Arquivos Brasil-China - Canal MyNews – Jornalismo Independente https://canalmynews.com.br/tag/brasil-china/ Nosso papel como veículo de jornalismo é ampliar o debate, dar contexto e informação de qualidade para você tomar sempre a melhor decisão. MyNews, jornalismo independente. Tue, 06 Apr 2021 21:41:26 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.7.2 China faz planos para diminuir dependência de soja brasileira https://canalmynews.com.br/economia/china-diminuir-dependencia-de-soja-brasileira/ Tue, 06 Apr 2021 21:41:26 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/china-diminuir-dependencia-de-soja-brasileira/ Pequim investe em novos parceiros comerciais e analistas projetam cenário “menos otimista” para produtores brasileiros

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Enquanto tenta administrar rusgas diplomáticas e garantir o acesso a vacinas, o Brasil ganhou mais um motivo para se preocupar com a China. Durante as chamadas Duas Sessões — o encontro legislativo anual do Congresso Nacional do Povo — Pequim chancelou o novo Plano Quinquenal, que vai guiar os próximos passos do país até 2025. No extenso documento, a amarga novidade para o agronegócio brasileiro: o estabelecimento de metas mínimas para a produção de soja nacional.

Maior importadora do grão no mundo, a China passará a obrigar que suas províncias produzam anualmente pelo menos 650 milhões de toneladas de grãos e mantenham 6,6 milhões de hectares de terras aráveis de alta qualidade, mesmo com possíveis desastres naturais. As medidas também preveem cinturões dedicados à agricultura de grande escala e o desembolso de volumosos subsídios para produtores de grãos. A decisão vai ao encontro das tentativas de Pequim em reduzir a dependência de Estados Unidos e Brasil para garantir a segurança alimentar do país.

A soja é indispensável para a China. O produto é usado na produção de temperos, molhos e do tradicional tofu. Sua principal função, porém, é a alimentação do enorme plantel de suínos do país, animal considerado essencial na culinária chinesa. 

Doutor em Desenvolvimento Rural com pós-doutorado na Universidade Agrícola da China, o professor Fabiano Escher destaca que o boom econômico dos últimos 40 anos pressionou a demanda por proteína em um país com poucas terras aráveis disponíveis para manter a criação de animais para corte.

“Está em curso um processo de mudança significativa na dieta nacional. Antes imperava o chamado padrão 8-1-1: oito partes de grãos, uma de carne e uma de frutas. Esta proporção atualmente é de 4-3-3. Em 1990, o consumo per capita de carne era de 16 quilos, hoje são 49, 31 quilos destes apenas de suínos”, explica o professor.

Escher explica que a entrada da base da pirâmide econômica no mercado consumidor alimentar trouxe transformações profundas na pecuária nacional. “Se na década de 1970 o normal era o camponês criar dois porcos no fundo de casa alimentado com restos, [atualmente] 36% do abastecimento de carne suína vem de grandes empresas administrando porcos industriais, que comem ração à base de milho e principalmente soja”, detalha.

Se em 2000, a China importava cerca de 13 milhões de toneladas da commodity, em 2020 este número saltou para mais de 100 milhões de acordo com dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Brasil e Estados Unidos sustentaram praticamente sozinhos o volume demandado pelos chineses durante décadas. As flutuações no mercado causadas pela pandemia e, sobretudo, as rusgas diplomáticas mostraram aos chineses a necessidade de um plano B.

Ainda no ano passado, Pequim fechou acordos inéditos para compra de soja em países sem grande tradição no cultivo do grão. Apostando no aparecimento de novas áreas de plantio com as mudanças climáticas, o Ministério do Comércio assinou um acordo para combinar as áreas de produção de soja e construir uma aliança industrial com a Rússia. Até 2024, a China espera importar pelo menos 3,4 milhões de toneladas dos russos. Compromissos semelhantes também foram assumidos com Etiópia e Tanzânia. As quantidades ainda são irrisórias e nem de longe atingem a demanda nacional. Porém, quando somadas às novas diretrizes para plantio doméstico, devem servir de alerta para o governo brasileiro.

