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PADROEIRA DO BRASIL
Brenda Maribel Carranza Davila examina a origem da padroeira do Brasil, as disputas morais e a pluralidade que marca a devoção no país
Brenda Maribel Carranza Davila, cientista social e professora de Antropologia da Religião na UNICAMP, analisou o impacto histórico, político e cultural de Nossa Senhora Aparecida, cuja imagem tornou-se um pilar da religiosidade popular, traçando um panorama sobre o uso pragmático dos símbolos religiosos na política e a importância do senso crítico na vivência da fé.
Segundo a especialista, a aparição da imagem preta de Nossa Senhora Aparecida vincula-se de forma direta e profunda à população negra e trabalhadora do Brasil. A antropóloga compara a devoção brasileira a outras advocações marianas na América Latina, como Nossa Senhora de Guadalupe no México, Luján na Argentina, Coromoto na Venezuela e a Virgem do Cobre em Cuba. Nesse sentido, cada aparição reflete os traços sociais do seu próprio território.
Além disso, para Davila, a figura da padroeira transborda os limites dogmáticos da Igreja. Durante sua coroação em 1904 e na Segunda República em 1930, houve forte resistência de setores positivistas e maçônicos. Contudo, a consolidação do Estado laico no Brasil garantiu o pluralismo religioso. Consequentemente, essa laicidade permitiu a convivência pacífica com as religiões de matriz africana e acompanhou o crescimento evangélico.
Apesar das tensões históricas, para a especialista, a consolidação do Estado laico no Brasil garantiu o pluralismo religioso. Essa laicidade permitiu a coexistência pacífica da devoção católica com religiões de matriz africana — que cultuavam Iemanjá sob a imagem de Nossa Senhora das Candeias — e acompanhou o crescimento do segmento evangélico ao longo do último século.
Ao abordar o cenário político recente, Brenda analisa o resgate de notícias falsas sobre um projeto de lei de 2007. A proposta tentava alterar o título da padroeira. Entretanto, a tentativa de criar a narrativa de um ataque à santa teve impacto limitado.
De acordo com a especialista, o eleitorado atual está imerso em dois projetos de sociedade muito claros. De um lado, o projeto progressista foca em direitos sociais e de identidade. Por outro lado, o projeto conservador apoia-se em valores tradicionais e no medo de pautas morais. Assim, a defesa da família tradicional demonstra hoje maior força eleitoral do que a ameaça ao símbolo religioso.
Sobre a recorrência do uso de pautas morais em campanhas eleitorais, ela destaca que tal prática foi historicamente associada à direita, como na Marcha da Família promovida pela Tradição, Família e Propriedade (TFP). No entanto, para Davila, a grande novidade para o pleito de 2026 é o uso inédito da imagem de Nossa Senhora Aparecida pelo espectro da esquerda, que passou a acionar a padroeira para alertar sobre supostas ameaças da extrema direita à democracia e à nação.
A especialista contesta expressamente a visão de que católicos e evangélicos atuem na política como blocos homogêneos e antagônicos. Para ela, as verdadeiras divisões ocorrem internamente entre os grupos progressistas, unidos em torno de vertentes como a Teologia da Libertação e a defesa dos direitos sociais, e os grupos conservadores, alinhados na preservação de pautas morais e valores tradicionais.
“Em cenários de forte polarização, o pragmatismo eleitoral frequentemente supera as convicções íntimas dos candidatos. Diante das fake news e do marketing político, cabe ao fiel exercitar o senso crítico e a reflexão para proteger a sua própria fé”, afirma Brenda.
Além disso, a especialista enfatiza a existência de uma tríade complexa entre política partidária, fé pessoal e pragmatismo eleitoral. Citando exemplos que vão da candidatura de Jair Bolsonaro em 2018 às visitas de lideranças como Lula e Geraldo Alckmin ao Santuário Nacional, a antropóloga aponta que o pragmatismo em contextos de alta polarização frequentemente se sobrepõe às convicções pessoais.
Na visão transmitida pela especialista à reportagem, a dimensão arquitetônica do Santuário Nacional de Aparecida — um dos maiores da América Latina, com capacidade para abrigar até 70.000 pessoas — sintetiza o próprio espírito da religiosidade brasileira. O projeto de arte sacra idealizado pelo artista Cláudio Pastro integra a história do país, seus biomas e recursos naturais à estrutura da basílica.
Para a especialista, elementos específicos da arquitetura revelam essa complexidade, a começar pelos mosaicos e inscrições com Ave Marias que revestem o espaço sagrado, passando pelo Painel dos Mártires da América Latina, elemento diretamente ligado às reflexões da Teologia da Libertação, até chegar à sala de ex-votos, espaço subterrâneo onde a religiosidade popular se manifesta livremente através de pedidos e agradecimentos em cera.
“O catolicismo é inerentemente plural, não existindo um modelo ‘quimicamente puro’. O Santuário de Aparecida se consolida como o maior símbolo dessa diversidade, onde todas as expressões de fé e da história popular brasileira se encontram”, conclui.