Arquivos coluna da sylvia - Canal MyNews – Jornalismo Independente https://canalmynews.com.br/tag/coluna-da-sylvia/ Nosso papel como veículo de jornalismo é ampliar o debate, dar contexto e informação de qualidade para você tomar sempre a melhor decisão. MyNews, jornalismo independente. Tue, 23 Jul 2024 22:59:29 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.7.2 América do Sul tenta colocar freio a Israel https://canalmynews.com.br/coluna-da-sylvia/america-do-sul-tenta-colocar-freio-a-israel/ Thu, 02 Nov 2023 16:52:21 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=41013 Países da região estão reagindo à morte de civis palestinos no conflito

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Assim que teve início a ocupação da Ucrânia por parte da Rússia, os países sul-americanos foram os que mais tardaram em tomar um partido, e poucos o fizeram de fato. Me lembro de estar em Santiago, no Palácio de La Moneda, esperando um pronunciamento do recém-eleito mandatário chileno, Gabriel Boric, e ele não titubeou em condenar o ataque a Ucrânia.

Poucos o seguiram. Algumas semanas depois, em visita à Casa Branca, Petro foi indagado sobre se mandaria ou não armas, tanques e outros aparatos de guerra para a Ucrânia. Petro se esquivou, disse que havia muitas guerras no mundo e que estava concentrado em resolver a questão da violência em seu próprio país.

Já o conflito entre Israel e o Hamas tem sido diferente. E países da região tem se manifestado com maior ênfase, principalmente após o bombardeio de um campo de refugiados em Gaza. O primeiro país a fazê-lo foi a Bolívia, e tomou a atitude mais extrema, rompendo relações com Israel. Não chega a ser uma surpresa. Já no dia seguinte ao ataque do Hamas em território israelense, o ex-presidente Evo Morales lançou um tuíte dizendo que apoiava as ações do grupo terrorista.

Depois, com a escalada da retaliação, Morales postou um pedido para que Israel fosse classificado como um “Estado terrorista”, e que Benjamin Netanyahu fosse denunciado à corte penal internacional por genocídio e crimes de guerra.

O rompimento foi anunciado pela ministra María Nela Prada, em representação do atual presidente, Luis Arce. “Nós exigimos que os ataques à Faixa de Gaza acabem, pois eles estão acabando com a vida de milhares de civis e causando um deslocamento forçado de palestinos”, afirmou, em uma coletiva de imprensa em La Paz. Tampouco se trata da primeira vez que a esquerda boliviana demonstra suas antipatias contra Israel. Durante a gestão de Evo Morales, em 2009, também houve um rompimento das relações com o país ante um ataque deste à Faixa de Gaza.

As relações só foram reatadas pela presidente interina Jeanine Áñez, que assumiu depois da renúncia de Evo Morales, após um período de caos político que o levou a deixar o país.

Outros países estão demonstrando preocupação. O Chile, com uma comunidade de 500 mil palestinos existe mesmo um clube de futebol no país com esse nome, chamou seu embaixador em Israel para consultas.

O presidente Gabriel Boric afirmou que havia tomado essa decisão por conta das “violações à lei humanitária internacional que Israel estava cometendo em Gaza, e que são inaceitáveis”. Boric ainda afirmou que as mais de 8 mil mortes de civis causadas pela ofensiva israelense em Gaza demonstram que se trata de “uma punição coletiva contra a população civil em Gaza”. Também o posicionamento a favor dos palestinos tem a ver com a política interna do país. Há na base de apoio do governo, integrantes de origem palestina, como Daniel Jadue, que já foi presidenciável.

O mesmo ocorreu com a Colômbia. O presidente Gustavo Petro convocou também seu embaixador para consultas. Petro é um defensor da causa palestina e vem atacando fortemente a retaliação israelense aos ataques de 7 de outubro. Primeiro presidente de esquerda da história da Colômbia, Petro disse durante a semana que tomava essa atitude por conta do “massacre do povo palestino”.

O mandatário colombiano ainda fez uma comparação entre as atitudes de Israel com as de Adolf Hitler. Israel respondeu por meio de seu ministro das relações internacionais, Eli Cohen, que acusou Petro de colocar vidas de judeus em risco, encorajando “os horríveis atos dos terroristas do Hamas por meio de declarações hostis e antisemitas”. A posição de Petro acabou criando uma fricção interna na política colombiana, justamente num contexto em que o governo saiu derrotado das eleições regionais ocorridas no último dia 29.

Um dos que saíram ao ataque de Petro foi seu sucessor, Iván Duque, que o acusou de não mencionar o ataque terrorista do Hamas em seus comentários sobre o conflito.

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Um ano de altos e baixos de Petro na Colômbia https://canalmynews.com.br/coluna-da-sylvia/um-ano-de-altos-e-baixos-de-petro-na-colombia/ Wed, 09 Aug 2023 15:56:04 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=38755 "Estou no governo há um ano, não no poder", e apontou para obstáculos que têm encontrado em outras forças que diz possuírem o poder "de facto", empresas, imprensa, cartéis de narcotráfico.

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Gustavo Petro, presidente da Colômbia, sempre teve um estilo grandiloquente de discursar, buscando a palavra perfeita para ficar nos livros de história. Quando tomou posse, há um ano, parafraseou o escritor García Márquez (1927-2014), mudando o final do romance “Cem Anos de Solidão”. Enquanto o Nobel apontava para um fim catastrófico da espécie humana, Petro prometeu outra coisa aos colombianos: “Hoje começa nossa segunda oportunidade sobre a terra”.

Nesta semana, quando completou um ano no comando do país (em 7 de agosto), o presidente da Colômbia, em entrevista à jornalista Maria Jimena Duzán, demonstrou que sente que tem uma tarefa mais complicada adiante e que não pôde avançar em promessas cruciais de sua campanha. “Estou no governo há um ano, não no poder”, e apontou para obstáculos que têm encontrado em outras forças que diz possuírem o poder “de facto”, empresas, imprensa, cartéis de narcotráfico. Por outro lado, demonstrou otimismo porque crê que sua fórmula é uma alternativa ao neoliberalismo que floresceu no país nos anos 1990, com a nova Constituição, e que vem demonstrando estar liquidado. Isso, segundo Petro, abre espaço para o extremismo de direita e “ameaça o planeta”.