Quem avisa é a professora da Universidade Politécnica de Hong Kong, Hairong Yan. Considerada uma das maiores pesquisadoras chinesas nas áreas de mudança agrária e soberania alimentar na China, Yan diz que a Rússia e os países do Leste Europeu têm terras agrícolas prontas para o cultivo de soja. Ela também acredita que os acordos fechados com nações africanas visam o longo prazo e haverá tempo para que cada um deles desenvolva as capacidades agrícolas. 

Há ainda uma preocupação adicional até agora ignorada pelo governo brasileiro: o custo ambiental. “A América do Sul tem sido um grande fornecedor, mas o preço da expansão da soja é o desmatamento”, pontua a professora. 

Domesticamente, a decisão de apoiar produtores chineses também têm motivações sustentáveis. “Tradicionalmente, os agricultores chineses no Nordeste da China, que é a principal região produtora de soja, alternam entre soja e milho. A crescente importação de soja pressionou os agricultores domésticos a desistir de sua produção de soja e passar a cultivar apenas milho, mas isso não é bom para a sustentabilidade do solo. Encorajar agricultores domésticos também cumpre essa função ecológica”, ressalta Yan.

Imagem de contêineres no porto de Paranaguá. Foto: Claudio Neves / Fotos Públicas
Imagem de contêineres no porto de Paranaguá. Foto: Claudio Neves / Fotos Públicas

A opinião é compartilhada por Escher. “No curto prazo, a China vai continuar comprando muito. Mas eles não planejam para dois anos e sim para décadas, meio século. A questão ambiental vai ser cada vez mais importante. A China busca liderar as iniciativas de combate às mudanças climáticas e já fala em exigir que pelo menos 50% da soja brasileira seja rastreada [sustentável e livre de desmatamento] até 2023”. 

O professor diz ainda que o governo federal erra ao ignorar a destruição dos biomas nacionais por agropecuaristas e prevê que, se as iniciativas chinesas apontadas pelo novo Plano Quinquenal vingarem, o cenário tende a ser “menos otimista do que as elites agropecuaristas brasileiras imaginam. Ainda não é nada catastrófico, mas os chineses estão mexendo os pauzinhos para reduzir essa dependência no futuro”, prevê.

Mudanças podem transformar comércio bilateral, diz diplomata chinês

Ao menos oficialmente, a China minimiza o impacto que as mudanças podem ter para o Brasil. Em entrevista ao MyNews, o ministro-conselheiro para o comércio da embaixada da China no Brasil, Qu Yuhui, diz que “diversificar vendedores não implica em diminuir a importância do Brasil”.

“Estamos garantindo outras fontes porque não sabemos se só [a produção do] Brasil vai ser o suficiente. No curto prazo, as medidas não vão afetar nossa parceria e ainda há muito potencial a ser explorado no mercado brasileiro”, garante o chinês, apontando ainda que há pouco espaço para a expansão da soja chinesa e que ainda vai demorar algum tempo para entender o impacto das novas diretrizes do governo nas cadeias produtivas da China.

Qu, porém, não descarta a possibilidade da demanda pela soja brasileira ser menor. “A pandemia colocou muitas dúvidas sobre a segurança alimentar, algo que o governo chinês quer garantir. Além disso, temos trabalhado para implementar um novo modelo de desenvolvimento baseado na dupla circulação, tornando o mercado e o consumo doméstico as forças motrizes do crescimento econômico chinês”.

Otimista, ele diz que o novo cenário talvez sirva como incentivo para maior diversificação do comércio bilateral com o Brasil, já que “autoridades brasileiras sempre reclamaram que compramos muitas commodities, sem grande valor agregado” e incentiva os dois lados a aprofundarem o diálogo, buscando caminhos de complementaridade entre as cadeias produtivas “amortizando inseguranças e flutuações de preço”.

