Arquivos Francisco Saboya - Canal MyNews – Jornalismo Independente https://canalmynews.com.br/tag/francisco-saboya/ Nosso papel como veículo de jornalismo é ampliar o debate, dar contexto e informação de qualidade para você tomar sempre a melhor decisão. MyNews, jornalismo independente. Tue, 23 Feb 2021 11:55:17 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.7.2 O Lugar do Lugar nos Negócios de Tecnologia https://canalmynews.com.br/francisco-saboya/o-lugar-do-lugar-nos-negocios-de-tecnologia/ Tue, 23 Feb 2021 11:55:17 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/o-lugar-do-lugar-nos-negocios-de-tecnologia/ O distanciamento forçado revelou novas possibilidades para o mundo dos negócios

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A locação de espaços corporativos não vive lá os seus melhores momentos, como se conclui da leitura de matéria recente do Estadão e outras fontes. Houve um aumento da vacância ao longo de 2020, e uma taxa de 13% que caminhava para 10% no começo do ano terminou em torno de 17% (SP) e 24% (RJ). Para imóveis na faixa A, chegou a 40%. Ocorre que não se trata de um fenômeno de mercado clássico, relacionado apenas à oferta e demanda por área e que varia conforme o ritmo de crescimento da economia. Parece ser algo mais estrutural, que, entre outros fatores, está de alguma forma associado a um modelo de real estate voltado para atração de startups, empreendimentos de tecnologia e outros serviços modernos e mais sofisticados – segmentos que sabidamente crescem a taxas muito maiores do que a média da economia. Tanto que elas continuam contratando no meio da crise e nem assim preenchem todas as vagas disponíveis.

A novidade aí é que a pandemia atravessou o samba, e aquela imagem idealizada de ambientes sofisticados em grandes lajes para algumas atividades, e alegres e coloridos, com jovens descolados jogando ping-pong, para outras, revelou-se inviável diante da crise. Os jovens empreendedores e trabalhadores criativos continuam descolados e adorando jogar ping-pong no meio do trabalho. O que não se sustenta mais é o mito desses ambientes como indispensáveis para a organização da produção na economia do conhecimento. Google, o modelo e farol desse tipo de arquitetura, está em home office. Twitter deixou a escolha para os funcionários.

Sobram vagas, faltam profissionais e mulheres: desigualdades no setor de tecnologia no Brasil
Apesar da oferta de vagas, setor de tecnologia vive dificuldade para preenchê-las.
(Foto: Annie Spratt/ Unsplash)

O distanciamento forçado revelou novas possibilidades para o mundo dos negócios. Vai dar trabalho para a justiça do trabalho dar conta dessa nova realidade, mas o fato é que a maioria das empresas do setor de tecnologia (nos EUA, 84%) tem revelado disposição de seguir com modelos híbridos de funcionamento e com relações de trabalho mais flexíveis. E mais: cerca de 60% dos empregados aprovaram essa forma de trabalho. Habilidades técnicas e um bom inglês ampliam o seu mercado em escala global, e mesmo aqueles que não falam outra língua aumentam as suas oportunidades no próprio país. Boas perspectivas para o trabalhador, sem dúvida. Porém ruins para as empresas menos estruturadas, pois terão mais dificuldade em reter seus talentos; péssimas para as cidades menos competitivas, que vêm com muito esforço estruturando polos de tecnologia e terão agora que assistir a uma segunda onda de fuga de cérebros (na primeira, o corpo ia junto); e desastrosas para quem vivia da locação de área para abrigar esses empreendimentos.

Em mais um movimento de desmaterialização da economia por meio do digital, nos mudamos pras nuvens. É lá o principal lugar de trabalho hoje em dia. Um processo que já vinha sendo habilitado por plataformas de trabalho remoto, mas adotado apenas esporadicamente, foi acelerado neste ano que passou e agora virou regra. Mas essa conexão com o cyberespaço não prescinde de um local físico, onde deve ser instalada a estrutura mínima de trabalho para atuar nas nuvens. Essa base física agora está distribuída entre espaços empresariais mais enxutos e as casas dos trabalhadores convertidas em escritórios improvisados. Essa triangulação nuvem-escritório-casa é a expressão concreta do hibridismo de que tanto se fala. A experiência do trabalho remoto reinseriu as casas nas engrenagens do sistema produtivo, como nas velhas artesanias pré-industriais. Casas agora são parte de um novo modelo de organização do trabalho. E se esse arranjo viabilizar novas oportunidades para o mundo dos negócios, o que é tendência vira norma.

