Arquivos Chico Otavio - Canal MyNews – Jornalismo Independente https://canalmynews.com.br/post_autor/chico-otavio/ Nosso papel como veículo de jornalismo é ampliar o debate, dar contexto e informação de qualidade para você tomar sempre a melhor decisão. MyNews, jornalismo independente. Tue, 23 Jul 2024 23:20:58 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.7.2 Acusado de ser espião no PSOL pode revelar novos motivos para as mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes. https://canalmynews.com.br/chico-otavio/acusado-de-ser-espiao-no-psol-pode-revelar-novos-motivos-para-as-mortes-de-marielle-franco-e-anderson-gomes/ Sat, 06 Apr 2024 17:27:34 +0000 https://localhost:8000/?p=42855 O interesse da família Brazão nos negócios imobiliários em Guaratiba, cobiçada região da Zona Oeste do Rio de Janeiro, está na lista de possíveis motivos para as mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes.

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Essa possibilidade surgiu na análise de um detalhe da ficha de filiação ao PSOL de Laerte Silva de Lima, acusado de ser um espião dos Brazão dentro do partido. No documento, de 2 de abril de 2017, aparece o nome de Pedro Paulo de Figueiredo Pereira, o Dom Pepito, como militante responsável pela filiação. Conhecido líder comunitário de Guaratiba, Pepito é ligado a uma entidade que já apareceu em investigações sobre a ação de milícias na região.

Mapa da região de Guaratiba no estado do Rio de Janeiro

Laerte, como infiltrado, participava de agendas públicas do PSOL. Em delação premiada, Ronnie Lessa, ex-PM acusado de executar Marielle e Anderson, disse que Domingos Brazão disse que o espião o alertou que Marielle teria pedido à população local que não aderisse a loteamentos situados em área de milícia.

Dom Pepito, que também assina a ficha de filiação de Erileide Barbosa da Rocha, mulher de Laerte, já foi presidente do Centro de Desenvolvimento Comunitário e Associações de Guaratiba. Criada em 2003, a entidade foi alvo de busca e apreensão, sete anos depois, durante a “Operação Biscoito”, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, em parceria com a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco-IE), para desarticular um grupo de milicianos que atuava em Pedra de Guaratiba.

A entidade também foi acusada por moradores de Piraquê, comunidade de Guaratiba, de cobrar R$ 10,00 para liberar a entrega residencial de correspondências.

Pedro Paulo, de 74 anos, se filiou oficialmente ao PSOL em 2 de outubro de 2017. Na região, é visto como um veterano líder comunitário, integrante das fileiras do brizolismo, mas que teria dado uma guinada para a direita, assumindo forte oposição ao presidente Lula e ao PT. Em 2006, disputou uma vaga para deputado federal pelo PRONA, obtendo apenas 1.197 votos, muito aquém do necessário para se eleger. Quem o conhece, acha que ele pode ter sido ludibriado ao assinar a ficha de filiação do PSOL. Pepito levou as duas fichas pessoalmente à sede do partido, no Rio.

Procurado por email e telefone celular, Pepito não respondeu aos pedidos de esclarecimento do MyNews.

INTERESSE DOS BRAZÃO

Chiquinho Brazão, como vereador, nunca escondeu o interesse pela questão fundiária na região de Guaratiba. São atribuídas a ele, em 2017, um ano antes do crime, as manobras para barrar o projeto de lei de criação de áreas de proteção ambiental e de recuperação urbana (Aparu) em Guaratiba. Até hoje, o projeto, de autoria do então vereador Brizola Neto (PSOL, à época), tramita sem solução na Casa e sem jamais ter ido a votação em plenário.

Então presidente da Comissão de Assuntos Urbanos na Câmara Municipal, Chiquinho foi visto com frequência na região em 2017. Ele ficava em um café no mercado SuperCompras, na Ilha de Guaratiba. Desde a época, alavancada pelo braço armado da milícia, a indústria da grilagem e construção clandestina vinha planando, com tratores e retroescavadeiras, as regiões de Guaratiba e Vargens, um dos últimos celeiros verdes da cidade, o “pantanal do Rio”. E este processo de ocupação encontrou respaldo na Câmara, de onde saíram projetos polêmicos que passaram por cima de leis federais para dar à grilagem o direito legal à terra.

AMEAÇA EM NOVO PALMARES

Uma das bandeiras do PSOL era o combate às desapropriações de moradores em comunidades para a construção de empreendimentos imobiliários. Em 2017, o gabinete de Marielle participou da mobilização dos moradores pela regularização de terras do assentamento na comunidade de Novo Palmares, em Vargem Pequena, vizinha de Guaratiba. Duas integrantes do gabinete compareceram ao encontro ao lado de organismos como a Pastoral de Favelas, movimento comunitário organizado no âmbito da Igreja Católica, o Iterj (Instituto de Terras e Cartografias do Estado do Rio de Janeiro), autarquia vinculada à Secretaria do Meio Ambiente, e o Nuth (Núcleo de Terras e Habitação), um braço da Defensoria Pública do estado.

Na época, segundo percepção das assessoras da vereadora, não se vislumbrou interesse por parte dos moradores de vender seus imóveis, mas sim, de obter o título da terra. Mas o encontro foi interrompido por uma dirigente comunitária local, que não concordou com a realização da atividade à revelia da entidade.