“Por conta da crise econômica, da guerra, da pandemia e da crise ambiental, há uma crise civilizatória, o fascimo cresce porque acabou o neoliberalismo não tem mais soluções”.
Primeiro presidente de esquerda da história da Colômbia, Petro foi eleito por margem apertada na disputa com o direitista Rodolfo Hernández. Em sua plataforma estava promover a “paz total”, ou seja, a pacificação de um país atormentado pela violência por meio de negociações com os distintos grupos, uma reforma agrária por meio da compra e doação de terras improdutivas, e uma ambiciosa agenda de redução da produção do petróleo e revigoramento da luta contra o desmatamento amazônico.

Mas, quanto de fato pôde avançar Petro?

Uma das mais esperadas promessas de campanha do colombiano é a reforma agrária que consta do acordo de paz assinado com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), em 2016.
As cifras, porém, ainda estão distantes do ideal. No tratado, se fala de uma entrega de 3 milhões de hectares e a formalização de 7 milhões já ocupadas por camponeses. A gestão Petro chegou a apenas 2% desta meta. O presidente alega ter encontrado vários obstáculos, como a falta de um mapeamento preciso das terras improdutivas e disputas locais de facções criminosas que impedem a atuação do Estado no campo.

Na área ambiental, Petro havia prometido o abandono gradual e avançado do petróleo e do gás, substituindo-os por energias alternativas e renováveis.
Porém, para além dos eloquentes discursos que deu sobre o tema em várias cúpulas internacionais, a gestão não pôde ir muito adiante nesse quesito devido à dificuldade de fazer acordos com empresas privadas que pudessem instalar esses parques eólicos e solares.

Na área de desmatamento, sim, há boas notícias, como a redução de 29,1% do ano passado para este.

O governo, porém, vem enfrentando dificuldades em aprovar projetos no Congresso. Politicamente, a aliança que elegeu Petro, uma frente ampla de esquerda e centro, se desfez, e hoje os conservadores dominam o parlamento. Com isso, ficaram travadas reformas e normas nas áreas econômica e de educação.

A oposição vem ganhando força e isso deve ser visível nas eleições regionais que ocorrem em outubro. Escândalos como os que envolvem os áudios de seu ex-colaborador Armando Benedetti e a prisão de seu filho, Nicolás Petro, não ajudam. Ambos apontam para a possibilidade de Petro ter recebido apoio financeiro para sua campanha vindo do narcotráfico, uma acusação que já custou caro a outros ex-mandatários como Álvaro Uribe ou Ernesto Samper.

Aliado do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, Petro vem navegando águas turbulentas e com protestos da oposição no horizonte próximo.

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As Avós da Praça de Maio são o melhor da Argentina https://canalmynews.com.br/coluna-da-sylvia/as-avos-da-praca-de-maio-sao-o-melhor-da-argentina/ Thu, 03 Aug 2023 22:31:05 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=38716 As Avós criaram, em 1977, uma associação apenas para buscar os netos, ou seja, os filhos desses desaparecidos que teriam nascido em cativeiro

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Poucas coisas são tão gratificantes, na Argentina, quanto o encontro de um neto por parte das Avós da Praça de Maio. Paralelamente à luta das Mães da Praça de Maio, que até hoje buscam os filhos desaparecidos durante a ditadura militar (1976-1983), as Avós criaram, em 1977, uma associação apenas para buscar os netos, ou seja, os filhos desses desaparecidos que teriam nascido em cativeiro. O cálculo é de que 500 bebês vieram ao mundo nos centros clandestinos de detenção.

Enquanto a maioria de seus pais e mães foram assassinados pela repressão, tornou-se uma prática comum que as crianças fossem poupadas. Porém, em vez de serem entregues a familiares, os militares se apropriaram desses bebês, entregando-os, com outra identidade, a amigos e parentes de militares, imaginando que, deste modo, jamais conheceriam sua origem.

Se no início a associação contava com dezenas de avós, estas vêm perdendo para o tempo seus principais membros fundadores. Uma delas ainda resiste, se trata de Estela de Carlotto. Depois de recuperar mais de 100 netos, ela, enfim, encontrou o seu, Ignacio de Carlotto, que havia sido entregue a uma família no campo, que o criou e que ele considerava seus pais até os 30 anos.
Carlotto ainda é das mais ativas, mas muitas das Avós Fundadoras estão envelhecendo e afastando-se da luta, ou mesmo morrendo. Mesmo que essa geração a partir de algum momento não possa mais fazer as buscas, elas certamente continuarão a ser feitas. Aos poucos, vêm assumindo a associação netos recuperados e militantes de direitos humanos.

Foi a pedido das Avós que se construiu um banco de dados genético único no mundo, que é capaz de identificar uma pessoa sem ter o material dos pais, mas sim das avós ou mesmo de primos.
Qualquer pessoa que tenha nascido nos anos 1970 e 1980 e tenha alguma desconfiança de ser um neto apropriado, tem o direito de fazer o teste. Em caso de o resultado dar positivo, as Avós proporcionam a divulgação, não sem antes realizar um trabalho com a ajuda de advogados e psicólogos que preparam a nova documentação da pessoa e a orientam a lidar com suas emoções nesta nova situação.

Mais uma alegria desse tipo ocorreu na semana passada, quando anunciaram a recuperação do neto 133, filho de Cristina Navajas e Julio Santucho. Ele é neto de uma das fundadoras da Associação, Nélida Navajas, que morreu em 2012 e não pôde conhecer o neto perdido. Na ocasião do anúncio, Mario Santucho, o irmão do neto encontrado afirmou: “Meu primeiro pensamento foi e sempre vai ser, para minha mãe e para a minha avó, porque elas nunca deixaram de lutar para nos encontrar e não estaríamos aqui sem elas.”

