Eleitores da Missão viram alvo de disputa entre lulistas e bolsonaristas no 2º turno Militância de Renan Santos vira alvo de disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro no 2º turno (Foto: Unsplash / Kaue Martins Bergamasco) 2.6 milhões

Eleitores da Missão viram alvo de disputa entre lulistas e bolsonaristas no 2º turno

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Após candidato da Missão descartar apoio aos dois presidenciáveis, eleitores de esquerda e direita bolsonarista tentam atrair nas redes sociais os 2,67 milhões de votos conquistados pelo partido no primeiro turno

A militância ligada a Renan Santos (Missão) pode ter entrado na disputa política do segundo turno presidencial após o candidato terminar a primeira etapa da eleição com 2,67 milhões de votos, equivalentes a 2,24% dos válidos. Enquanto Renan rejeita apoiar tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro (PL), internautas dos dois campos passaram a disputar publicamente os eleitores que optaram pela candidatura da Missão.

Memes, publicações e comentários direcionados ao eleitorado do Movimento Brasil Livre (MBL) ganharam espaço nas redes sociais um dia depois da apuração. Em uma das postagens, um internauta ironizou a aproximação com eleitores da legenda: “Eu pedindo desculpas após zoar o meu amigo que votou 14”.

Um apoiador de Flávio Bolsonaro afirmou que os eleitores do grupo teriam o “dever moral” de apoiar o candidato do PL, a fim de “extirpar o PT do poder”. Em sentido oposto, outro perfil sustentou que, por uma questão de sobrevivência política da Missão, Renan deveria se aproximar de Lula.

Procurada pela coluna, a campanha de Renan Santos descartou qualquer possibilidade de adesão ao petista. Um integrante da equipe afirmou que a chance de apoio a Lula é “zero” e associou a decisão ao histórico de embates entre o grupo e setores da esquerda.

“Essa gente passou os últimos quatro anos nos acusando de sermos nazistas e fascistas”, afirmou.

O próprio Renan já havia antecipado, na semana passada, que não declararia apoio a nenhum dos candidatos classificados para o segundo turno. Após o encerramento da apuração, voltou a rejeitar os dois nomes.

“O Flávio Bolsonaro já ganhou. E antes de alguém perguntar em quem eu vou apoiar no segundo turno. Faz diferença? Façam o que quiserem. Eu já avisei que eu não voto em bandido. Não recomendo a ninguém que vote em bandido. Flávio é bandido. Lula é bandido. Mas não faz diferença alguma, façam o que vocês quiserem aí”, declarou. 

O desempenho de Renan ficou abaixo das projeções apontadas pelas pesquisas eleitorais divulgadas antes da votação. Ainda assim, os 2,67 milhões de votos colocaram sua base eleitoral no centro de uma disputa paralela entre apoiadores dos dois presidenciáveis. A diferença de votos entre Lula e Flávio foi a menor da história entre candidatos no 1º turno. Em número de votos, a diferença foi de cerca de 2,2 milhões de votos.

Apesar das supostas tentativas dos internautas prospectarem o capital eleitoral de Renan, especialistas e analistas políticos avaliam que os apoios de Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), além da conquista dos votos de abstenção, podem favorecer Flávio Bolsonaro na disputa, sobretudo pela possibilidade de transferência de parte dos votos desses candidatos e de ampliação de sua base eleitoral, sem depender necessariamente do eleitorado da Missão.

Críticas ao bolsonarismo estão no plano da Missão

A resistência a uma aproximação com Flávio Bolsonaro também encontra respaldo no discurso político construído pela Missão contra o bolsonarismo. No plano de governo apresentado durante a campanha, Renan fez críticas diretas ao movimento liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e à passagem dele pelo Palácio do Planalto.

No documento, o candidato descreve o bolsonarismo como um agrupamento formado por “pilantras e iludidos” e sustenta que suas lideranças permaneceram “abaixo da mediocridade”. Também acusa Jair Bolsonaro de ter traído a direita ao contribuir para o enfraquecimento da Lava Jato, ampliar o espaço político do Centrão e desperdiçar a mobilização que havia se formado nos anos anteriores à sua eleição.

“A liderança do próprio Jair Bolsonaro, por exemplo, foi um episódio lamentável na história deste país”, registra o plano.

No lançamento de sua candidatura, ele também rejeitou definir o movimento apenas pela oposição ao PT.

“Nós não somos como outros ratos que se vestem de verde e amarelo, se apropriando dos símbolos nacionais só para dizerem: ‘veja só, eu sou o oposto do Lula’. Quando você se define pelo seu inimigo, você nunca o supera”, afirmou.

Do apoio em 2018 ao rompimento

A relação entre o MBL e o bolsonarismo atravessou diferentes fases desde a eleição de 2018. Naquele ano, o movimento apoiou Jair Bolsonaro no segundo turno contra Fernando Haddad (PT), embora não integrasse formalmente a estrutura política bolsonarista.

O período também coincidiu com a ascensão eleitoral de nomes ligados ao MBL, impulsionados pelo ambiente político e digital que levou Bolsonaro, então filiado ao PSL, à Presidência. A convergência, contudo, começou a apresentar fissuras ainda durante aquele processo eleitoral.

Um dos episódios ocorreu após ataques de apoiadores de Bolsonaro à jornalista Rachel Sheherazade. Fernando Holiday, então vereador de São Paulo pelo DEM e até então integrante da coordenação nacional do MBL, criticou publicamente a ofensiva contra a apresentadora. A troca de acusações entre integrantes do movimento e bolsonaristas se intensificou posteriormente.

Holiday deixou o MBL e, mais tarde, aproximou-se de Lucas Pavanato, também egresso do movimento e eleito deputado federal por São Paulo nas eleições de 2026.

“Derrete MBL” e o desgaste nas redes

Outro momento de ruptura ocorreu em 2020, quando a expressão “derrete MBL” ganhou projeção nas redes sociais em meio a uma investigação apresentada pelo Ministério Público de São Paulo. 

Renan Santos figurava entre os acusados de tráfico de influência e lavagem de dinheiro em uma denúncia relacionada a empresas associadas a integrantes do movimento. Em 2022, a 1ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens de São Paulo rejeitou a acusação por considerar que faltavam clareza e nexo causal suficientes para sustentar as imputações envolvendo supostos desvios superiores a R$ 400 milhões.

A repercussão do caso, entretanto, produziu efeitos políticos antes da decisão judicial. Integrantes do movimento registraram perda de seguidores nas redes sociais e redução de audiência no YouTube durante o período, em meio ao aprofundamento do entrevero com o campo bolsonarista. Desde então, o “núcleo duro” do movimento descarta qualquer possibilidade de apoio à direita bolsonarista.