Em novembro do mesmo ano, num fim de tarde, os moradores de Novo Palmares se assustaram quando um homem armado desembarcou de um carro preto com vidros escurecidos em busca de uma líder comunitária. Ele parou na porta de uma mulher de meia idade, olhou para o seu rosto e comparou seus traços com a foto que trazia na mão oposta à da arma. Era o recorte de um jornal em que outra moradora mencionava a luta fundiária da comunidade. Daí veio a constatação: não era seu alvo. Trêmula, a moradora teve a certeza que escapou graças à foto. Antes de sair, o homem avisou: “Vê (sic) aí na sua comunidade as pessoas que estão se metendo na nossa localidade”.

Por questão de segurança, o nome da vítima está sendo preservado. Mas ela chegou a contar na Delegacia de Homicídios da Capital (DH Capital), então responsável pelo Caso Marielle, que o homem da ameaça mencionou que era de Guaratiba. Em algumas reuniões na região, conhecidas como fóruns, ainda em 2017, os moradores mostravam fotos de Marielle como forma de legitimar a luta. O slogan do mandato, “Marielle presente”, inclusive, dava força ao movimento – apesar da ausência física dela, a vereadora estava ali, já que a sua imagem era usada por pessoas simpáticas ao movimento pela titulação da terra.

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Famílias vivem uma angústia eterna pela falta de respostas https://canalmynews.com.br/chico-otavio/familias-vivem-uma-angustia-eterna-pela-falta-de-respostas/ Sun, 31 Mar 2024 12:58:27 +0000 https://localhost:8000/?p=42814 Torturador do Centro de Informações do Exército (CIE) contou que desaparecer com os corpos das vítimas era mais “eficaz” do que deixá-los em algum lugar

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O ex-capitão do Exército Paulo Malhães, o “doutor Pablo” dos porões da ditadura, contou certa vez para dois jornalistas que desaparecer com os corpos das vítimas era mais “eficaz” do que deixá-los em algum lugar, porque as famílias vivem uma angústia eterna pela falta de respostas sobre o paradeiro do parente. Se os corpos são encontrados, segundo ele, as famílias vivem o luto, sofrem, mas a dor passa e a vida segue em frente. Pablo foi um ativo torturador do Centro de Informações do Exército (CIE) no auge da guerra suja (1969-1973), e, 40 anos depois, assumiu que criou a Casa da Morte de Petrópolis, um dos mais bárbaros aparelhos da repressão, em uma casa da serra fluminense.

O ex-capitão morreu assassinado, em 2014, no período em que relatava os crimes de sequestro, morte e desaparecimento de presos políticos em que estava envolvido.

O compositor e professor Leonardo Vieira, 46 anos, incorporou “Alves” ao sobrenome. O motivo é homenagear o avô, o jornalista Mário Alves, ex-integrante do PCBR, a organização armada de esquerda dos anos 1960/70. Léo Alves é da segunda geração de parentes dos desaparecidos políticos brasileiros. Do avô, a última notícia é que foi visto por outros presos sendo torturado, provavelmente até a morte, entre 16 e 17 de janeiro de 1970, na carceragem do Destacamento de Operações de Informações (DOI) na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, Zona Norte carioca. Léo e sua mãe, Lucinha Alves, até hoje vivem cercados de interrogações sobre o paradeiro de Mário.

A última esperança de Léo Alves, no esclarecimento do destino dos restos mortais de Mário, era a reinstalação da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos. Para ele, um dos efeitos mais danosos da posição do Governo Lula, de evitar agendas alusivas aos anos da ditadura, é a interrupção das investigações sobre os crimes ainda em aberto. Alves será um dos mestres de cerimônia da Caminhada do Silêncio, que neste domingo, dia 31, homenageará em São Paulo as vítimas dos porões da ditadura.

– Não tocar no tema, quando a gente viu a grande mobilização do Chile, no ano passado, pelos 50 anos do golpe lá, é uma atitude contra a memória. E um país sem memória, está dado a repetir os erros do passado. Fica a impressão de que ainda vivemos sob a tutela militar. Não dá para transformar o tema em moeda política. A gente não luta apenas por respostas sobre os nossos parentes. Lutamos por uma política de memória pública que consolide a democracia. O presidente Lula, no mínimo, tinha de nos receber. Isso soa como traição – disse Léo, que se diz eleitor de Lula.

O governo cancelou todos os eventos relacionados aos 60 anos do golpe militar por orientação do presidente Lula. A decisão foi interpretada como tentativa de evitar conflitos com as Forças Armadas. Além da não reinstalação da Comissão de Mortos, também foi adiada, por prazo indeterminado, a criação do Museu da Memória e Verdade, projeto anunciado pelo então ministro da Justiça, Flávio Dino, no Chile.

No dia 15 de dezembro, a duas semanas da posse de Lula, a Comissão de Mortos se reuniu em sessão extraordinária e, por votação apertada, decidiu se auto-extinguir, sob a alegação de que já havia cumprido os objetivos. A sessão foi convocada pelo advogado Marco Vinicius Pereira de Carvalho, aliado da então ministra Damares Alves (da Mulher, da Família e dos Direitos Humano) e defensor do regime militar, que obteve maioria de quatro votos a três após trocar dois membros da comissão. Porém, embora extinta no fim do governo Bolsonaro, apareceu na nova estrutura do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, publicado no Diário Oficial da União (DOU). A reinstalação apareceu como compromisso no discurso de posse do ministro Silvio Almeida, de Direitos Humanos.