Hoje o trabalho das Avós e das Mães é reconhecido dentro e fora da Argentina, suas fundadoras andaram pelo mundo dando palestras e recebendo prêmios. Mas não foi assim sempre. No início de suas buscas, Mães e Avós compartilhavam um preconceito da elite argentina, eram chamadas de “Loucas da Praça de Maio” e, durante todo o tempo que durou a ditadura, não tinham presença ou voz nos meios de comunicação argentinos.

A história do neto 133 é como a de tantos outros. Tendo sido apropriado por um integrante das Forças de Segurança casado com uma enfermeira em 24 de marzo de 1977, afirmou que desde jovem teve dúvidas sobre sua identidade. Foi criado como filho único, com uma irmã vinte anos mais velha que já não vivia com a família. Foi ela que, um dia, contou ao caçula que ele não era filho biológico daquele casal. O rapaz, então, confrontou o pai adotivo duas vezes, mas nas duas recebeu a resposta de que ele, sim, era seu pai biológico. Inconformado com a resposta, o rapaz entrou, então, em contato com as Avós, fez teste de DNA, que foi comparado com a base de dados genéticos e teve sua identidade confirmada em 26 de julho último.

É normal que os netos encontrados não saiam à luz logo de cara, há todo um trabalho de reconstrução da história verdadeira, contatos com os pais adotivos e até a emissão de novos documentos, do DNI (o RG argentino) ao passaporte. A mãe morreu no centro clandestino em que deu à luz ao neto 133, o pai, escapou para o exílio. No dia do anúncio, seu pai, Julio Santucho, tinha lágrimas nos olhos. “É uma vitória da democracia e uma derrota da ditadura, porque eles quiseram roubar nossos filhos e os estamos recuperando”.

Ao entregar essas crianças para adoção, os militares não pareciam desconfiar de que essa mentira teria pernas curtas. Muita luta, muita pesquisa e investigação, fazem reviver uma geração inteira que tinha tido sua identidade roubada. É dos poucos assuntos que unem a sociedade argentina. A cada descoberta de um neto, o país chora de emoção. E aqueles que maquinaram a ditadura recebem essa dura e merecida resposta da história.

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Alerta para as comemorações do 11 de Setembro no Chile https://canalmynews.com.br/coluna-da-sylvia/alerta-para-as-comemoracoes-do-11-de-setembro-no-chile/ Thu, 13 Jul 2023 15:31:19 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=38478 Os desafios de Boric para encontrar um consenso são enormes, e sua debilidade começa a se fazer notar, em suas diferenças com o Congresso e com a incapacidade, sequer, de nomear alguém de sua confiança para comandar a memória de data tão nefasta para o Chile.

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A noite em que se conheceu que Gabriel Boric seria o novo presidente do Chile, em 19 de dezembro de 2021, foi de festa para os progressistas. Desde socialistas de antiga data, a allendistas, partido comunista, centro-esquerda e a chamada “direita democrática”, que se assustou com o avanço da extrema-direita que representava a opção de José Antonio Kast, saíram para comemorar.

Porém, lembro-me que, voltando daquela cobertura do centro até o hotel em Santiago, já avançada a madrugada, me topei com um grafitti recém pintado num muro: “Boric, não brinque com os presos políticos!”.

A assinatura era clara, tratava-se dos jovens representantes de esquerda do Partido Comunista e de outras agrupações relacionadas. Eles, que foram o coração dos protestos de 2019 e que deram o primeiro passo para a instalação da Assembleia Constituinte (primeira versão), já vinham mostrando desgosto com Boric.

Primeiro, porque se afastava de sua base eleitoral para aproximar-se do centro político e até da direita. Hoje, teve de retroceder em vários pontos progressistas de sua agenda e até celebrar os Carabineros responsáveis por abusos de direitos humanos nos protestos. Tampouco liberou os chamados “presos políticos”, detidos naquela fase, ou fez gestos de resolver as questões de violência no Sul, que vira e mexe recebe intervenções militares.

O partido comunista já não se vê representado por ele e aproveita todas as oportunidades para criticá-lo.

O mais recente desses episódios ocorreu no último mês. Boric havia nomeado o escritor e jornalista Patrício Fernández, criador da revista The Clinic e progressista, para cuidar das comemorações dos 50 anos da ditadura chilena (1973-1990), que ocorrem no próximo mês de setembro.

Pois, integrantes do PC foram vasculhar tuítes e postagens de Fernández, e encontraram ali o que alegam ser uma campanha de relativização da ditadura. Junto a outras 160 agrupações relacionadas à defesa dos direitos humanos, pediram sua cabeça a Boric.

A principal discórdia ocorreu num trecho de uma entrevista de rádio em que Fernández foi entrevistado pelo sociólogo Manuel Antonio Garretón. Na entrevista, o jornalista, que fez parte da Assembleia Constituinte, afirmou que era necessário estudar mais as razões do golpe militar e que atitudes do presidente socialista Salvador Allende poderia ter provocado o giro dos militares contra ele.

As críticas foram ferozes. Patrício Fernández retrucou que nunca justificaria um golpe de Estado. Porém, seu cancelamento nas redes sociais e no ambiente político foi rápido. Enquanto isso, membros da oposição atacaram a esquerda, por sua virulência contra um de seus próprios integrantes. A fogueira já estava acesa e vários representantes dos partidos de direita, estes sim, saíram a dar declarações relativizando a ditadura.

“Eu sim justifico o golpe militar, vimos o cancelamento imediato de uma pessoa de esquerda que não era suficientemente de esquerda para o setor mais radical”, disse Jorge Alessandri (UDI).

Foi demais para Fernández, que renunciou ao posto. “Minha pessoa se transformou num obstáculo para o bom desenvolvimento dessa comemoração. O desafio é tão grande e importante, que peço que entendam porque estou dando um passo para o lado”.

