Arquivos indigenista assassinado - Canal MyNews – Jornalismo Independente https://canalmynews.com.br/tag/indigenista-assassinado/ Nosso papel como veículo de jornalismo é ampliar o debate, dar contexto e informação de qualidade para você tomar sempre a melhor decisão. MyNews, jornalismo independente. Mon, 27 Jun 2022 20:59:30 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.7.2 “Nada está descartado”: o que diz o delegado que preside o inquérito sobre Bruno e Dom https://canalmynews.com.br/brasil/nada-esta-descartado-o-que-diz-o-delegado-que-preside-o-inquerito-sobre-bruno-e-dom/ Mon, 27 Jun 2022 20:58:05 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=30877 Delegado Alex Perez explica que uma segunda apuração poderá ser aberta e os indícios sobre um eventual mandante ainda são “poucos”

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selo agência pública

O delegado da Polícia Civil Alex Perez, que em Atalaia do Norte (AM) preside o inquérito sobre o assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, está confiante sobre as provas colhidas a respeito da autoria do crime. O mesmo ele não diz sobre um suposto mandante dos assassinatos.

“Aqui a gente está preocupado em concluir, porque temos prazo, essa situação do homicídio, da execução. Talvez eu peça a prorrogação [do inquérito], pela complexidade. Faltam os laudos ainda. Mas essa segunda fase eu não sei se vai ficar com a gente. Seria um novo inquérito, desdobraria [o primeiro]”, disse o delegado em entrevista exclusiva à Agência Pública na delegacia de Atalaia.

Hoje a investigação se concentra nas figuras dos pescadores e caçadores Amarildo da Costa de Oliveira, o “Pelado”, Jeferson da Silva Lima, conhecido como “Pelado da Dinha”, e Oseney da Costa Oliveira, o “Dos Santos”, irmão de “Pelado”. Os dois primeiros confessaram o crime, cometido no último dia 5, e apontaram à polícia o local exato onde os corpos foram enterrados perto da calha do rio Itaquaí. A polícia tem um prazo inicial de 30 dias, a contar de 5 de junho, para concluir a investigação. O prazo pode ser renovado diversas vezes por igual período por ordem judicial.

Uma eventual segunda etapa das investigações destinada a apurar um mandante poderá ficar sob a responsabilidade da Polícia Federal. Mas, a rigor, a Polícia Civil também pode abrir um inquérito a qualquer momento.

“Se eu tiver indícios e elementos suficientes — de gente que fale, porque as pessoas não falam dele [suposto mandante]. Já tentei buscar elementos para a gente instaurar um inquérito, porque eu não posso instaurar um inquérito sem base nenhuma. Mas a partir do momento em que eu tiver em mãos elementos suficientes para instaurar um inquérito, eu instauro. Porque todo mundo comenta, mas não tenho aqui, no papel, formalizado”, disse o delegado.

Agência Pública indagou quais elementos disponíveis à polícia teria até o momento que apontariam para um suposto mandante. O delegado respondeu que “muito pouco”, um material “insuficiente”. A reportagem apurou que um dos presos, o “Pelado da Dinha”, mencionou que transaciona com uma pessoa o produto da pesca clandestina e ilegal, mas não associou esse nome aos homicídios. “Pelado” não mencionou o empresário, apenas disse genericamente que comercializa o pescado em Tabatinga e Benjamin Constant.

“O Jeferson comentou que há poucos anos esse [empresário] compra essa mercadoria e financia. Falou pouco, um parágrafo, mas comentou. É o que todo mundo sabe, é voz corrente, que realmente compra esse material e financia. Em troca do financiamento, tudo que é extraído, que é pescado, caçado, é levado para ele como forma de compensação. O pescador deve ganhar algum valor, uma porcentagem. Ou parte do pescado. Tanto que eles mesmos [os presos] falam que vendem em Benjamin Constant. Aqui em Atalaia é muito pouco porque eles falam que é fraco [o movimento do comércio]. Aí eles vão para Benjamin, mandam para a Colômbia também.”

Essas citações, contudo, ainda são genéricas e inconclusivas, segundo o delegado, e não justificariam a abertura de um inquérito próprio. O delegado reiterou que primeiro pretende encerrar o inquérito sobre a autoria. Mas, “diante de novos fatos, se chegarem aqui para nós da delegacia de Atalaia, a gente vai investigar”. Segundo o delegado, para a polícia “nada está descartado”.