VALA DE PERUS

Uma das principais agendas da Comissão é a retomada dos trabalhos de análise das ossadas exumadas na vala clandestina do Cemitério Dom Bosco, em Perus. Em 1990, a Prefeitura de São Paulo localizou no lugar sacos com 1.049 restos humanos. Uma equipe do Centro de Arqueologia e Antropologia Forense da Unifesp, encarregada da análise, já conseguiu o reconhecimento de cinco desaparecidos políticos – Dênis Casemiro, Frederico Antonio Mayr, Flávio de Carvalho Molina, Dimas Casemiro e Aluísio Palhano Ferreira. Falta ainda analisar 25% dos restos, razão pela qual a equipe espera a contratação de mais peritos para o trabalho após a reinstalação da comissão.
Os remanescentes já avaliados estavam em sacos, de forma individualizada, mas uma parte deste material está misturada, exigindo os peritos a reconstrução de indivíduos para, somente depois, compará-los com os dados fornecidos pelas famílias de 42 mortos e desaparecidos políticos. O trabalho da Unifesp é fruto de um acordo firmado em 2014, entre a União e a Prefeitura paulista, no âmbito de uma ação movida na Justiça Federal de São Paulo. O passo seguinte após a identificação de todas as ossadas será a construção de um memorial, previsto para ficar em Perus, com uma sala de estudos e um local para o destino final dos restos mortais.
Com a continuidade dos trabalhos da comissão, a Coalizão Memória e Verdade espera também que processos indenizatórios à famílias de vítimas do regime, paralisados nos quatro anos do governo Bolsonaro, possam ser concluídos, como é o caso do embaixador José Jobim, assassinado em março de 1979, após anunciar que lançaria um livro de memórias revelando detalhes da corrupção da Usina Nuclear de Itaipu.

CASA DA MORTE

Outro projeto que poderá ser atingido é a transformação da Casa da Morte, em Petrópolis, em centro de memória. Localizada no bairro de Caxambu, distante do Centro da cidade, a casa abrigava um centro de detenção clandestino durante o regime militar no Brasil e era operado pelo Centro de Informações do Exército (CIE), conhecido por sua extrema brutalidade. Hoje, é alvo de uma queda de braço entre os movimentos sociais pela memória e os seus moradores, que se recusam a sair.

O imóvel já foi tombado provisoriamente pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), a pedido do Ministério Público Federal (MPF). Porém, para seguir em frente, vai precisar de recursos do governo federal para custear a indenização dos atuais ocupantes da casa, dentro do processo de desapropriação.

Única vítima sobrevivente da casa, Inês Etienne Romeu passou décadas lutando para expor a verdade sobre o que aconteceu na Casa da Morte e buscar justiça para as vítimas do regime já que muitas delas não tiveram a mesma sorte de sair da detenção vivos, como o advogado goiano Paulo de Tarso Celestino da Silva, capturado em julho de 1971, até hoje seu corpo não foi encontrado.

Recentemente, um carcereiro da “Casa da Morte” voltou a ser réu em um processo judicial movido pelo Ministério Público Federal. Conhecido como Camarão, o sargento reformado do Exército Antônio Waneir Pinheiro de Lima, é o 1º militar brasileiro a responder por atos cometidos durante o regime. Ele é acusado pelos crimes de sequestro qualificado e estupro durante a Ditadura Militar, segundo decisão do Tribunal Regional Federal da 2ª Região.

A aceitação da denúncia contra o torturador representa um marco inédito no Brasil. A Lei da Anistia de 1979, impediu ao longo dos anos, o julgamento pelos crimes cometidos. O mesmo ocorreu no caso em questão quando o processo chegou à primeira instância em Petrópolis em 2017. Naquela ocasião, o juiz Alcir Luiz Lopes Neto citou a Lei de Anistia e alegou a prescrição do crime de estupro para rejeitar a denúncia.

– Ao deixar de lado tudo isso, a gente perder, acima de tudo, a oportunidade de fazer uma reflexão histórica do que foi a tortura, a violência de estado. Vale lembrar que a tentativa de golpe, em 8 de janeiro de 2023, é filha do golpe de 64. Na época, grupos significativos ainda acreditavam que a solução militar e autoritária era legítima – disse Lucas Pedretti, membro da Coalizão Memória e Verdade.

O Brasil soma, de acordo com o relatório final da comissão, 364 pessoas reconhecidas como mortas e desaparecidas. Os números divergem da Comissão Nacional da Verdade (CNV), cujo levantamento conta 434 mortos e desaparecidos, dos quais até hoje não se conhece o paradeiro de 210.