Para não causar mais turbulências nessas delicadas comemorações do 11 de Setembro, não nomeou um novo nome, e sim encarregou distintos ministérios de cuidar das atividades que ocorrerão no período.
O período militar chileno fez mais de 3 mil vítimas, entre mortos e desaparecidos, dentre os quais apenas 307 foram até hoje identificadas.

Com a esquerda rachada, brigando entre si, e os ultradireitistas ganhando tração, uma vez que derrotaram a Constituinte no ano passado e agora são maioria na nova Assembleia, o Chile chega à data histórica de 50 anos de uma ferida que, em vez de estar cicatrizando-se, parece reabrir.

Os desafios de Boric para encontrar um consenso são enormes, e sua debilidade começa a se fazer notar, em suas diferenças com o Congresso e com a incapacidade, sequer, de nomear alguém de sua confiança para comandar a memória de data tão nefasta para o Chile.

Ainda neste ano, os chilenos voltarão às urnas para decidir sobre a segunda versão da nova Constituição. Uma derrota do governo ali pode significar que a estrada estará ainda mais aberta à extrema-direita no Chile.

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Quem se importa com o colapso da democracia na Guatemala? https://canalmynews.com.br/coluna-da-sylvia/quem-se-importa-com-o-colapso-da-democracia-na-guatemala/ Thu, 06 Jul 2023 15:21:40 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=38371 O governo brasileiro ainda não se pronunciou sobre a anulação do primeiro turno das eleições na Guatemala, um grave avanço contra as instituições num importante país da América Central.

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O governo brasileiro ainda não se pronunciou sobre a anulação do primeiro turno das eleições na Guatemala, um grave avanço contra as instituições num importante país da América Central. Este pedaço do mundo que, aparentemente, está abandonado pela comunidade internacional, embora esteja no coração das relações entre norte e sul.

Não se trata apenas do Brasil, nenhuma outra economia importante da região, ao menos até o fechamento deste texto, havia se manifestado com relação à escalada do autoritarismo no país e em seus vizinhos, algo cada vez mais visível e palpável, embora apenas se transforme em assunto de interesse especial quando impacta na questão imigratória aos EUA.

Há meses se discute a legitimidade das eleições guatemaltecas, marcadas pela anulação de candidaturas discordantes com a linha do atual presidente, Alejandro Giammattei. O mandatário vem avançando nos últimos meses contra a Corte Suprema, o Congresso, a oposição e os jornalistas independentes deste país.

Quando foram anunciados os vencedores do primeiro turno, Sandra Torres (centro-direita) e Bernardo Arévalo (centro-esquerda), sentiu-se que o país centro-americano poderia afastar-se do autoritarismo de Giammattei, afinal, seria um resultado considerado “zebra” e que assustaria os empresários conservadores do país.

Em conversa com o My News, em Bogotá, José Zamora, filho do jornalista José Rubén Zamora, condenado a seis anos de prisão por conta das denúncias de corrupção divulgadas em “El Periodico” disse que “Não é possível que tudo na Guatemala possa mudar tão rápido. Estávamos trabalhando em recursos para tirar meu pai da cadeia antes, por conta das irregularidades no processo, e achávamos que com esse resultado do primeiro turno seria propício, mas agora, nada está certo.”

Segundo o Human Rights Watch: “Os latino-americanos sabem o que é perder o direito ao voto. Nossos governos não deveriam ficar em silêncio enquanto uma elite corrupta coloca em risco esse direito fundamental na Guatemala”, afirmou Juan Pappier, diretor para as Américas do organismo.

Para quem não acompanhou, as eleições do último dia 25, como se previa, terminaram com um resultado fragmentado e levando para um segundo turno pelo menos um candidato inesperado (Arévalo). Uma reeleição de Giammattei seria impossível, porque no país não há esse recurso. Porém, se esperava que outro candidato conservador chegasse à final. Arévalo, filho de um ex-presidente guatemalteco, abraçado à ideia de proteção do ambiente e a um certo progressismo, espantou os donos do poder no país.

Por conta da pressão de partidos de direita, a Corte Constitucional pediu a recontagem dos votos e terminou por anular os resultados do primeiro turno, colocando o país no limite de um governo autocrata ou de uma ditadura. A decisão recebeu críticas da União Europeia e da OEA (Organização dos Estados Americanos), porém, foi ignorada pontualmente por países como o México, a Argentina ou o Brasil.

É preciso ser míope para não entender que o que ocorre na Guatemala afeta o Brasil e a região diretamente. Trata-se de um país golpeado pela violência do narcotráfico, na rota das distintas imigrações aos EUA e na porta de entrada da América do Sul. “Se houver um cancelamento das eleições, será outro sinal de que a elite corrupta da região ainda tem o poder de se sobrepor à vontade do eleitorado”, disse Jeremy McDermott, do Inside Crime.

Reunidos em Puerto Iguazú, nesta semana, os mandatários de Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, sequer puderam chegar a uma posição comum sobre a Venezuela, que acaba de cancelar a candidatura de María Corina Machado, uma opositora tradicional ao regime que vinha se projetando com força para as eleições de 2024. Quanto à Guatemala, então, nenhum gesto.

Enquanto posicionar-se quanto à democracia na Venezuela parece atender a uma lógica de apoios internos de cada país, dos pontos de vista ideológicos e eleitorais, o que se pode dizer sobre posicionar sobre a Guatemala, que nenhum crédito a ninguém parece trazer desde as urnas?

Uma lástima completa. Se a tal democracia regional fosse de fato de interesse desses líderes, teríamos uma posição de repúdio com relação ao que acontece no país centro-americano.