“A gente também tem esse interesse [de uma segunda investigação sobre suposto mandante], só que agora a gente não pode fazer duas coisas boas ao mesmo tempo. Fica difícil. O risco é acabar gerando uma nulidade, por exemplo, de um ato nosso aqui. Porque a gente está tendo o maior cuidado em tudo que estamos fazendo. Para evitar a nulidade num eventual Tribunal do Júri. Se anular um ato, e aí? Então a gente está tentando fazer um negócio bem amarradinho, se cercando de todas as cautelas para a gente entregar um trabalho bem [feito].”

A hipótese de um mandante pode dar início a uma segunda investigação, mas só depois que a primeira for encerrada, reiterou Perez. A prioridade da polícia nesse momento é terminar a apuração do crime em si, por meio das perícias da PF e da solução das contradições entre os depoimentos dos presos – detalhes que, para a polícia, não afetam a conclusão final do inquérito.

bruno e dom

Ainda está indefinida a hipótese de uma investigação própria sobre suposto mandante do assassinato de Bruno e Dom, de acordo com o delegado Alex Perez. Foto: José Medeiros/Agência Pública

As principais contradições

As principais contradições até aqui são, de acordo com o delegado: quem, entre “Pelado” e “Pelado da Dinha”, atirou em quem no barco conduzido por Bruno e em que ordem; em que momento Dom Phillips foi morto; o número exato de cartuchos deflagrados (“Pelado” primeiro falou um tiro, depois três cada um); como foi a exata dinâmica do assassinato; a distância em que os disparos foram dados; o destino das armas usadas por “Pelado” e “Pelado da Dinha”; quantas e quais são as pessoas que ajudaram a ocultar os corpos.

Outra contradição entre os dois presos é quem convidou quem para entrar no barco na comunidade de São Rafael a fim de perseguir e matar Bruno e Dom, quando o indigenista e o jornalista passaram de barco pela comunidade na manhã do domingo, dia 5. “Pelado” diz que a iniciativa da perseguição partiu de “Pelado da Dinha”, que, entretanto, diz o contrário.

Para tentar resolver essas contradições, a polícia tem duas ferramentas: uma acareação entre os dois acusados e os exames periciais. Uma terceira medida será uma ampla reconstituição dos assassinatos no leito do rio Itaquaí com a participação dos três presos e de algumas testemunhas. Isso deverá ocorrer com apoio da Polícia Federal ainda nesta semana, segundo apurou a Agência Pública.

As perícias poderão ajudar a explicar a trajetória dos disparos dados pelos dois acusados e a dinâmica do ataque. O delegado Perez trabalha com duas hipóteses principais. Na primeira, Bruno é atingido por “Pelado da Dinha” pelas costas, perde o controle do barco, mas ainda consegue sacar a pistola que costumava carregar consigo. Essa arma desapareceu. Um dos acusados afirmou que Bruno, já atingido pelo primeiro tiro, bateu o braço em vários galhos na margem do rio e, com isso, a pistola se soltou de sua mão e caiu no rio.

A segunda hipótese é que o primeiro tiro partiu de “Pelado”, que depois deu uma volta com o barco e conseguiu atingir Bruno de frente, com mais dois tiros. Em seguida ou simultaneamente, Dom foi morto.

De qualquer forma, os depoimentos são coincidentes em indicar que Bruno foi atingido de surpresa, sem chance de reação, a curta distância. A suposta reação de Bruno, se de fato ocorreu (não há nenhuma prova disso até o momento), só vem depois do primeiro tiro que parte do barco onde estavam “Pelado” e “Pelado da Dinha”.

Há divergências sobre a distância do disparo efetuado contra Bruno. “Amarildo fala que foi um pouco mais distante. Já o outro fala que foi bem mais próximo, fala 3 ou 4 metros. Por isso que quando ele [Bruno] levou [o tiro], a lancha se desgovernou e avançou na margem do rio. E antes de chegar à margem do rio, Amarildo diz que Bruno conseguiu sacar a arma e efetuar alguns disparos. E a arma do Bruno? Segundo a versão do Amarildo, enquanto a lancha estava se dirigindo para a margem do rio, aquela galhada das árvores provavelmente teria batido na mão do Bruno e a arma teria caído [no rio]. Perguntamos mais de 30 vezes, ‘e a arma do Bruno?’. A versão do Amarildo é essa”, explicou o delegado.

