Mensalidades de luxo para uma formação reprovada na medicina Foto: Elpidio Junior Enamed

Mensalidades de luxo para uma formação reprovada na medicina

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Famílias pagam fortunas por diplomas em instituições que funcionam como negócios rentáveis mas falham em garantir a proficiência básica exigida para a profissão

O recente resultado do ENamed comprovou uma tragédia educacional: as faculdades de medicina estão entregando em muitos casos profissionais de qualidade duvidosa. Espantosamente, o exame reprovou 107 faculdades, totalizando cerca de 33% das instituições avaliadas, quase todas privadas. Embora associações tenham tentado ocultar esses dados na justiça, o MEC expôs a ferida. Agora, a sociedade enxerga um mercado bilionário que opera sem rigor ou critérios de proficiência.

Além disso, esse desastre possui padrinhos poderosos. Política e lucro caminham de mãos dadas na expansão descontrolada do setor. Atualmente, abrir um curso de medicina rende lucros comparáveis aos de igrejas e casas de apostas. Consequentemente, grupos econômicos vorazes controlam hoje 70% das vagas no país. Políticos também alimentam essa engrenagem. Para prefeitos, uma faculdade local traz status e movimenta a economia. Portanto, cria-se um lobby político fortíssimo. Diante disso, fechar essas instituições ruins torna-se uma missão quase impossível.

Do outro lado do balcão, famílias sustentam essa máquina. Segundo a professora da UFRJ Lígia Bahia, especialista em saúde pública, existe um verdadeiro “fetiche” pela medicina. Pais pagam mensalidades de até R$ 16.000, encarando o gasto como investimento financeiro. Todavia, a promessa de riqueza imediata é falsa. A maioria dos médicos vive como trabalhador comum, não como milionário. Tragicamente, essa formação elitizada e deficiente pune o paciente na ponta. Recém-formados inseguros não sabem diagnosticar clinicamente. Assim, solicitam exames em excesso apenas para adiar decisões, comprometendo a dignidade do atendimento.

Finalmente, a solução para esse caos enfrenta barreiras gigantescas. Especialistas sugerem aumentar a nota de corte e realizar avaliações periódicas durante o curso. A expansão de vagas em universidades públicas, que oferecem pesquisa real, seria o ideal. No entanto, o Estado carece de verbas para essa expansão. Ademais, os grupos privados exercem enorme influência no Congresso e no Executivo. Em suma, o fechamento das reprovadas é improvável a curto prazo.

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