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Por que precisamos falar sobre o México? https://canalmynews.com.br/politica/por-que-precisamos-falar-sobre-o-mexico/ Wed, 21 Jun 2023 16:50:51 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=38154 Confira a coluna da Sylvia desta semana

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Este particular país da América do Norte, porém identificado culturalmente na America Do Sul,verá o fim do chamado sexênio (no México, as gestões são longas e sem reeleição), em 1 de julho de 2024. Um período em que, se por um lado imprimiu uma nova cara ao modo de fazer política num mundo em transformação, por outro preferiu isolar tanto seu país em termos de relações e investimentos internacionais, ao não chamar ao debate lideranças, opositores, referentes de outros países. “Outros países têm problemas, eu me dedico a resolver os de México, diz AMLO”, quando perguntado por essa questão.

AMLO é o primeiro presidente de sua força política, o Partido da Regeneração Nacional, o Morena, fundado por ele. Surgiu, em seus primórdios, do próprio PRI, e foi se afastando por desavenças.

É fato que o gasto social referente a ajudar os mais pobres foi recorde nos últimos anos, em vez de privilegiar fábricas de peças e autopartes, que era a política principal que interessavam os EUA de Trump e as estratégicas de Peña Nieto. AMLO preferiu estradas novas e entregas de planos para a educação e programa de bolsas. Um plano de neoliberalismo mexicano dava lugar a um desenvolvimentismo nacionalista, com toques esotéricos em seu discurso.

Suas altas aprovações, medidas entre 65% e 70% nos mostram que em algo se avançou.

Porém López Obrador vem se debilitando por não ter o Congresso para ajudá-lo em suas reformas de modo tão fácil como no começo, foi obrigado a aceitar a pressão dos EUA em pressionar migrantes centroamericanos a não irem aos EUA, a reprimir, e é aí que seu governo tem encontrado dificuldades, além de ter tido uma posição algo irresponsável no caso das vacinas de Covid-19. Eram famosos os vídeos em que Lopez obrador ia a comércios populares para estimular que as pessoas mantivessem viva a cultura local.

A corrida pela sucessão de AMLO já está lançada. Como este é o principal líder da luta, as primárias do país, que ocorrem em distintas rodadas, praticamente será acompanhada com se fosse novela, entre os que preferem a candidata Claudia Sheinbaum, e seu diálogo talvez também algo esotérico, e o do ex-secretário de Estado Maurício Ebrard, que surge como opção mais séria, moderada do que é AMLO. Como o México não tem figura de vice-presidente, Ebrard é uma espécie de mão do governo em todas as áreas. Seria estranho que ele não se candidatasse. Em se tembro de setembro, conheceremos os resultados das corridas intra-candidatos.

Não devemos nos furtar a dizer que Ebrard tem mais experiência com os EUA, e poderá lidar com melhores acordos com a Latam no que diz respeito a fluxos migratótios, enquanto Sheinbaum não lhe doerá o punho apoiar as decisões mais linhas dura de AMLO.

Não devemos demorar a trazer a voz do povo aqui. AMLO é amado por mais de 65% dos mexicanos, dos 70% que querem que ele continue com o cargo. Embora isso seja impossível pela Constituição, é comum, por exemplo na hora do PRI, que em algum momento o atual mandatário unja seu preferido com o famoso “dedazo”, ou seja, dizendo que a máquina do Estado será disponibilizada que para este se eleja. Essa técnica funcionou durante as 7 décadas de poder do PRI. Veremos algo distinto agora?

Com o rápido de desgaste de Claudia Sheinbaum contamina algo pouco saboroso que teve de entregar a seus eleitores: uma política mais dura e repressiva no que diz respeito à imigração ilegal.
Enquanto o cenário não se termina de formar, as eleições primárias do Morena ganham espaço de novela nacional cujo episódio será no dia 6 de setembro. Se levantará AMLO para indicar sua sucessora ou sucessor?

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Haverá um apagão informativo na América Central? https://canalmynews.com.br/coluna-da-sylvia/havera-um-apagao-informativo-na-america-central/ Wed, 14 Jun 2023 17:47:17 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=38069 Confira a coluna da Sylvia desta semana

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Num passado não muito distante, à exceção de Cuba, era inimaginável que outros países da América Latina vivessem tamanha perseguição a seus meios de comunicação independentes.
Essa situação, porém, vem escalando na América Central e na Venezuela. Nos últimos meses, vários governos, alguns ainda democráticos, outros ditaduras em formação ou já instalados como tal, avançaram contra as instituições e contra a liberdade de imprensa.

Nos próximos dias, a Justiça da Guatemala emitirá uma sentença contra José Rubén Zamora, que já está preso há quase um ano. Aos 66, Zamora, fundador do mais tradicional jornal guatemalteco, “El Periódico”, que circulava desde 1996 e fechou no mês passado, pode pegar até 40 anos de cadeia.
A acusação é por fraude e por não entregar contas claras à receita local. Sua defesa nega, e reafirma que o processo é político.

“Alejandro Giammattei [presidente da Guatemala] parece usar um manual do ditador latino-americano moderno. Em vez de perseguir diretamente jornalistas e meios de comunicação por algo que publicaram, avançam sobre eles de modo gradual e pelo caminho das finanças, afogando, aos poucos, essas empresas pelo lado econômico”, disse José Zamora, filho de Rubén, ao MyNews, desde Miami, onde foi viver com a família por conta de ameaças.

Já em El Salvador, o governo autoritário de Nayib Bukele avança rapidamente contra todas as instituições do Estado. Já tem maioria no Congresso em eleição polêmica, e ainda assim quer reduzi-lo, nomeou ele mesmo uma nova Suprema Corte, mudou a Constituição para poder se reeleger e, como não podia ser diferente, avançou contra os meios de comunicação independentes. O alvo principal, no caso, é o El Faro, jornal digital essencial para a cobertura não apenas do que ocorre em seu país, mas também em outros em que sequer há imprensa livre, como Honduras.