Comentando os ataques promovidos pelo clã de Jair Bolsonaro (sem partido) à China, o ministro avalia que “os últimos dois anos mostraram maturidade nas relações sino-brasileiras, que contam com o apoio majoritário das populações de ambos os países”. Ele destacou que o diálogo da China com Brasília hoje é “direto e muito pragmático” e atribuiu ataques à desinformação.

“O nosso maior desafio segue sendo a falta de conhecimento sobre a China por parte da população brasileira. Notamos que, nas redes sociais, ainda há certo preconceito contra chineses”, lamenta.

No ano passado, a China seguiu como o maior parceiro comercial do Brasil, respondendo por 32,3% de todas as exportações brasileiras e por um superávit de US$ 33,6 bilhões. A demanda da soja também cresceu 5% no comparativo com 2019, atingindo as 60,6 milhões de toneladas, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério da Economia.

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Governo de SP anuncia chegada de insumos para vacinas para 3 de fevereiro https://canalmynews.com.br/mais/governo-de-sp-anuncia-chegada-de-insumos-para-vacinas-para-3-de-fevereiro/ Tue, 26 Jan 2021 17:42:03 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/governo-de-sp-anuncia-chegada-de-insumos-para-vacinas-para-3-de-fevereiro/ Expectativa é de receber, até abril, insumos para produção das 40 milhões de doses contratadas

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Doses da Coronavac, vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan com o laboratório chinês Sinovac
Doses da Coronavac, vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan com o laboratório chinês Sinovac.
(Foto: Governo do Estado de São Paulo)

Uma primeira leva de insumos da China para produção de vacinas contra a Covid-19 deve chegar ao Brasil no dia 3 de fevereiro. A informação é do governo de São Paulo, divulgada durante coletiva de imprensa nesta terça-feira (26).

“Nós tivemos essa sinalização, de que a liberação desses lotes será feita de uma maneira muito rápida começando por esses 5,4 mil litros que foram anunciados no dia de ontem [segunda-feira, 25] e chegarão aqui na próxima semana, com previsão do dia 3 de fevereiro”, afirmou Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, durante a coletiva.

A partir da chegada dos insumos, o Butantan prevê produzir 8,6 milhões de doses da Coronavac, imunizante desenvolvido em conjunto com o laboratório chinês Sinovac. Foi com ele que teve início a vacinação no Brasil, após o aval da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), no último dia 17. Na ocasião, também foi dado o aval para outra vacina, a da Oxford/AstraZeneca.

Outros 5,6 mil litros estão em processo avançado de liberação pelo governo chinês, segundo Dimas. A expectativa do Instituto Butantan é a de receber, até abril, o total de insumos para produção das 40 milhões de doses contratadas. Esse demanda futura também já conta com autorização da Anvisa para uso emergencial no Brasil.

Relação Brasil-China

O evento contou com a participação do embaixador da China no Brasil, Yang Wanming. Por meio de vídeo transmitido durante a coletiva, ele negou que os insumos não tenham chegado por questões diplomáticas.

“O Brasil é um país importante e um parceiro de grande significado para a China. Mantemos uma relação amistosa tradicional entre os dois países, incluindo o estado de São Paulo. Os avanços significativos da cooperação da Sinovac e o Instituto Butantan evidencia atitude científica e rigorosa dos pesquisadores de ambos os países, neste momento em que a Coronavac está sendo aplicada em todo o Brasil. Isso demonstra que a nossa cooperação beneficia não só os paulista como o povo brasileiro”, declarou durante a coletiva.

O Brasil vive uma relação conturbada com Pequim, alimentada pela chamada “ala ideológica” do governo, que culpa a China pelo novo coronavírus e chega a questionar a eficácia da vacina desenvolvida com a Sinovac, entre outros atritos. O atraso na vinda dos insumos foi visto como uma retaliação dos chineses a esses fatos.

Durante a coletiva, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), rebateu o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que disse em rede social na segunda-feira (25) que os insumos tinha sido liberados pela China após ação do governo federal.