Embora a Polícia Federal tenha feito inúmeras perícias, incluindo uma versão em 3D, não é garantido que elas consigam elucidar toda a sequência da perseguição, dos tiros e da ordem exata dos assassinatos. De qualquer forma, isso pouco muda em relação ao ponto fundamental do inquérito.

“Se a perícia não for completamente conclusiva em relação a essa dinâmica, quem acertou quem, os dois [presos] vão ser indiciados. Até porque a Justiça procura aplicar a pena de acordo com a sua participação, a individualização da pena, como se chama. Mas nesse caso, se não concluir, na minha opinião [pouco muda]. Ambos confessam, há uma materialidade, os corpos foram encontrados, foram indicados por um dos dois, o outro também conta detalhes do que aconteceu. É pouco provável que escapem das acusações. E tem as provas técnicas ainda, que a gente está aguardando. São muitas. Tem a perícia da primeira lancha do Amarildo, onde foram encontrados vestígios de sangue, era bastante sangue, eu vi. Tem a perícia dos corpos. A gente arrecadou bastante material ontem [sexta-feira, dia 24].”

Motivação do crime

Sobre a motivação do assassinato considerada até o momento no inquérito, o delegado repetiu a linha antecipada à Agência Pública pelo principal investigador da Polícia Civil que atua no caso, a de que Bruno Pereira “atrapalhava” os negócios de “Pelado” e seus associados.

“A situação do conflito, a gente começou a se aprofundar nesses detalhes do conflito existente entre Amarildo, entre os familiares e Bruno. Que Bruno, segundo o depoimento deles, atrapalhava as negociatas, o negócio, a venda dos peixes. Que Bruno complicava lá, quando eles atavam as malhadeiras [equipamento para pesca], Bruno ficava passando com a canoa para dificultar, para o peixe não entrar, uma série de situações. E isso já vem de muito tempo, e isso gerou um certo inconformismo neles que em princípio gerou neles essa, essa… Quero usar a palavra correta. Essa reação desproporcional que culminou na execução dos dois.”

O delegado disse que não pretende “romantizar nada” e que irá “à essência da coisa”.

“Ele [Bruno] fiscalizava e eles [presos] alegam que eram prejudicados. Bruno fiscalizava, fazia o papel dele, e isso incomodava. Porque era a maneira deles [presos] se sustentarem. Até com uma certa qualidade de vida, diferente de outros ribeirinhos, que não têm praticamente nada.”

Perez também reconhece que havia ameaças contra o indigenista, que “os relatos indicam que eles [Bruno e indígenas] vinham fazendo essas denúncias há muito tempo” e que as denúncias eram feitas por organizações não governamentais.

O especial Vale do Javari — terra de conflitos e crime organizado é uma série de reportagens da Agência Pública com apoio do Amazon Rainforest Journalism Fund (Amazon RJF) em parceria com o Pulitzer Center

Reportagem originalmente publicada na Agência Pública

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Família de Maxciel fez investigação própria do caso mas nunca recebeu resposta da PF https://canalmynews.com.br/brasil/familia-de-maxciel-pereira-fez-investigacao-propria-do-caso/ Wed, 22 Jun 2022 18:29:34 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=30467 Parentes criticam investigação do homicídio do ex-servidor da Funai e esperam elucidação do caso após a repercussão do assassinato de Bruno e Dom.

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Cansado de meses de silêncio da Polícia Federal, um familiar do indigenista Maxciel Pereira dos Santos, ex-servidor da Funai assassinado a tiros aos 35 anos na cidade de Tabatinga (AM) em setembro de 2019, resolveu ir a campo tentar colher informações sobre os mandantes e executores do crime. No ano de 2020, Pedro* rodou Tabatinga e os municípios vizinhos para tentar levantar alguma informação do homicídio.