Veja a série Tempos de Chumbo com o jornalista Cid Benjamin  

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Um balcão de negócios na Câmara do Rio https://canalmynews.com.br/politica/um-balcao-de-negocios-na-camara-do-rio/ Mon, 11 Mar 2024 00:02:23 +0000 https://localhost:8000/?p=42632 Após 12 anos de quarentena, voltou a andar no Tribunal de Justiça uma ação civil pública destinada a provar que Ivan Moreira não preenche os requisitos de idoneidade moral e reputação ilibada para conselheiro do TCM

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Desde que deixou a política em 2007, o carioca Ivan Moreira, de 65 anos, atua como um zelador das contas públicas do Rio de Janeiro. Ele é um dos sete conselheiros do Tribunal de Contas do Município (TCM).  O cargo lhe dá poderes para fiscalizar a gestão da cidade e evitar abusos. Uma preocupação a mais entrou na agenda do conselheiro em dezembro do ano passado. Após 12 anos de quarentena, voltou a andar no Tribunal de Justiça uma ação civil pública destinada a provar que Moreira não preenche os requisitos de idoneidade moral e reputação ilibada para o cargo. Dados levantados pelo Ministério Público estadual (MP-RJ), à época, atualizados com levantamentos do MyNews, mostram que o conselheiro é um prodígio do mercado imobiliário da cidade, especialmente em Jacarepaguá, com um patrimônio que evoluiu no rastro da carreira política.

Em nome de Ivan Moreira e da Valex Desenvolvimento Imobiliário Ltda, na qual o conselheiro é sócio, aparecem 79 matrículas em cartórios de registro de imóveis no Rio de Janeiro, em Petrópolis, em Matias Barbosa e em Juiz de Fora (as duas últimas em Minas Gerais). A maioria das propriedades está matriculada no 9º Ofício de Registro de Imóveis da Capital, cuja competência registral abrange Barra da Tijuca, Jacarepaguá e Recreio dos Bandeirantes. Moreira, em 2004, era primeiro-secretário da Câmara Municipal quando os vereadores aprovaram o Projeto de Estruturação Urbana da Taquara (PEU-Taquara), que mudou as regras de construção e alavancou os negócios imobiliários na Freguesia, no Pechincha, na Taquara e no Tanque, bairros de Jacarepaguá onde Moreira iniciou a carreira política e a fartura imobiliária.

Moreira foi eleito pela primeira vez para a Câmara em 1992, no momento em que os legislativos municipais passaram a ter poder de decidir sobre as regras da construção. Até então, só os prefeitos davam as cartas, por decretos. Mas a Constituição de 1988 e as leis orgânicas municipais criaram condições para os vereadores atuarem em questões como a mudança de uso das áreas das cidades e a fixação dos gabaritos de edificação. Em tese, a intenção era das melhores possíveis, uma vez que democratizava um tema essencial para a vida dos moradores. Porém, ao estabelecer nova relação das Câmaras com o mercado imobiliário, a mudança abriu caminho para a conversão do legislativo, quando controlado por interesses suspeitos, em balcão de negócios.

Desde então, teve início um festival de projetos de lei avulsos, que alteraram o uso e a ocupação do solo – alguns deles, delimitados a um único prédio ou terreno. Para abrir a porteira para o mercado de construção, os vereadores apresentavam projetos pontuais e não tinham grande dificuldade de aprová-los, mesmo por maioria absoluta. Houve casos em que a Câmara legalizou obras erguidas em áreas protegidas e outras limitações relevantes. Ou seja, os vereadores legalizaram o ilegalizável, como puxadinhos e coberturas irregulares, oferecendo um convite à ocupação ilegal da cidade.

Na esteira do fenômeno, alguns políticos não se contentaram apenas em ficar atrás das balizas da atividade parlamentar. Eles viraram dublês de vereadores e empresários. Foi o caso de Ivan Moreira. Pesquisa limitada aos nomes citados na ação civil pública revelou pelo menos quatro empresas ligadas ao conselheiro e que apresentaram no contrato social atividades do ramo imobiliário – além da Valex, entram na conta a Nossa Senhora de Fátima Administração de Bens Próprios, a Santa Bárbara Administração de Bens Próprios e a empresa individual de Georgina dos Santos Valente de Oliveira, mulher de Ivan e ex-responsável por um cartório de registro civil em Jacarepaguá.

 

Salto patrimonial de 300% em cinco anos, diz MP

Ivan Moreira tomou posse no TCM em setembro de 2007, após presidir por dois anos e meio a Câmara Municipal. Três meses depois, o MP-RJ entrou com uma ação civil pública, distribuída à 5ª Vara da Fazenda Pública, pedindo para barrar a nomeação. Na denúncia, sete promotores citaram provas do aumento do patrimônio do conselheiro em quase 300%, em apenas cinco anos. Eles sustentaram que, como forma de cobrir o salto financeiro, Moreira teria usado uma empresa fantasma e laranjas na tomada de falsos empréstimos. Ele também foi acusado de manter um esquema de rachadinhas em seu gabinete, com a nomeação de funcionários fantasmas.

Ivan declarou, segundo a ação do MP, a tomada de “empréstimo” de R$ 60 mil, em 2002, junto a Dilson Pereira de Andrade. Dilson, à época, residia na Rua Araújo Leitão 1.035, casa 49, no Morro do Barro Preto/Árvore Seca, no Lins de Vasconcelos. Os promotores apuraram que Dilson vivia em “uma residência bastante humilde , encravada entre diversas outras casas igualmente humildes”. Os vizinhos disseram que Dilson morava numa casa que tem pouco mais de 35 metros quadrados, com telha de amianto e paredes sem reboco.