“Todas as demandas foram conduzidas pelo Instituto Butantan e pelo governo de São Paulo”, disse Doria. “Nesses dois anos, nós ampliamos as relações econômicas, comerciais, institucionais, culturais, de cooperação e de solidariedade com a China”, completou o governador.

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Com relação Brasil-China em mau momento, leilão do 5G opõe questões econômicas e ideológicas https://canalmynews.com.br/mais/com-relacao-brasil-china-em-mau-momento-leilao-do-5g-opoe-questoes-economicas-e-ideologicas/ Wed, 23 Dec 2020 14:16:41 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/com-relacao-brasil-china-em-mau-momento-leilao-do-5g-opoe-questoes-economicas-e-ideologicas/ Governo Bolsonaro resiste, mas pressão empresarial deve ser decisiva na regulamentação

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Com a chegada do fim do ano, aumentam no Brasil as expectativas sobre o aguardado leilão do 5G, que deve ocorrer ainda no próximo semestre. E em meio a uma série de temas que rondam o leilão, um deles parece ser a pedra no sapato do governo: a participação da chinesa Huawei, que tem ampla presença no mercado, com 22 anos de atuação no Brasil, boa tecnologia e preços competitivos. No entanto, é alvo de campanha difamatória liderada pelo governo dos EUA e acompanhada pelo Palácio do Planalto e pela família do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Ainda não está claro se a ala ideológica do governo, com representante no posto máximo do Itamaraty, cederá às pressões de Washington para barrar a participação da empresa chinesa — embora existam, mesmo dentro do governo, vozes discordantes. Uma delas é a do vice-presidente Hamilton Mourão, que reconheceu que uma eventual exclusão da Huawei “vai custar muito mais caro”, lembrando que o consumidor deverá pagar a conta de um desmantelamento da estrutura já existente, o que ocorrerá se a empresa não participar.

Sucessora do atual 4G, a tecnologia 5G é um novo padrão para dispositivos móveis que promete revolucionar a conectividade. A nova geração não é só esperada para oferecer downloads mais rápidos, mas para permitir um futuro em que centenas de bilhões de dispositivos estarão conectados permanentemente à rede, como drones, carros autônomos, lâmpadas, sua geladeira e cidades inteiras. Terá efeitos na indústria, em cidades inteligentes, na segurança pública e na chamada internet das coisas (IoT).

Tecnologia 5G, cujo leilão no Brasil virou novo capítulo da relação turbulenta do governo com a China
Tecnologia 5G, cujo leilão no Brasil virou novo capítulo da relação turbulenta do governo com a China.
(Foto: Unsplash)

“Clean Network”

A questão tem em seu centro um nome pomposo: “Clean Network”, ou Rede Limpa, esforço do governo do futuro ex-presidente dos EUA Donald Trump para lidar com o que chama de “ameaças a longo prazo à privacidade de dados, segurança, direitos humanos e colaboração, com base em princípios para o mundo livre de atores autoritários malignos”. Leia-se, na semântica estadunidense, “China”.

Segundo os EUA, a rede teria como objetivo “implementar padrões de confiança digital aceitos internacionalmente em uma coalizão de parceiros confiáveis”. O secretário de Estado, Mike Pompeo, anunciou a adesão à iniciativa de mais de 170 empresas de telefonia e de 50 países, entre eles o Brasil de Bolsonaro, o que gerou firme reação da China.

A embaixada em Brasília chamou a rede de “discriminatória”, dizendo que quem tem histórico de espionagem são os EUA, relembrando o episódio de vazamento de dados obtidos pela NSA, a poderosa agência de segurança nacional de Maryland que, como se mostrou na ocasião, vigia todo tipo de comunicação entre cidadãos de todo o mundo.

Mas a China não está sozinha na briga. Na ocasião da visita ao Brasil de Keith Krach, subsecretário de Estado para o crescimento econômico, energia e meio ambiente dos EUA, as quatro maiores operadoras de telecomunicações do país, que já testam equipamentos da Huawei antes mesmo de o leilão acontecer, recusaram convite dele para um encontro em São Paulo, dizendo, segundo a Reuters, que não se tratava de algo “compatível com as escolhas do livre mercado”.

