado a vida de cerca de 330.000 pessoas.

Como combater no negacionismo?

A resposta mais comum ao negacionismo é a exposição da mentira. Assim como os negacionistas produzem uma crescente quantidade de artigos, websites, apresentações, vídeos e livros, os que combatem o negacionismo devem responder e estão respondendo na mesma moeda. As alegações negacionistas são refutadas sistematicamente, ponto por ponto, seriamente ou de maneira jocosa.

Há casos em que houve também respostas institucionais, com consequências legais para o negacionismo. Em alguns países, foram aprovadas leis contra o negacionismo. Na França, por exemplo, a legislação proíbe o negacionismo em relação ao holocausto. Nos EUA, a tentativa de ensinar a ciência da criação juntamente com a teoria da evolução encontrou forte resistência e os negacionistas foram impedidos de escrever em revistas acadêmicas e de fazer conferências.

Conclusão

O que surpreende é o número de pessoas que aceitam “face value” essa atitude negacionista e as realidades criadas pelas fake news e teorias conspiratórias. Essa reação nem sempre ajuda a desfazer uma campanha negacionista porque, para os negacionistas, a existência do negacionismo é uma vitória. O argumento central deles é o de que a verdade foi suprimida por seus inimigos. Continuar a existir a negação é um ato heroico, a vitória sobre as forças da verdade. O combate ao negacionismo, nas sociedades democráticas, não se faz por medidas legislativas, mas pelas respostas imediatas e por ações da sociedade civil que exponham a falsidade, a distorção das fake news e a recusa em aceitar as evidências, em muitos casos, para uso político.


Quem é Rubens Barbosa?

Rubens Barbosa é consultor de negócios, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente do Conselho Deliberativo da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica e da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). É membro do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da USP, presidente emérito do Conselho Empresarial Brasil – Estados Unidos. Editor responsável da Revista Interesse Nacional. Foi Embaixador do Brasil em Londres, de janeiro de 1994 a junho de 1999, e em Washington, de junho de 1999 a Março de 2004.


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