Agência Brasil
Medicina
O país consolida a existência de “duas medicinas”. Uma é de elite, cara e bem formada. A outra é de massa, com baixa qualificação, que atenderá a população mais vulnerável
A recomendação é direta: o governo não pode esperar mais. O ex-ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta emite um alerta urgente aos atuais ministros da Educação e da Saúde. A reprovação de 107 faculdades no Enamed exige ação imediata. Por isso, ele propõe a criação de uma comissão de alto nível, de preferência suprapartidária. O objetivo é dar um “freio de arrumação” na abertura desenfreada de cursos. Além disso, Mandetta sugere um plano de Estado com rígidos padrões de qualidade. Isso incluiria uma certificação externa, como no modelo europeu. Lá, somente escolas certificadas liberam o médico para atuar. Sem essas medidas, o caos na formação se tornará irreversível, diz Mandetta.
Em suma, os números atuais revelam um desequilíbrio perigoso. Pois, a expansão foi “absurdamente acelerada”. O país saltou de 140 para quase 500 cursos de medicina. Desta forma, o Brasil forma 50.000 médicos por ano, mas oferece apenas 20.000 vagas de residência. Assim, o sistema despeja anualmente 30.000 profissionais sem especialização no mercado. Endividados, muitos caem na “uberização” da medicina. Eles trabalham como PJ, sem direitos ou supervisão, em prefeituras que pagam o menor preço. Consequentemente, esse cenário ameaça também a economia e a previdência. Erros médicos geram invalidez precoce e sobrecarregam o INSS, além de aumentarem drasticamente os custos do SUS para reparar sequelas evitáveis.
Essa falta de preparo técnico já custa vidas. Mandetta cita erros grosseiros para ilustrar a tragédia. Em Bauru, por exemplo, uma médica do SAMU decretou o óbito de uma paciente viva. Ela foi embora, mas outro médico encontrou a vítima respirando quarenta minutos depois. Outro caso fatal ocorreu em Manaus. Uma médica prescreveu uma dose letal de adrenalina a uma criança. A técnica de enfermagem alertou sobre o erro na dose e na via. Contudo, a doutora manteve a ordem. Resultado: a criança, que entrou brincando no hospital, morreu. Tais episódios provam o risco real da atuação sem a devida supervisão.
Além da imperícia, a ética profissional também desmorona. O lucro das empresas intermediadoras atropela a segurança do paciente. O ex-ministro recorda, inclusive, o caso de um médico que assassinou dois colegas esta semana por disputa de contratos. Ademais, a baliza técnica desapareceu durante a pandemia. Médicos receitaram nebulização de cloroquina e tratamentos sem base científica. Enquanto isso, o Conselho Federal de Medicina (CFM) se omitiu. Segundo Mandetta, o órgão se politizou. Em vez de defender a sociedade, o Conselho abdicou da ciência e validou a má prática.
Por fim, o país consolida a existência de “duas medicinas”. Uma é de elite, cara e bem formada. A outra é de massa, com baixa qualificação, que atenderá a população nas emergências. Mandetta define esse quadro como um “coquetel muito explosivo”. Jovens recém-formados, sem residência e com dívidas altas, assumem plantões complexos para pagar as contas. Dessa forma, eles aprendem na base do erro e acerto. O resultado será uma explosão de processos judiciais e danos irreparáveis. Portanto, o governo precisa intervir agora, antes que esse sistema colapse de vez a sociedade brasileira.