Senador Flávio Bolsonaro. Foto: Bloomerang News
CONTAS PÚBLICAS
Relatório da CGU obtido com exclusividade pelo MyNews mostra empresas beneficiadas pelo programa recebendo emendas Pix para shows, com prestação de contas tardia, incompleta e, em um caso, um rastro de dinheiro que some
A cinco dias do segundo turno, o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) anunciou na terça-feira (20/10) que vai retomar o Perse, o Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos, caso seja eleito. O anúncio veio pouco antes de um encontro com cantores e empresários da música sertaneja, diretamente beneficiados pela isenção. Criado no governo de Jair Bolsonaro para socorrer o setor durante a pandemia, o programa zerava IRPJ, CSLL e PIS/Cofins das empresas habilitadas e, segundo estimativa da Receita Federal, custou R$ 50 bilhões aos cofres públicos entre 2021 e 2025. Por que uma das políticas setoriais mais caras e criticadas dos últimos anos voltaria ao centro da campanha? A resposta pode estar num relatório da Controladoria-Geral da União obtido com exclusividade pelo MyNews.
O documento, entregue ao Supremo Tribunal Federal em setembro por determinação do ministro Flávio Dino na ADPF 854, auditou R$ 3,5 milhões em emendas Pix destinadas a festas e shows em cinco locais, os municípios de Formosa (GO), Presidente Juscelino (MG), Ribeirópolis (SE) e São Joaquim (SC) e o governo do Tocantins. E encontrou empresas do Perse na ponta do dinheiro. No Tocantins, quatro beneficiárias do programa receberam R$ 1,4 milhão para os shows do aniversário do estado. Em Ribeirópolis, todas as cinco bandas do Forró dos Sonhos, que custou R$ 821 mil, eram do Perse. As mesmas empresas que deixavam de pagar imposto federal eram contratadas com dinheiro de emenda parlamentar.
A prestação de contas, quando existiu, chegou tarde e pela metade. Em Ribeirópolis, os documentos dos gastos de 2023 só entraram no sistema federal em fevereiro de 2026, incompletos, e os planos de trabalho foram cadastrados depois da festa, com vigência até 2028. No Tocantins, faltavam notas fiscais e extratos, e o dinheiro foi transferido da conta exclusiva da emenda para outra conta antes dos pagamentos, contrariando norma do TCU. Em São Joaquim, a emenda registrada para o Natal de 2024 já tinha sido gasta em 2022 com pintura de faixas de pedestre, e a CGU ainda apontou sobrepreço de 9% na amostra analisada. Em nenhum dos cinco casos o cidadão conseguia ligar, pelos canais públicos, a emenda recebida ao gasto e ao evento realizado.
O caso mais grave é o de Formosa. A prefeitura repassou R$ 325 mil a uma associação, única concorrente do pregão, para organizar uma corrida de Fórmula 200. O processo de pagamento trazia contas bancárias divergentes e uma chave Pix com o CNPJ de outra empresa. A associação nunca prestou contas de quem contratou e pagou depois, e a CGU admite que não consegue sequer dizer se empresas do Perse estavam entre os destinatários finais do dinheiro.
A CGU ressalva que os eventos auditados foram realizados e que a condição de beneficiária do Perse, por si só, não esteve associada a descumprimento dos contratos. O setor de eventos contesta os números do governo e cita estudo da consultoria Tendências que estimou o custo do programa em no máximo R$ 6,5 bilhões em 2023. Este é apenas o primeiro de dois relatórios.
Tesouraço para o povo, Perse para a vitrine
1. O relatório da CGU mostra empresas beneficiadas pelo Perse recebendo dinheiro de emendas Pix para shows, com prestação de contas incompleta e, em um caso, sem como saber quem ficou com o dinheiro no fim. Se eleito, que regras de transparência e controle o novo Perse teria para impedir que a mesma empresa deixe de pagar imposto e ainda seja contratada com emenda parlamentar?
2. O Perse custou cerca de R$ 50 bilhões segundo a Receita, e o senhor promete ao mesmo tempo um ajuste de R$ 250 bilhões nas contas públicas. De onde sairia o dinheiro para bancar a volta do programa, e haveria teto de custo e limite de porte das empresas beneficiadas?
São perguntas que Flávio precisa responder antes de domingo. Para uma empresa de shows, o Perse significa lucro maior, porque o cachê pago com dinheiro público entra no caixa sem IRPJ, CSLL ou PIS/Cofins. Mas há um efeito menos visível. Quando a receita não gera imposto, ela também deixa de passar pelo crivo mais atento do Fisco, e foi justamente isso que o Ministério da Fazenda apontou em 2024, ao citar indícios de lavagem de dinheiro e superfaturamento no programa. Somado ao que a CGU encontrou nas emendas Pix, com prestação de contas tardia, contas trocadas e fornecedores que ninguém consegue identificar, o resultado é um dinheiro que sai do Orçamento sem rastro claro e chega a empresas que não pagam imposto sobre ele. Antes de prometer a volta do Perse, o candidato deveria explicar como pretende fechar essa porta.
O mercado já fez sua aposta. No dia seguinte ao primeiro turno, o Ibovespa subiu 7,7% e bateu recorde histórico, num movimento lido por analistas como um benefício da dúvida à equipe de Flávio. O candidato acena com um “tesouraço” de R$ 250 bilhões e promete pôr ordem nas contas públicas, mas a volta do Perse vai na direção contrária. Quem precifica sua vitória como a de alguém que cuidará melhor do dinheiro público merece saber como essa promessa cabe no ajuste. Afinal, apesar das críticas ao governo Lula, foi a gestão de Fernando Haddad na Fazenda que perseguiu a meta fiscal e, para isso, desmontou justamente o Perse.
A auditoria completa abrange 22 eventos em 21 municípios, e o resultado final deve chegar ao STF até 30 de dezembro. O MyNews procurou a campanha de Flávio Bolsonaro e aguarda resposta.
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