Travada por manobras da defesa, a ação estava parada desde 2011. Os advogados alegaram, entre outros pontos, que o Judiciário não teria competência para analisar os aspectos relacionados à moralidade administrativa no preenchimento de cargos públicos. No ano passado, autorizado por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que julgou a ação legítima, o Tribunal de Justiça negou um recurso do ex-vereador – contra o uso da quebra dos seus sigilos bancário e fiscal pelo MP-RJ – e mandou o processo seguir. Mas os advogados do conselheiro ingressaram com nova petição, ainda não apreciada, pedindo o arquivamento do processo. Sustentam que o cliente já fora inocentado dessas acusações em outra ação – esta por improbidade – que teria sido arquivada.

Em fotos de divulgação do TCM, o conselheiro sempre aparece com um sorriso largo, acentuando o maxilar quadrado. Motivos de satisfação, não faltam a esse carioca do Méier. Moreira cumpriu quatro mandatos consecutivos na Câmara Municipal antes de migrar para o TCM. Atravessou a carreira de conselheiro sem ser assombrado pelo fantasma da ação movida pelo MP. Hoje, é corregedor do tribunal de contas. Sua influência ainda é forte do legislativo municipal e seria responsável por manter há duas décadas um ex-sócio em posto de gasolina (Auto Posto Chacaltaya Ltda), Cesar Rodrigues Abrahão, como chefe de gabinete da Presidência da Casa.

O ponto de partida de seus negócios é a Rua Professor Henrique Costa, na Taquara. O endereço, que já foi uma fazenda de gado no passado, ajuda a explicar como uma antiga pastagem se transformou aceleradamente em selva de concreto armado das últimas duas décadas. A rua onde Ivan Moreira morou (número 730) e instalou uma de suas empresas, a HC Serviços em Geral Ltda (número 725) foi uma das contempladas pelo PEU Taquara, de 2004. O projeto, que contou com o voto favorável do então vereador, definiu a região como uma das prioridades dos investimentos públicos municipais, além de aumentar os gabaritos e criar outros benefícios na construção. Um excelente negócio para o mercado.

As edificações brotaram praticamente de um lado da rua. No outro, contido por uma encosta, ainda resistem casas simples, muitas delas em vilas. Algumas, antes moradias, viraram lojas, depósitos e oficinas mecânicas. Por alguma razão desconhecida, havia uma quantidade expressiva de integrantes da Polícia Militar (PM) entre os novos moradores. Um deles, Ronnie Lessa, apontado como executor, há quase seis anos, da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Foi desse prédio, a dois números do antigo endereço de Ivan Moreira, que um dos comparsas de Ronnie, José Márcio Mantovano, o Márcio Gordo, teria supostamente retirado as armas do assassino da vereadora, até hoje não localizadas pelos investigadores.

Não há qualquer indício que envolva Ivan Moreira com crimes de sangue e, muito menos, com o Caso Marielle. Porém, essa proximidade, ainda que física, entre política, quadrilhas e negócios imobiliários é uma situação recorrente em importantes investigações sobre a escalada das ações do crime organizado na cidade.

 

Rua Professor Henrique Costa 730 – Foto: Gustavo Stephan

Rua Professor Henrique Costa 841 – Foto: Gustavo Stephan

Rua Professor Henrique Costa 841 – Foto: Gustavo Stephan

Rua Professor Henrique Costa, na Taquara, no Rio – uma antiga fazenda de gado – Foto: Gustavo Stephan

Rua Professor Henrique Costa 730 – Foto: Gustavo Stephan

IE Empresa Celta – Foto: Gustavo Stephan

 

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Washington Quaquá: O sheik do PT https://canalmynews.com.br/chico-otavio/o-sheike-do-pt/ Fri, 01 Mar 2024 15:57:16 +0000 https://localhost:8000/?p=42571 Conheça Washington Quaquá, o dono do camarote onde foi dada a partida para as eleições 2024

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Washington Quaquá | Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

Os gestos agitados sacudiam o relógio no pulso. “É um Cartier legítimo, custa R$ 85 mil”, gabava-se o dono da joia francesa. Washington Luiz Cardoso Siqueira, o Quaquá, 52 anos, admitiu que gosta de dinheiro. Na área exclusiva do camarote “Favela”, onde recebeu 1.700 pessoas no último carnaval, ele estimou em até R$ 4 milhões o lucro familiar com a venda de ingressos para o desfile das escolas de samba. Como muitos que exibem poder na Passarela do Samba, estava ornado do chamado “kit faraó”: Além do Cartier, ostentava um grosso cordão e um anel quadrado, ambos de ouro. O anel, segundo ele, foi um mimo do presidente da Câmara Municipal de Maricá, Aldair da Linda, que gravou um foguete na peça, em alusão à frase que Quaquá adora repetir: “Foguete não anda para trás”.

Iniciada nos setores mais radicais do PT, há quase 40 anos, a jornada de Quaquá pela política fluminense é uma viagem sem volta. Embora admita a candidatura a prefeito de Maricá, cargo que já ocupou em dois mandatos (entre 2009 e 2016), o deputado federal do PT pretende ir além e demonstrar a força de um cacique político nas eleições de outubro. Aspira eleger aliados em toda a Região dos Lagos, influenciar no voto das comunidades periféricas da capital e ainda dar pitacos na eleição em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, como dirigente nacional do PT e integrante do grupo de trabalho eleitoral do partido.