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Assassinato do indigenista Maxciel Pereira dos Santos, em setembro de 2019, segue impune. Foto: Avener Prado/Agência Pública

 

“Cheguei na Federal várias vezes e vi que não ia ter solução ali”, contou o parente em entrevista à Agência Pública. “Primeiro porque não teve perícia nem nada. Nós recebemos o corpo do Maxciel do jeito que chegou da rua. Nós tivemos que limpar. Já pensou a família ter que fazer isso? Era pra ir pro IML, fazer exame de balística, fazer exame criminal pra poder criar uma peça incriminatória. Se você ler a perícia que fizeram do corpo do Maxciel você não vai acreditar”, relata. Segundo ele, a perícia era muito vaga na descrição das lesões que causaram a morte do indigenista.

“Aí eu pensei: ‘o que eu vou fazer para ajudar no caso?”, afirma Pedro. Ele começou seus trabalhos visitando o Ministério Público Federal em Tabatinga, depois foi às polícias Federal e Civil na cidade em que Max morreu. Na sequência, partiu para Atalaia do Norte (AM), município mais próximo da base da Funai onde o ex-servidor trabalhava, ouviu e gravou conversas com comerciantes, taxistas, pescadores, indígenas e colegas de Funai de Maxciel. “Aí foi que eu ouvi sobre as ameaças que ele recebia, inclusive dentro de prédios da Funai”, disse.

Pedro ouviu sobre possíveis mandantes e executores do crime e entregou o material à PF. A resposta foi uma reprimenda. “Disseram para eu não me arriscar e deixar o trabalho de investigação para eles”, afirmou. Ele diz que consentiu com a orientação dos policiais federais, entregou a eles o material que produziu há aproximadamente dois anos, mas desde então não recebeu mais informações sobre o caso. Telefonou e foi à Polícia Federal várias vezes, mas só recebeu respostas protocolares.

Karina*, outra familiar, diz que ouviu de pessoas na cidade nomes dos dois executores que o balearam na Avenida da Amizade. Soube depois que os dois teriam sido mortos, mas a polícia nunca confirmou a informação. O inquérito permanece em sigilo. A PF não respondeu aos pedidos feitos pela Pública para comentar as investigações.

Filhas de Max viviam da renda dele e aparentam ter traumas psicológicos, dizem familiares

Desde então, restou a Pedro e aos demais familiares lidar com a dor. Ele conta que deu um emprego a uma das filhas de Maxciel, mas que a jovem não conseguiu seguir no serviço pois ela não conseguia se concentrar no trabalho. “Ela trabalhou comigo um tempo, mas eu tinha a impressão que ela era meio desligada, sempre falava no pai dela. Tocava no assunto. Inclusive eu até disse para ela: ‘olha, infelizmente ele não volta mais. Tem que seguir a vida, trabalhar’. Mas ela ficou meio desnorteada”, diz.

Karina diz que a única renda das filhas de Maxciel vinha da remuneração dele na Funai. “Elas ficaram sem renda nenhuma. Elas precisam de um apoio psicológico, precisam de um apoio financeiro”, diz.

Também a viúva de Maxiel, falou à Pública e disse que não recebeu informações sobre investigação por parte da Polícia Federal.

Mariana*, outra parente de Maxciel ouvida pela Pública, disse que não queria que o ex-servidor ficasse nas bases da Funai próximas à Terra Indígena Vale do Javari. “Ele gostava daquela área, daquela mata, daquela base. Ele gostava do trabalho dele, só que eu não queria que ele ficasse ali. Chamava ele muitas vezes para ele vir embora de lá”, relembra.

Aras pediu informações e cobrou soluções do caso de Maxciel em contato com a PF

Agência Pública apurou que o Procurador Geral da República, Augusto Aras, pediu informações e cobrou a elucidação da investigação relativa à morte de Maxciel Pereira dos Santos durante reunião realizada na visita do PGR a Tabatinga no último domingo. Aras conversou pessoalmente com um dos delegados da PF, mas que não é o responsável pelas investigações do caso de Maxciel.

Com a repercussão internacional do assassinato de Bruno e Dom, os familiares de Max esperam, enfim, uma solução para o inquérito do ente querido, que já dura quase três anos. “Se tivesse sido feito a tempo um trabalho em cima do caso do Maxciel, de investigação e elucidação, eu acredito que Bruno e Dom não estariam mortos hoje”, avalia Pedro.

 

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