A perseguição ao El Faro também seguiu as medidas do tal “manual”, mencionado por José Zamora. Investigação de suas finanças, várias operações de busca, acusação de não cumprir com as regras tributárias. O El Faro tem prêmios internacionais por cobrir os dramas da região hoje, e era o único jornal local a mostrar assuntos que Bukele não gostaria que fossem públicos. Entre eles, suas negociações com as “maras”, contra quem, depois, lançaria uma guerra. Sem poder continuar resistindo a pressões, no início de abril, o El Faro mudou sua sede para a Costa Rica, que aos poucos vem sendo o principal abrigo para jornalistas e opositores de governos autoritários da região.

Em conversa com o MyNews, o jornalista Carlos Dada, um de seus fundadores, disse que o país vem vivendo o desmonte da democracia, o fim dos pesos e contrapesos na cúpula do poder e a destruição de mecanismos de transparência. O jornal e sua equipe também foram espionados usando o sistema Pegasus e exposto de modo negativo na TV estatal.

“Nós não vamos mudar em nada nossa cobertura de El Salvador, mas faremos de modo diferente, com alguns jornalistas lá, mas a sede do jornal num país que pode nos garantir certa estabilidade”, adiciona Dada.
Também na Costa Rica opera o jornal nicaraguense El Confidencial, um pioneiro nesta saída de críticos de Daniel Ortega nessa nova onda de exílio. Seu editor, Carlos Fernando Chamorro, conta que, nos últimos tempos, tem reforçado a proteção de suas fontes na Nicarágua, onde qualquer um que lhe passar informação corre o risco de ser preso. “Já não identificamos quem nos passa a informação, tampouco damos nomes de quem colabora conosco estando na Nicarágua, só assim podemos circular com certa segurança”, disse ao MyNews.

Por fim, fora da América Central, mas com desafios parecidos, está a Venezuela, que há mais de 480 dias vem sofrendo um bloqueio de internet, sob ordens do ditador Nicolás Maduro. O Efecto Cocuyo, principal diário independente, lançou uma campanha em que venderá 480 NFTs (token não fungível) colecionáveis por US$ 190, numa campanha para ajudar o jornal a se financiar neste importante ano pré-eleitoral. Em outubro, a Venezuela terá eleições primárias para escolher o candidato da oposição e, no ano que vem, as presidenciais.

“Essa campanha é mais importante agora em vésperas desses acontecimentos políticos, porque há muito em jogo nessa eleição e vamos precisar atuar para combater a desinformação e as mentiras da ditadura”, diz uma das fundadoras do Efecto Cocuyo, Luz Mely Reyes, ao MyNews. Luz Mely também está fora da Venezuela.

Para responder à pergunta sobre se haverá ou não um apagão informativo na região, a resposta imediata é “não”, muito por conta desses valentes colegas que resistem de modo corajoso e criativo, ainda que correndo vários riscos.
Mas isso não significa que esse quadro não possa mudar nos próximos meses. Já há sinais de que o presidente da Costa Rica, Rodrigo Chaves, deseja colocar limites a essa atuação da imprensa estrangeira em seu país.

No caso de isso se agravar, o risco de apagão informativo será maior. E as consequências para a América Central serão terríveis. Trata-se de uma região cheia de problemas sociais, imigração ilegal, facções criminosas, que não ficarão contidas apenas à América Central se não houver medidas dos Estados e a vigilância das mesmas por parte dos meios de comunicação.

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Justiça na Amazônia, utopia ou realidade? https://canalmynews.com.br/coluna-da-sylvia/justica-na-amazonia-utopia-ou-realidade/ Wed, 07 Jun 2023 16:12:59 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=37984 Confira a coluna da Sylvia desta semana.