Diante disso, para quem estruturou seus negócios no modelo tradicional de locação de área para as atividades da economia digital, é hora de dar um cavalo de pau. Focar no essencial. Uma sugestão é repensar os espaços como ambientes de formulação presencial, experimentação e aprimoramento de novas estratégias e modelos de negócios. Os novos escritórios devem capturar aquela fração do trabalho criativo que não sobrevive à distância, na abstração das nuvens. A troca de ideias, o desenho de projetos estratégicos, as fricções criativas, a validação do novo, o olho-no-olho que gera cumplicidades, a simples presença do outro que humaniza, a conversa à toa. Essa é uma proposta de valor superior. Se insistirem em prover aquilo que os aplicativos de cloud meeting já fazem, a chance de dar errado é gigantesca.

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Transformação digital não é digitalização https://canalmynews.com.br/francisco-saboya/transformacao-digital-nao-e-digitalizacao/ Tue, 29 Dec 2020 12:47:36 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/transformacao-digital-nao-e-digitalizacao/ O despertar para a transformação digital nem sempre vem acompanhado da devida compreensão do fenômeno

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As medidas restritivas de isolamento social para enfrentamento da Covid-19 ajudaram a disseminar o conceito de “transformação digital”, trazendo um sentido de urgência para certas mudanças de estratégia que corporações, pequenos negócios ou governos já deviam estar fazendo há muito tempo. Nada de novo. O potencial das tecnologias digitais para alavancar novos ou antigos negócios é reconhecido há décadas. O problema é o ritmo de adoção, que sempre andou a passos de tartaruga por aqui. A pandemia parece ter despertado o tecido produtivo brasileiro para a economia digital.

Não necessariamente com esse nome, “transformações digitais” (no plural) vêm ocorrendo pelo menos desde os anos 80, motivadas por fatores como a consolidação da microcomputação e consequente ampliação da base de usuários digitais, e a introdução da internet comercial com banda larga nos anos 90-00’s. O que se viu a partir daí foi a articulação exponencial de redes de computadores (incluindo smartphones), de pessoas e, mais recentemente, de objetos.

Dados passaram a ser gerados e consumidos em volume e intensidade inimagináveis e por quantidades cada vez maiores de agentes digitais, oportunizando, por meio de sofisticados complexos de tecnologias e algoritmos, a exploração econômica inteligente de toda uma riqueza antes perdida em bancos de dados de transações em formato digital.

Potencial das tecnologias digitais para alavancar novos ou antigos negócios é reconhecido há décadas
Potencial das tecnologias digitais para alavancar novos ou antigos negócios é reconhecido há décadas.
(Foto: Pixabay)

O valor dos dados na nova economia foi particularmente evidenciado a partir da imagem criada pela revista inglesa The Economist, em 2017, segundo a qual “dados são o novo petróleo”. É uma boa metáfora para caracterizar os dois estágios de um mundo em transição: o tradicional-analógico e o moderno-digital.

Se os dados são isso mesmo, então as empresas têm dois desafios pela frente: correr atrás deles e desenhar novas estratégias orientadas por eles, em especial aquelas voltadas para conhecimento, conquista e retenção de clientes. Tirar proveito de dados em contextos de inovação e incerteza em relação ao futuro, estruturar negócios diferenciados em redes e plataformas digitais e desenhar novos modelos de negócios voltados para a geração crescente de valor para o cliente em mercados abertos e hipercompetitivos são o core da Transformação Digital. É conveniente lembrar que, como apontam os especialistas em mercados digitais, não se compra mais um cliente com propaganda; conquista-se com experiências de relacionamento mobilizadoras e com propostas de valor efetivas e continuamente calibradas pelas suas necessidades.

Retomando o raciocínio do primeiro parágrafo, a questão é que o despertar para a transformação digital nem sempre vem acompanhado da devida compreensão do fenômeno. A transformação digital não é um produto de prateleira; é um processo complexo que envolve, além das tecnologias digitais em si, a capacitação de pessoas em novos repertórios habilitadores de novas práticas e a mudança da cultura organizacional. Mas isso dá um trabalho imenso e é mais fácil criar atalhos. Um deles é reduzir a Transformação Digital à Digitalização de Processos. Não que seja fácil digitalizar um negócio. Também toma tempo, custa caro e quase sempre dá errado.

O que se coloca é a necessidade de se diferenciarem as coisas para avançar na implementação eficaz de uma e outra. O foco da digitalização é obter a máxima eficiência operacional por meio da utilização de sistemas e tecnologias de informação para automação de tarefas operacionais e administrativas e para suporte à condução dos negócios, especialmente quanto ao processo de tomada de decisão. Isso é desejável em qualquer contexto. O alerta aqui é que, em tempos de mudança acelerada na dinâmica dos negócios, esse esforço tende a malograr por uma razão muito simples: o dinheiro vai pro lugar errado, vai pro passado, ao encontro de estratégias empresariais vencidas no tempo.

Na economia digital, digitalização não é estratégia. Transformação Digital sim. E provavelmente será A estratégia pelos próximos 5 anos. Quem não a fizer nesse tempo, corre o risco de não ter mais o que fazer em tempo algum.