De fato, a visão do mercado é antipática à “Clean Network”. Embora procure se afastar da geopolítica, Luciano Stutz, presidente da Abrintel (Associação Brasileira de Infraestrutura para as Telecomunicações), é taxativo: a entidade é contrária a qualquer iniciativa que limite a empresa chinesa “simplesmente por limitar”. “Isso só vai encarecer o 5G brasileiro”, ressalta, fazendo coro a Mourão.

Para Stutz, o “justo e necessário” é ter o mesmo nível de regulação de tecnologia. “Não faz o menor sentido ter preocupação única e exclusiva com uma empresa ou uma tecnologia em detrimento de outras”, diz. “Não acreditamos que uma barreira ideológica seja benéfica ao nosso ecossistema”. Ele lembra a necessidade de leis municipais para facilitar ou afastar restrições para a instalação de antenas. “Sem infraestrutura, não vai ter 5G nenhum, mesmo com todos ou com apenas um fabricante.”

Tom diplomático

Em canais oficiais, a diplomacia chinesa adota tom mais comedido. Apesar do anúncio de adesão do Brasil à “Clean Network”, o ministro-conselheiro Qu Yuhui, da Embaixada em Brasília, ressalta que não houve ainda “manifestação oficial do governo brasileiro”. Ele lembra as polêmicas — que incluem até troca de mensagens públicas de Twitter, nada afetuosas, entre o embaixador Yang Wanming e um dos filhos do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) — mas diz, enfático: “Não há nada oficial sobre banir (a Huawei)”, lembrando que “o que se diz nas redes sociais ou imprensa é outra coisa”. O ministro, em conversa com o MyNews, avisa: “Vamos continuar a negociar”.

O embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, participa de seminário sobre agronegócio entre China e Brasil
O embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, participa de seminário sobre agronegócio entre China e Brasil.
(Foto: José Cruz/Agência Brasil)

O ministro Qu reverbera as aflições dos EUA: “Existe no Brasil a preocupação, como em todo o mundo, com a segurança cibernética”. Mas ressalta que a China espera que se tenham “critérios transparentes e técnicos na decisão do leilão”. O cuidado no tom ao falar de Brasil difere do discurso chinês sobre os EUA, cuja postura Qu chama de “caluniosa”, dizendo que o país “não consegue levantar uma evidência concreta para comprovar o que diz”. E reafirma: “ao menos no Brasil”, os equipamentos da Huawei nunca tiveram um incidente de segurança.

A Huawei faz campanha no mesmo sentido. Pede, como fez em uma recente reunião virtual com o ministro da Economia, Paulo Guedes, que as decisões sobre o 5G no Brasil, cujo leilão é esperado para ser o maior do mundo, sejam realizadas de forma “estritamente técnica, não discriminatória e em favor do livre mercado”.

Em dezembro, circulou no jornal Folha de S.Paulo anúncio de página inteira em que a companhia chinesa busca se posicionar como segura. Anúncios parecidos foram veiculados nos jornais O Estado de S. Paulo, O Globo e Valor Econômico, os maiores do país.

A empresa tem negado repetidamente que seus equipamentos representem risco à segurança, dizendo que cumpre todas as leis brasileiras e que está à disposição para testes e esclarecimentos que as autoridades considerarem necessários. “Estamos abertos a mostrar tudo o que fazemos para ter os equipamentos mais seguros”, disse ao MyNews o brasileiro Marcelo Motta, diretor global de cibersegurança da empresa.

“Queremos trazer racionalidade para a mesa para que o governo, por meio de critérios objetivos, tome decisões soberanas sem interferência de terceiros”, diz o executivo. Motta promete: “faremos tudo que estiver ao nosso alcance para mostrar nosso comprometimento e transparência”. Ele diz ainda que a Huawei é a única empresa que abre seus produtos para testes em centros globais de transparência, na China e na Bélgica. “Nesses centros globais, até o código-fonte das soluções pode ser aberto”, disse.

