A Copa passa, as eleições passam, e o que fica em 2026? Foto: Lídia Muradás Colunista

A Copa passa, as eleições passam, e o que fica em 2026?

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O desenvolvimento econômico não se sustenta onde a desinformação vira regra. A democracia não amadurece onde o diálogo é tratado como fraqueza. E nenhuma nação prospera quando a ignorância se organiza melhor do que o conhecimento

*Maurílio Biagi Filho

Entramos em 2026. Com certeza não será um ano comum. Será marcado por eleições, por Copa do Mundo, um número excepcional de feriados prolongados, e se isso não bastasse, marcado por uma insegurança nunca vista no mundo que, segundo os especialistas sinaliza uma nova ordem mundial. É uma virada de chave que faz uma ruptura com o passado, propondo novas regras, quebrando paradigmas, enfraquecendo instituições.

Essas tensões internacionais insistem em nos lembrar que a estabilidade global é sempre mais frágil do que parece. No Brasil, além de enfrentar as sequelas que esse cenário provoca, ainda teremos que conviver com um ruído que não é novo, apenas tende a ficar mais alto: o da polarização.

Ela não surgiu ontem. Vem se acumulando, ao longo dos últimos anos, especialmente desde as eleições de 2022. À época, acreditávamos que o tempo seria capaz de arrefecer os ânimos. O que vimos, no entanto, foi outra coisa: a radicalização ganhou método, escala e velocidade. E encontrou nas redes sociais um terreno fértil para crescer sem freios, sem filtros e, muitas vezes, sem qualquer compromisso com a verdade.

Vivemos hoje uma guerra de narrativas em que raramente se pergunta “é verdade?”, mas apenas “serve ao meu lado?”. Compartilha-se antes de compreender. Julga-se antes de ler. Condena-se antes de ouvir. Não se discute ideias, repete-se slogans, frases prontas, clichês. Não se constrói pensamento, ecoa-se o que chega primeiro à tela.

A história mostra que esse não é um fenômeno inofensivo. Quando pessoas passam a agir movidas por ideias que não compreendem, o problema deixa de ser político e passa a ser civilizatório. O perigo não está na divergência, mesmo porque ela é saudável e necessária, mas na substituição do pensamento pelo reflexo automático, da convicção pela obediência cega.

Empresários, líderes públicos, formadores de opinião e cidadãos comuns têm responsabilidade nesse contexto. O desenvolvimento econômico não se sustenta onde a desinformação vira regra. A democracia não amadurece onde o diálogo é tratado como fraqueza. E nenhuma nação prospera quando a ignorância se organiza melhor do que o conhecimento.

Aliás, a falta de conhecimento, a ignorância e a recusa em compreender a complexidade dos fatos abrem espaço para que a corrupção se aflore com mais facilidade. Criam um ambiente propício ao ressentimento, alimentam sentimento de vingança e escancaram as portas para que a bandidagem se espalhe, ocupando os vazios deixados pelo Estado, pela educação e pelo senso crítico. Onde não há informação de qualidade, prosperam o oportunismo, a violência e a lógica do “vale tudo”.

O Brasil que desejamos para os próximos anos não pode ser refém do barulho. Precisa ser guiado pela razão, pelo senso crítico e pela disposição de ouvir o outro, mesmo quando discordamos profundamente dele. Precisamos reaprender a discordar sem destruir, a argumentar sem desumanizar, a defender ideias sem transformar o outro em inimigo.

A Copa passa. As eleições passam. As crises internacionais se rearranjam. Mas os danos causados pela intolerância e pela desinformação permanecem por gerações, corroendo laços sociais, afastando investimentos, minando a confiança e empobrecendo o debate público.

Que 2026 seja, portanto, mais do que uma virada no calendário. Que seja um ponto de inflexão. Um ano em que escolhamos menos o grito e mais a escuta. Menos a reação e mais o pensamento. Menos o “nós contra eles” e mais o compromisso com um país que só avança quando consegue caminhar junto, mesmo sendo plural. E, principalmente, um ano em que a incoerência e a intolerância, que vêm nos corroendo, sejam efetivamente combatidas. E isso só será possível se o lado mais forte, o de quem lidera, influencia e dá o tom do debate público, tiver a grandeza de ceder. Ceder não como sinal de fraqueza, mas como gesto de responsabilidade, maturidade e compromisso com o Brasil.

Liderar, neste momento histórico, é reduzir tensões, baixar o tom e reconstruir pontes antes que as divisões nos afundem ainda mais. Algumas oportunidades claras de pacificar o país, ou pelo menos dizer “é o que o poderíamos fazer”, já foram perdidas por lideranças de todas as esferas, uma pena, mas nunca é tarde demais quando se trata de um tema dessa magnitude.

Espero que a Copa do Mundo seja impulsionadora dessa união e que todos torçam para a seleção, mas acima de tudo para o país.  Não temos mais espaço para a turma do quanto pior melhor. O futuro não será construído por quem repete. Será construído por quem pensa, por quem inova lastreado no conhecimento, seja ele teórico ou prático. E pensar, hoje, é um ato de coragem. Que sejamos corajosos para torcer e votar com muita consciência e respeito pelos adversários. E ainda é tempo de desejar um Feliz Ano Novo!

 

*Maurílio Biagi Filho é empresário

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