Nas ruas de Maricá, há quem acredite que as eleições da cidade serão meramente plebiscitárias. Quaquá seria imbatível. Porém, enquanto se aguarda a contagem regressiva para o início da disputa, adversários políticos, inclusive internos, se esforçam para abater o foguete antes da decolagem. Denúncias de enriquecimento ilícito, de contratos suspeitos, de farra com o dinheiro público e de amizades perigosas atravessam o caminho de um dos mais influentes e polêmicos políticos que despontaram no Rio de Janeiro nos últimos anos. Em termos de exposição, nada dá mais visibilidade a Quaquá do que o seu talento para o sincericídio. Elogios ao general-deputado Eduardo Pazuello (PL), apoio ao conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) Domingos Brazão, xingamentos homofóbicos na Câmara dos Deputados engrossam uma coleção de parvoíces que garante um lugar cativo para o político na mídia. 

Um componente especial incendeia a disputa em Maricá. A 60 quilômetros da capital, o município é um dos maiores arrecadadores de royalties do petróleo no Brasil. Sua faixa litorânea, base do cálculo do benefício, chega a quase 33 quilômetros. Em 2023, de acordo com os valores divulgados no site da prefeitura local, os repasses totalizaram pouco mais de R$ 3 bilhões – a soma do recebimento mensal dos royalties e da participação especial dos municípios, bem como sua rentabilidade. Tanta fartura tem o condão de fazer da cidade um emirado brasileiro e de seu prefeito, um sheik montado no dinheiro.

Para falar da carreira, de Maricá e das suas encrencas, Quaquá recebeu o MyNews, no dia do desfile das escolas de samba campeãs, 17 de fevereiro, no hotel em Botafogo, na Zona Sul do Rio, de onde seguiria para a Sapucaí. Chegou uma hora atrasado, de chapéu panamá, de camisa do camarote Favela e de kit faraó. Alegou que estava bebendo desde duas da tarde, com um grupo de executivos “do terceiro maior banco da Rússia”. Estariam interessados em investir na Mumbuca, a moeda social criada por ele em Maricá. Puxou um charuto cubano e ofereceu ao repórter. Pediu um uísque e um rum cubano ao garçom. Em seguida, disparou: “Não gosto de jornalistas!”.

Sem graça, seu assessor de imprensa se ajeitou na cadeira. Mas Quaquá não teve tempo de desenvolver a tese. Logo, começaram a disparar as ligações telefônicas. Eram pedidos de última hora por pulseiras de acesso ao camarote Favela. Um emissário do empresário Ricardo Amaral levou duas. “Acabaram de me pedir quatro para a Camila, puta que o pariu”, agitou-se. Deputada federal pelo PT sulmatogrossense, Camila Jara é pré-candidata à Prefeitura de Campo Grande. Do bolso de Quaquá, saíram mais duas pulseiras pedidas por Talíria Petrone, deputada do PSOL e potencial candidata à Prefeitura de Niterói.

Washington Quaquá em seu camarote na Marquês de Sapucaí | Foto: Chico Otavio

Uma pergunta sobre a origem do nome mumbuca, a moeda criada por Quaquá para o pagamento dos beneficiários do programa “Renda Melhor”, deu ao ex-prefeito o gancho para falar de sua infância pobre. Filho de um soldado da PM e nascido no Caramujo, bairro da periferia de Niterói, ele disse que aproveitava as idas à casa da avó, em Maricá, para pescar acará no Rio Mumbuca, que corta o centro da cidade. Ao lado do pai e do irmão mais velho, ele pescava com a mão, arrancando os peixes da toca. Outro alimento extraído do rio era a rã, que os meninos matavam a pauladas antes de comer.

O pai, na época, era lotado no 12º Batalhão da PM (Niterói). O quartel proporcionou momentos de alegria na infância de Quaquá, quando os dois irmãos recebiam brinquedos na festa de natal da unidade. O ex-prefeito fez questão de lembrar que as festas de natal na PM foram obra do então comandante da corporação, general Nilton Cerqueira, o mesmo que, dez anos antes, havia liderado a Operação Pajussara, responsável em 1971 pelo cerco e morte do ex-capitão do Exército Carlos Lamarca no interior da Bahia.

Em matéria de ideologia, é difícil classificar Quaquá. O mesmo político que reconhece a gratidão ao general Cerqueira se declara fã de Vladimir Palmeira, o líder estudantil que enfrentou o regime militar. Aos 14 anos, começou a militar no PT pela corrente Refazendo, de Vladimir, que fazia uma oposição mais à esquerda ao grupo de Lula. Quaquá atribui o seu destempero verbal ao convívio com o ex-dirigente estudantil, famoso pelos discursos contundentes. Hoje, porém, entrou mais um no panteão do ex-prefeito: o deputado estadual Eduardo Suplicy (PT), com quem Quaquá disse ter conversas rotineiras sobre renda básica, à luz da experiência em Maricá.