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Familiares, amigos, imprensa e defensores dos direitos ambientais estiveram presentes nas distintas homenagens ao jornalista britânico Dom Phillips e ao indigenista brasileiro Bruno Pereira por conta do aniversário de um ano do assassinato de ambos, no Vale do Javari, na Amazônia, por parte de atores ligados ao garimpo e a pesca ilegais. Os atos aconteceram no Rio de Janeiro, em Brasília, em Londres e em outras cidades.
Se, por um lado, há uma grande dose de conforto ver que a rede de solidariedade formada por seus amigos e familiares em torno da tragédia continua viva, alimentando projetos, livro, documentários e, principalmente, promovendo ações para que o caso não perca visibilidade; por outro, não há praticamente notícias boas relacionadas a como continuam sendo ameaçadas as populações indígenas no Javari, ainda perseguidas e mortas pela ação do garimpo e da pesca ilegal.
Como a própria viúva de Dom, Alessandra Sampaio, disse, no evento carioca, “Toda a repercussão mundial, tudo o que se fez desde a morte deles, não chegou ainda a mudar algo para a população do Javari”.
Bruno Pereira, um homem que dedicou a vida a cuidar dos indígenas, os estava treinando a usar equipamentos de controle e vigilância para evitar que suas terras fossem invadidas de modo ilegal.
Dom Phillips, por sua vez, estava escrevendo um livro chamado “Como Salvar a Amazônia”. Ter sido perseguido e morto com um tiro nas costas demonstrou que essa é uma indagação muito incômoda para chefes de garimpo e pesca irregulares, assim como os que lideram cartéis de narcotráfico que atuam na região.
O histórico de ataques às terras indígenas exibido no bom documentário “Vale dos Isolados”, da Globoplay, dirigido por Sonia Bridi, infelizmente deixa um sabor amargo na boca de quem o assiste buscando algum sinal de que há avanços na preservação da floresta. O filme nos mostra o longo histórico da violência na Amazônia como uma contínua sucessão de assassinatos e massacres ocorridos nas últimas décadas, a maioria deles sem julgamentos ou condenações dos verdadeiros mandantes.
No caso de Dom e Bruno, há dois assassinos confessos esperando julgamento, mais o suposto mandante do crime, que foi indiciado nesta semana. Com a proximidade do julgamento, a defesa dos executores alterou sua versão. Eles agora afirmam que haviam confessado o crime num primeiro momento sob tortura e que Bruno havia atirado primeiro. Portanto, tentam emplacar uma nova narrativa na qual teriam agido em defesa própria _uma tese difícil de provar, mas que torna o julgamento mais intrincado.
Há, ainda, a questão política. Ninguém é ingênuo de pensar que esses assassinos atuaram sozinhos. E a continuidade da violência na Amazônia está diretamente relacionada com o histórico de encobrimentos e corrupção das autoridades locais.
Quando o presidente Lula foi eleito, a esperança de que a Amazônia passaria a ser uma preocupação real por parte do Estado projetou as demandas pela pacificação da região. De fato, no discurso com relação ao tema do meio ambiente, o ex-presidente Bolsonaro e o de Lula são completamente opostos.
Durante seu mandato, Bolsonaro retirou a proteção indígena e defendia a ideia de que a Amazônia deveria ser rentável. O desmatamento aumentou. Quando saiu a notícia de que se haviam descoberto os corpos, Bolsonaro foi capaz de dizer que Dom e Bruno entraram numa área não autorizada e que eram os responsáveis por sua morte, ao buscar uma “aventura”, sem estarem preparados.
Lula, após eleito, mostrou interesse em mudar essa situação e anunciou investimentos e ações locais, além de levar essa intenção a vários líderes europeus.
Afinal, a Amazônia protegida do desmatamento e da violência é praticamente um requisito pelo tão buscado acordo Mercosul-União Europeia.
Entre as coisas que se fez nesse início de mandato, está o envio de ajuda para ajudar os Yanomami a expulsar dezenas de milhares de exploradores ilegais de ouro de suas terras.
Na última segunda-feira (5), durante a cerimônia de comemoração do dia do Meio Ambiente, Lula voltou a anunciar medidas de proteção aos indígenas, como a ampliação de meios navais que patrulham os rios da Amazônia, compra e modernização de equipamentos e aumento da presença do Exército nas fronteiras para tentar frear a disparada do narcotráfico entre os países da Amazônia Real. Lula também enfatizou a questão econômica, afirmando que, sim, a Amazônia pode ser preservada e, ao mesmo tempo, ter um papel na produtividade do país por meio de suas riquezas.
São boas notícias, mas Lula se encontra hoje com as mãos atadas para avançar com a legislação necessária para pôr em prática uma reforçada segurança para os povos indígenas. Seu enfraquecimento ante o Congresso ficou notória diante do voto conservador dos deputados com relação ao marco temporal _um retrocesso histórico que deixará várias tribos expostas aos avanços das máfias.
O projeto ainda será votado no Senado, onde infelizmente são poucas as chances de não-repetição do voto da Câmara.
Na cerimônia no Rio de Janeiro, o líder indígena Beto Marubo, amigo de Bruno, afirmou que, em sua terra, “absolutamente nada mudou”. E que já não estavam interessados nas boas intenções: “Queremos ver as coisas acontecerem”.
No emotivo encontro no posto 6 de Copacabana, onde Dom adorava praticar paddle surf, o ambiente nesta segunda era de tristeza e planos de luta, vêm aí um o livro que Dom deixou sem terminar, e que agora será completado por amigos, também um outro documentário, de produção estrangeira, além de mais atos para deixar a causa circulando e acesa.
Ainda que as esperanças sejam poucas de que se faça 100% de Justiça e de que a violência cesse na região, predomina entre ambientalistas e mesmo no discurso de Marina Silva, que resiste, ainda que enfraquecida, no governo, a ideia de seguir lutando.
Neste momento de alta visibilidade internacional da Amazônia, o governo brasileiro tem uma chance histórica para oferecer soluções a indígenas e ribeirinhos, para acabar com as lutas fratricidas, que se desmontem as máfias e que se deixe de desmatar a Amazônia.

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Por que a Venezuela é uma ditadura? https://canalmynews.com.br/coluna-da-sylvia/por-que-a-venezuela-e-uma-ditadura/ Wed, 31 May 2023 22:54:38 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=37919 Neste processo de acirramento da repressão, refugiados saíam do país caminhando, de ônibus ou voando, cada qual como podia.

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Às vésperas da eleição para a Assembleia Constituinte de 2017, época de muitos protestos nas ruas e repressão por parte do Estado, cheguei a Caracas para cobrir o evento e, logo ao sair do aeroporto, embarquei numa moto para chegar ao meu hotel. Era o único meio de transporte possível, pois as ruas na região leste da cidade, onde a oposição é mais forte, havia bloqueios armados pelos próprios moradores para enfrentar o avanço das diversas forças a favor do governo (a FAES, uma espécie de Bope, o Sebin, serviço de inteligência, e os colectivos, milícia civil chavista).

Já nas ruas dos bairros populares, castigadas pelos anos de crise, o transporte em duas rodas era o único meio para chegar a zonas mais humildes e completamente vigiadas pelos chamados “representantes do povo”. Além delas, havia apenas os caminhões que cobravam tarifas para levar dezenas de pessoas na caçamba de volta ao lar. O sistema de transporte coletivo, àquela altura, já estava quase colapsado.

Em tempos de ruas vigiadas, manifestações diárias, ataques de gás lacrimogêneo, ataques com pedras, as “guarimbas” (nome dado a esses bloqueios) eram o modo que parte da sociedade encontrava para dormir tranquilos, sem saques ou buscas específicas realizadas pelos serviços de inteligência. Colocando-se na primeira linha de enfrentamento com as forças oficiais, estava um grupo de jovens, de 14 a 20 anos, que integravam o La Resistencia. Eles avançavam com armas caseiras nos protestos, com coletes improvisados a partir de chapas de raio-x, não sem evitar mortos em suas filas e feridos que eram levados para ser tratados em casa, pois os hospitais os denunciavam às autoridades.

O ano de 2017 foi o de acirramento de um governo autoritário na Venezuela, e também quando muitos meios de comunicação, organismos de direitos humanos e parte da comunidade internacional passou a chamar a Venezuela de “ditadura”. As coisas já estavam feias desde antes, com perseguição a políticos, opositores e jornalistas. Em 2014, havia ocorrido outra onda de protestos furiosos, que levaram à prisão o líder Leopoldo López, hoje exilado nos EUA.

