Menos Marçal, mais Rogério Marinho Foto: Poder 360 DEBATE BAND

Menos Marçal, mais Rogério Marinho

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No debate da Band, Flávio Bolsonaro acertou quando falou de juros e errou quando quis lacrar. Lula se perdeu nas provocações. E a pergunta que nenhum dos dois respondeu é com que dinheiro

Kátia Abreu foi à reunião da cúpula do PT recentemente e saiu de lá com o bordão da campanha. Menos Janja, mais Alckmin. A plateia aplaudiu porque entendeu o recado. Menos palco, menos lacração, mais voto e repertório. Do outro lado, a receita é diferente, mas com a mesma lógica. Ela circula em conversas com gente do mercado financeiro, empresários e economistas. Menos Marçal, mais Marinho.

Para esse público, Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, é o nome mais preparado para cuidar da economia. Relatou a reforma trabalhista, foi peça central da reforma da Previdência, fala em orçamento realista e redução da dívida. Líder da oposição no Senado, conhece o Congresso por dentro e sabe contar votos, o que vale ouro para quem vai precisar aprovar ajuste fiscal. Pode-se discordar dele, mas Marinho fala a língua dos números e trabalha com fatos. Marçal é o oposto. Não tem compromisso com a verdade, não entende de economia e fala para a bolha. Neste momento, tenta ocupar espaço na campanha de Flávio para voltar aos palcos. Sua presença faz mais bem a Marçal do que a Flávio, e a conta pode sair cara para o candidato.

O debate de ontem na Band mostrou que Flávio ainda não decidiu qual dos dois quer ouvir.

Ele começou bem. Falou de juros com propriedade, endereçou o problema e lembrou um fato que os números confirmam. A simples perspectiva de sua vitória tem feito as taxas recuarem. Era o Flávio de gravata, o candidato que quer ser levado a sério.

Durou pouco. A partir do segundo bloco, entrou em cena outro personagem. Vieram as interrupções, o mediador obrigado a intervir, o tom de deboche, o desrespeito ao presidente da República. Saiu o candidato, entrou o influenciador. Flávio encarnou Pablo Marçal.

É um erro de cálculo. O eleitor que decide esta eleição, definida no primeiro turno por menos de dois pontos, não é o militante que compartilha corte no grupo de WhatsApp. É o conservador que não gosta do PT, que votaria sem culpa num governo de direita responsável, mas que torce o nariz para a encenação, para a mentira dita com convicção, para quem confunde debate presidencial com live de coach.

Esse eleitor já disse não a esse modelo. Em 2024, em São Paulo, Marçal tinha engajamento, barulho e milhões de visualizações. Não foi ao segundo turno. A rede social entrega curtida, mas não entrega voto na proporção que promete. Cada vez que Flávio imita Marçal, lembra a esse eleitor exatamente aquilo que o faz hesitar.

Lula, por sua vez, perdeu-se. Caiu nas provocações, gastou tempo rebatendo ataques e deixou passar a chance de acenar para o futuro com mais embasamento. Faltou dizer o que vem num quarto mandato, além de defender o que já foi feito. A própria cúpula do PT vinha cobrando isso, menos legado e mais proposta.

Há uma explicação para o tropeço. Lula se formou em outro tipo de debate. Enfrentou Serra, enfrentou o próprio Alckmin, hoje seu vice. Eram adversários duros, mas com estofo, repertório e regras de convivência. Lula não foi criado no mundo da lacração de internet e não está preparado para ele.

E chegamos ao ponto que nenhum dos dois enfrentou. Seja quem for o vencedor no domingo, o Brasil entra em 2027 com um desafio fiscal enorme. Não dá para prometer transformar o SUS num Einstein sem dizer de onde sai o dinheiro. Não dá para acenar com benefícios, isenções e programas novos, de um lado e de outro, como se o orçamento fosse elástico.

Com que dinheiro? Essa é a pergunta.

É o desequilíbrio das contas públicas que mantém os juros brasileiros entre os mais altos do mundo. É ele que afasta o investimento do setor produtivo, que sufoca a indústria, que destrói postos de trabalho. É ele que pesa no bolso de quem financia o carro, parcela a geladeira ou tenta abrir um pequeno negócio. Sem enfrentar essa conta, qualquer promessa é lacração.

A campanha tem uma semana. Kátia Abreu deu a receita para um lado. Ela serve para os dois. O eleitor quer gente sensata, com respostas. Menos redes, menos Marçal, mais Marinho.