Soa irônico ouvir de Quaquá elogios a Vladimir e Suplicy, dois esquerdistas ortodoxos, enquanto chacoalhava no pulso o Cartier de R$ 85 mil. Ele não se sentiu constrangido. Garantiu que era esquerdista também, mas não franciscano, e não via qualquer problema em ganhar dinheiro. Dono de uma agência de turismo chamada “Mais do que viagens”, disse que negociava com dirigentes cubanos o lançamento da campanha “Vai para Cuba”, com um apelo público centrado fortemente na história política da ilha caribenha.

“Quero ganhar dinheiro. Não sou otário. Esse projeto vai botar no bolso do grupo de investidores R$ 50 milhões” – aquilatou.

A conversa no hotel seguia animada até que a mulher de Quaquá ligou da Sapucaí. “Cadê você?”, reclamou. Era hora de partir. 

Os três andares do Favela estavam lotados no desfile das campeãs. Ao chegar, Quaquá teve dificuldade de ir até a área vip no terceiro andar. Cumprimentos, abraços e poses para fotografias barraram-lhe o caminho. O beija-mão continuou na sala exclusiva. O sambista Moacyr Luz foi um dos primeiros a chegar. Desde o fim de semana anterior, no carnaval, passaram pelas catracas do camarote famosos como o ministro do Turismo, Celso Sabino de Oliveira, o embaixador de Cuba no Brasil, Adolfo Curbelo Castellanos, e o presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Rodrigo Bacellar. 

Quaquá descreveu o Favela, inspirado na marca de roupas da família, como uma fonte de lucros. Sob o comando da mulher, Gabriela Lopes, apuraria, afirmou, no final dos desfiles, um lucro de R$ 3 milhões a R$ 4 milhões com a venda de ingressos, especialmente pacotes para grupos empresariais. Porém, na medida em que os pedidos de pulseirinhas chegavam, ele admitiu que o camarote era também uma fonte de relacionamentos. Na sala vip, Quaquá mal teve tempo de ver as escolas passarem. Era uma conversa atrás da outra, numa interminável valsa de cadeiras regada a cerveja, salgadinhos e sushis.

Ciclo de quase 16 anos

O califado de Quaquá em Maricá já dura quase 16 anos – oito de seus dois mandatos e mais sete anos e dois meses do atual prefeito, Fabiano Horta (PT), o seu herdeiro político. Além da moeda própria, que movimenta a economia local com as compras das famílias de baixa renda no comércio da cidade, a gestão petista também promove um programa de tarifa zero no transporte público. Para utilizar o sistema, que mobiliza 115 ônibus em 38 linhas, basta fazer o sinal no ponto e embarcar.

Outro concorrido programa é o Passaporte Universitário, lançado para permitir que moradores de baixa renda, com pelo menos três anos de residência comprovada no município, tenham acesso gratuito ao estudo universitário. Para isso, a prefeitura conta com quatro universidades parceiras, todas privadas, que oferecem cursos de graduação, pós-graduação (em nível de especialização), mestrado e doutorado. 

Tantas vantagens provocaram um boom demográfico no município. Maricá sofreu um acréscimo, de acordo com o IBGE, de quase 70 mil habitantes entre 2010 e 2022 – um salto de 54%, que a colocou no ranking das cidades que mais cresceram no país, com cerca de 197 mil habitantes. Na esteira do fenômeno, apareceram também distorções e denúncias de farra dos royalties. Um dos professores do Passaporte Universitário reclamou que, até bem pouco tempo, recebia em sala uma quantidade expressiva de alunos que mal sabia ler e escrever. Eram, segundo ele, pessoas de baixa renda que “queriam se letrar e se graduar ao mesmo tempo”, situação deixava o corpo docente de cabelos em pé.

O candidato pobre, para ingressar no programa, só precisava comprovar renda inferior a seis salários mínimos. Com a grita dos professores, só recentemente a Prefeitura contratou uma empresa para aplicar um teste de aptidão antes de matricular os alunos. São outras queixas recorrentes a falta de mão de obra local, pois a força de trabalho foi praticamente absorvida pela prefeitura, e a má vontade do comércio para aceitar compras a crédito, uma vez que a mumbuca, trocada no caixa municipal, garante sempre pagamentos à vista.

Companheiros do PT contaram que, para ascender à condição de vice-presidente do partido, Quaquá muitas vezes pisou no calo dos correligionários, nas renhidas disputas no diretório fluminense. É bem verdade que, ao longo dos últimos anos, o ex-prefeito amealhou respeito e estima dentro do partido. Uma das suas qualidades mais exaltadas é o talento para circular nas periferias pobres e falar de igual para igual com a gente simples, condição que o PT teria perdido desde que chegou ao poder central. Mas a virada de chave aconteceu durante a longa crise enfrentada pelo partido, iniciada com o impeachment da então presidente Dilma Rousseff, em 2016, e agravada pela prisão de Lula, em 2018. Neste cenário, Maricá virou um porto seguro do PT, empregando quadros ligados à cúpula partidária e transformando o município em um enclave socialista frente à onda bolsonarista que varria o país. 

Em seu último ano como prefeito, em 2016, Quaquá inaugurou uma estátua de Che Guevara, em frente ao Hospital Municipal com o nome do guerrilheiro argentino. O evento contou com a presença de Aleida Guevara, filha mais velha de Che. 