Neste processo de acirramento da repressão, refugiados saíam do país caminhando, de ônibus ou voando, cada qual como podia.

A Assembleia Constituinte acabou sendo eleita com fraude reconhecida internacionalmente. Na prática, substituiu a Assembleia Nacional eleita em 2015, esta sim considerada a última votação legítima da história recente da história da Venezuela.

Em 2018, Maduro afirma ter vencido eleições em que o comparecimento às urnas foi baixíssimo. A vitória não foi reconhecida pela comunidade internacional, e o líder da Assembleia de 2015, o então desconhecido Juan Guaidó, proclamou que havia um vazio de poder, e que, por conta disso, ele seria o próximo da linha de sucessão. O experimento fracassou. Hoje, Guaidó está ameaçado de morte e também está exilado nos EUA. Em entrevista concedida ao My News, afirmou que via “com muita preocupação a aproximação de governos da região” a Maduro.

Esse processo, que teve início com a virada da posição do governo da Colômbia, com a chegada ao poder do esquerdista Gustavo Petro, em agosto de 2022, teve mais um episódio ruidoso nesta semana, com a surpreendente recepção acalorada de Lula a Nicolás Maduro, no dia anterior da Cúpula dos Presidentes da América do Sul, em Brasília.

Se por um lado se pode entender a iniciativa de diálogo do governo brasileiro com relação à Venezuela, país com o qual o Brasil compartilha mais de 2 mil km de fronteira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece ter passado dos limites com a frase que dirigiu a Maduro diante de jornalistas em que o brasileiro afirmou que a crise da Venezuela era uma questão de narrativa.
E por que não é? É possível dar algumas evidências concretas.

Uma, o Sistema Judiciário da Venezuela, na última década, foi cooptado pelo chavismo. Ao longo dos últimos anos, foram levados a renunciar, presos ou pressionados a exilar-se quase todos os membros da Corte Suprema.

A segunda, o governo dinamitou possibilidades de um referendo revogatório, algo que consta entre as ferramentas constitucionais para remover um governo, caso, em plebiscito, a população rejeite a continuidade de um governo. O próprio Chávez passou por um, vencendo-o. Já Maduro usou o CNE (Conselho Nacional Eleitoral), para afirmar que o recolhimento de evidências realizado pela oposição era irregular, e cancelou a votação em suas vésperas. Hoje, já ninguém fala de usar esse recurso.

É fato que há eleições, mas a maioria delas fraudadas. Quando entrevistei o líder chavista Jorge Rodríguez, hoje líder da Assembleia Nacional, ele me disse que a Venezuela era campeã na realização de eleições entre as democracias da região. De fato, o calendário eleitoral é respeitado, apesar de alguns tropeços, e ainda há referendos e plebiscitos que ocorrem à parte, o difícil é crer nos resultados, porque as votações têm proibida a participação de observadores internacionais e o sistema que costumavam usar, o Smartmatic, admite que houve alterações nas eleições dos últimos anos. Além disso, era possível verificar apenas com a visita aos principais centros eleitorais da capital e outros centros urbanos que muito pouca gente tinha comparecido a votar, diferentemente do que dizia o regime.

Outra razão para dizer que a Venezuela é uma ditadura é que o poder Legislativo foi completamente dominado pelo chavismo. Depois da derrota do regime, em 2015, nunca mais a ditadura cometeu o mesmo “erro” de ter eleições realmente livres. Tanto que, depois da superposição do parlamento de maioria opositora por meio da Assembleia Nacional Constituinte, se realizaram eleições para um novo Congresso em que a oposição foi impedida de participar. Hoje, o parlamento unicameral é formado apenas por deputados governistas.

Ainda, há pelo menos 3 mil presos políticos, a maioria deles confinados, sem julgamento e sem acesso à luz do dia, em locais tenebrosos como La Tumba ou El Helicóide, construções mirabolantes adaptadas a partir do “boom” de obras dos anos de auge do petróleo para cárceres em que a tortura é algo comum. A ONG PROVEA documenta essas prisões de perto.

Desde o início do regime chavista, há, segundo as Nações Unidas, 7 milhões de venezuelanos fora do país. Isso representa 25% da população, o que torna mais fáceis as fraudes eleitorais, uma vez que os opositores ou descontentes no exterior perdem o direito de votar.

Como se não bastassem essas razões, ainda poderíamos elencar o aumento da fome, da pobreza e a degradação das condições de vida de grande parte da população.

Por fim, não há liberdade de imprensa, que foi sendo dinamitada ao longo dos últimos anos, tendo início com a desapropriação dos principais canais de TV privados e arrasado com a imprensa independente por meio de pressões financeiras, prisão e exílio de seus bravos protagonistas. Para a imprensa internacional, cada vez foi ficando mais difícil entrar no país, eram necessárias artimanhas e desvios para qualquer cobertura. Um colega meu, da imprensa espanhola, quase perdeu um olho numa surra aplicada pelas forças do regime enquanto tentava cobrir uma das transições legislativas do regime.

Quando saía de Caracas pelo aeroporto de Maiquetía, naquele ano de 2017, um garoto de 15 anos sentou-se ao meu lado. Tinha um olho roxo e levava apenas uma mochila. Na inocência rebelde que fica evidente em seu modo de falar, ele me contava que havia cedido ao ultimato de seu pai, residente nos Estados Unidos, de ir embora do país caso a Assembleia fosse eleita. Eu dizia a ele que era um privilegiado de poder sair quando as coisas estavam ficando mais feias. E ele me respondeu, “meu lugar é em Barquisimeto (uma das cidades mais populosas do país), defendendo a democracia no meu país”. O menino era um dos integrantes do La Resistencia e, ao ouvir sua história, uma senhora que viajava conosco desenhou um sinal da cruz em sua testa: “Meu filho, um dia isso tudo acaba e voltaremos”.

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