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De apagão em apagão, o Brasil desce ribanceira abaixo https://canalmynews.com.br/francisco-saboya/de-apagao-em-apagao-o-brasil-desce-ribanceira-abaixo/ Tue, 15 Dec 2020 14:03:59 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/de-apagao-em-apagao-o-brasil-desce-ribanceira-abaixo/ O atraso do Brasil é um projeto. Só assim podemos explicar o que somos diante do que poderíamos ter sido

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Há quase 20 anos o Brasil apagou, faltou luz. Literalmente.  Faltou energia para casas, fábricas, para o comércio. O PIB cresceu apenas 1,5% em 2001, contra 4,3% no ano anterior. A imprensa se referia a esse episódio como apagão. Palavra fácil, que comunicava com clareza o drama nacional. Meses seguidos de racionamento de consumo geraram intimidade com o tema e fizeram o país adotar essa palavra quase como autojustificativa para as coisas que não dão certo. Falhou? É culpa do apagão. Como aquele 7 x1 que tomamos da Alemanha em casa, com tudo iluminado para o mundo apreciar melhor nossa tristeza. Locutores atordoados tentavam justificar o fracasso e, pimba!, foi o apagão. Para comentaristas mais sensíveis, foi um bloqueio psicológico diante da pressão extrema de se ter que ganhar em casa; para a geral, foi falta de vergonha mesmo. Mas esse tipo de apagão a gente tira de letra.

Difícil mesmo é conviver com o apagão da ciência, tecnologia e inovação. Porque este, quando combinado com outro apagão, o da educação, resulta no estreitamento das possibilidades do desenvolvimento nacional, na perpetuação das diferenças sociais e na implosão do futuro das novas gerações. Darcy Ribeiro se dedicou a entender as raízes da desigualdade e a crise da educação. Conclusão: o atraso do Brasil é um projeto. Só assim podemos explicar o que somos diante do que poderíamos ter sido e entender o paradoxo da pobreza de quase todos em meio à abundância de quase tudo.

Congresso Nacional, em Brasília, durante apagão que afetou a Esplanada dos Ministérios em junho de 2016
Congresso Nacional, em Brasília, durante apagão que afetou a Esplanada dos Ministérios em junho de 2016.
(Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)

Existem certas situações que somente se explicam por escolhas deliberadas. Por exemplo: o Brasil é, ainda, a 10ª economia do mundo e o 15º produtor mundial de conhecimento em publicações acadêmicas. Mas é apenas o 54º produtor de patentes internacionais, o 62º em inovação (caiu 20 posições nos últimos 10 anos, ficando atrás inclusive de 5 outros países latino-americanos), e o 80º em competitividade. Daí vêm duas lições. A primeira é que não conseguimos converter conhecimento em tecnologia produtiva e fonte de geração de riqueza e emprego. A segunda é que, apesar de tudo, o país segue vivo, esbanjando resiliência. Mas basta olhar o movimento de países como Coreia do Sul , Índia e outros para ver que essa nossa condição tem dias contados. E em breve seremos a 12ª, 15ª ….

Esse tipo de apagão faz com que o déficit da balança comercial de produtos de elevada intensidade tecnológica e mais alto valor agregado venha crescendo sistematicamente. Voltamos a ser um país preponderantemente exportador de commodities. Há quem veja ganhos nisso, mas é bom lembrar que a soma das exportações de soja, minérios e petróleo – nossas principais estrelas – não paga o que importamos de computadores, produtos eletrônicos, óticos e outros da pauta relevante das economias modernas. 

Como chegamos até aí? É que o projeto a que se referia Darcy Ribeiro continua de pé e hegemônico. Um dos seus pilares é o baixo volume de investimentos em C,T&I como proporção do PIB. Andamos na casa do 1%, muito baixo se comparado com a media de 2% da OCDE e baixíssimo em relação a países como Coreia e Israel, que investem por volta de 4%. O orçamento federal destinado ao MCTI [Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação] para 2021 é de cerca de R$ 5,3 bilhões, dos quais perto de 90% estão contingenciados, restando míseros R$ 500 milhões (contra R$ 3,7 bilhões de sete anos atrás) para equipar laboratórios, formar pesquisadores, apoiar parques tecnológicos, subvencionar inovação nas empresas etc. O principal instrumento de fomento, o FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) está igualmente contingenciado, com mais de R$ 25 bilhões retidos no Tesouro Nacional para formação de superávit, num caso escandaloso de desvio de finalidade.

Sem recursos não se perenizam ações de longo prazo. Ciência não combina com imediatismo. Inovação não combina com incerteza política. Desenvolvimento tecnológico rima, mas não combina com terraplanismo ideológico. Se quiser sair do nó em que se meteu, o Brasil vai ter que se livrar antes das mentes apagadas que nos governam desde Brasília, desde sempre. (ET: se o Congresso Nacional quiser dar uma chance ao país, aprova o PL 135/2020, que tramita em regime de urgência e que descontingencia o FNDCT). 

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