Todo esforço, contudo, não se traduziu em votos para o PT nas duas últimas eleições presidenciais. O partido de Quaquá perdeu nos quatro turnos disputados. Em 2018, Jair Bolsonaro venceu na cidade com 57,59% dos votos no primeiro turno, contra 24,84% dados a Fernando Haddad. No segundo turno, o ex-capitão obteve 62,30% contra 37,70% de Haddad. Já em 2022, a briga foi mais apertada. Bolsonaro marcou 47,79% no primeiro turno, enquanto Lula ficou com 45,81%. No segundo turno, nova vitória do ex-capitão, com 51,74% do total da cidade contra 48,26% do petista.

É essa contradição, somada às investigações envolvendo Quaquá, que encoraja seus adversários a aprontar uma surpresa nas eleições de outubro. O deputado estadual Filippe Poubel (PL), potencial candidato a prefeito que se identifica como “direitista, armamentista, conservador, anti-esquerda e empreendedor”, sonha em levar Bolsonaro pelo menos quatro vezes ao município antes da votação. Poubel, natural de Maricá, é hoje o maior adversário de Quaquá no município. Nas redes sociais, no plenário da Assembleia e onde quer que seja, desfila um rosário de críticas e ataques pesados ao petista.

“Quaquá saiu em 2016, mas continua dando as cartas em Maricá. São muitas as denúncias. Embora o município tenha uma das maiores rendas por habitante do país, a situação da saúde é precária. Ele não pensa na população, só em seu projeto pessoal. Pratica o assistencialismo. Transformou a prefeitura em cabide de empregos. Licitações são um jogo de cartas marcadas”, disparou Poubel.

De todos os problemas, aquele que mais aborreceu Quaquá foi a condenação a três anos, dois meses e 15 dias de prisão, em regime aberto, por fechar o aeroporto municipal durante sua gestão em 2013. Na decisão, o juiz citou a responsabilidade do então prefeito pelo risco causado à segurança do voo – sem a pista, os pilotos deixaram de ter a opção de um pouso de emergência em Maricá. Quaquá lamentou que o caso seja associado, sem ter relação direta, com a morte de duas pessoas na queda de um avião na Lagoa de Maricá.

“Tirei os traficantes de drogas do aeroporto e fui penalizado por isso. Os tripulantes morreram porque o avião se dissolveu no ar” – lamentou.

A carreira política de Quaquá sofreu ainda um hiato de quatro anos com a decisão da Justiça Eleitoral, tomada em 2013, de torná-lo inelegível por oito anos (a contar desde 2012) por abuso do poder político e conduta vedada a agente público pelo uso político-eleitoral do programa “Renda Melhor”. Por conta do revés, ele chegou a se eleger deputado federal em 2018, mas não foi empossado. 

As confusões provocadas pela verborragia desvairada já não incomodam tanto. No ano passado, ele agrediu com um tapa o colega de Câmara Messias Donato (Republicanos-ES) e chamou Nikolas Ferreira (PL-MG) de “viadinho”. Em janeiro, quando a imprensa divulgou o nome de Domingos Brazão como o possível mandante do assassinato de Marielle Franco, Quaquá o defendeu: “Conheço o Domingos Brazão de longa data, inclusive de campanhas eleitorais nacionais onde ele esteve do nosso lado. Sinceramente, não creio que ele tenha cometido tal brutalidade”.

De forma discreta, Quaquá demonstrou arrependimento por uma de suas tretas. Atacado pelos aliados por publicar uma foto, sorridente, ao lado do deputado federal e ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello (PL), alegando na época que o militar era um homem de diálogo e que “o diálogo é artefato da democracia”, Quaquá assumiu uma autocrítica:

“A coisa do golpe (de 8 de janeiro) me decepcionou. Não transijo com golpes. Minha régua é a da democracia. Mas vamos aguardar, para ver se é verdade” – comentou, referindo-se ao suposto envolvimento de Pazuello com os ataques de 8 de janeiro.

Na época, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, escreveu no Twitter que a imagem era um desrespeito ao PT e era ofensiva às vítimas da Covid: “Tudo tem limite”, escreveu Gleisi. A reação não abalou Quaquá, que parece disposto a pagar um preço pela tentativa de tirar o PT de uma bolha, ampliando o diálogo com setores mais conservadores ao mesmo tempo que afina o discurso para as massas. Neste ponto, o ex-prefeito brindou o MyNews com mais uma frase potencialmente polêmica:

“O PT não está imune à demagogia. O PT não pode ser a classe média militante. O PT só fala para a classe média.”

No dia seguinte ao desfile das campeãs, ainda com a cabeça pesada, Quaquá embarcou para mais uma de suas viagens internacionais. O destino era Havana, Cuba, para tratar do projeto turístico, entre outras agendas. Mas o petista voltou a tempo de assistir a “Operação Salus”, deflagrada pela Polícia Federal (PF) no dia 27 de fevereiro para apurar desvios de recursos públicos federais destinados à saúde de Maricá. A suspeita partiu de pagamentos discrepantes à organização social contratada pela Prefeitura, em fevereiro de 2020, com provável prejuízo de R$ 70 milhões.

A presença das viaturas pretas da PF é apenas um prenúncio do que vai acontecer até outubro em Maricá. Muitas águas do Rio Mumbuca ainda vão rolar por baixo da ponte.

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