Reviravolta vinda da Alemanha

O imbróglio da “Clean Network” teve uma interessante reviravolta na última semana, quando o governo alemão passou uma lei, ainda pendente de aprovação pelo Parlamento, que permite à Huawei participar do leilão do 5G no país. A condição é a mesma para todos os concorrentes interessados: que sejam dadas garantias de segurança.

Para especialistas e atores do mercado ouvidos pelo MyNews, é o mesmo que se espera no Brasil. “A questão não é se (a Huawei) é confiável”, diz Fabro Steibel, diretor executivo do ITS Rio (Instituto de Tecnologia e Sociedade), argumentando que é o momento de fazer as coisas “com cuidado” . “Devemos confiar em país nenhum”. Segundo ele, a lei alemã é um bom exemplo: “deve-se determinar não quem participa, mas as regras de participação”.

Na Europa, a Alemanha parece estar sozinha na decisão. Países como Reino Unido, França, Finlândia, Polônia, Suécia e Romênia já se posicionaram a favor de banir a Huawei de suas redes 5G, embora a empresa conteste isso nos tribunais. Motta, da companhia chinesa, nega a intenção de judicializar a questão também no Brasil, mas diz esperar não ser necessário chegar a esse ponto. “Acreditamos que o governo tomará a decisão correta com base nos fatos”.

Pressão do mercado

Se depender do mercado, a tendência é que o Brasil acabe não banindo a Huawei. Empresas de telecomunicações, que reconhecem a importância do fornecedor chinês para a infraestrutura já montada no país, têm pressionado o Palácio do Planalto. Elas ameaçam inclusive ir à Justiça se a Huawei for barrada.

A explicação para a pressão das operadoras vem de Motta: “Nosso 4G evolui para o 5G via software”, diz. “Temos entre 40% e 45% de market share no Brasil, toda essa base já instalada foi construída desde 2002”. Se a Huawei ficar de fora, essa base terá de ser refeita.

As operadoras não estão sozinhas. O 5G, cujo impacto deve ser grande também no agronegócio, é visto como novo marco para a agricultura de precisão. A pressão sobre o governo Bolsonaro também vem desse lado, com o argumento de que a restrição de qualquer fornecedor poderia encarecer as instalações.

A expectativa é que o 5G tenha um impacto de até US$ 1,2 trilhão no PIB do país entre 2021 e 2035. “Nossos cálculos estimam um incremento anual de 2,5% no PIB brasileiro ao longo de 15 anos”, diz Motta.

Relação sino-brasileira azeda

Historicamente, como diz a internacionalista Lívia Costa, fundadora da plataforma de notícias Shumian, a relação entre o Brasil e a China nunca esteve em momento tão ruim. O que está agora no centro da polêmica do 5G se reflete em outras áreas, como na resistência à vacina do laboratório chinês Sinovac, a CoronaVac, que só depois de muita pressão acabou entrando no plano nacional de imunização.

A China é o maior parceiro comercial do Brasil, com importação de US$ 63,36 bilhões em 2019 (28,1% do volume exportado), mais que o dobro do segundo colocado, os EUA, com US$ 29,72 bilhões (13,2%), segundo dados da Abracomex.

“Essa animosidade em relação à China é relativamente nova na relação sino-brasileira”, diz Lívia, que viveu quatro anos em Pequim, onde fez mestrado em Relações Internacionais e Política. “Já víamos um pouco disso durante a campanha, quando Bolsonaro visitou Taiwan e não foi pra China continental, o que não foi bem recebido”, lembra. “Quando assumiu, houve um esvaziamento da política externa brasileira de forma geral”. Segundo ela, “Bolsonaro governa para a base eleitoral dele também no que se refere a temas estatais”.

A internacionalista lembra ainda que discordâncias que seriam impensáveis anos atrás, como acusar de espionagem ou de violação de direitos humanos, nem sequer ocorrem mais por vias diplomáticas. “O tecido da diplomacia está rasgado, isso se faz hoje por redes sociais”, diz.

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