O voto dos evangélicos é sempre disputado em época de eleições, mas não pode ser subestimado ! Foto: Reprodução
O voto evangélico não é homogêneo, nem coeso e nem de fácil captura por líderes religiosos; essa ideia é equivocada e politicamente perigosa
A recorrente ideia de que existe um “voto evangélico” homogêneo, coeso e automaticamente capturável por líderes religiosos ou por slogans morais simplificadores é, além de equivocada, politicamente perigosa. Ela empobrece a leitura da realidade social brasileira e conduz as esquerdas a estratégias erradas, baseadas ora na tentativa de confronto com esse segmento, ora na expectativa ingênua de que bastaria “conquistar pastores” para deslocar milhões de votos. As pesquisas acumuladas ao longo de décadas mostram exatamente o contrário: evangélicos não formam um bloco político uniforme, nem votam em rebanho, nem respondem de modo automático a comandos clericais.
Do ponto de vista histórico, convém lembrar que o chamado campo evangélico resulta de mais de dois séculos de pluralização religiosa no Brasil. Protestantes históricos, pentecostais, neopentecostais, desigrejados e experiências comunitárias independentes coexistem em universos sociais profundamente distintos. Trata-se, em sua maioria, de uma população urbana, periférica, majoritariamente negra, feminina e trabalhadora, atravessada pelas mesmas tensões que afetam o restante da sociedade brasileira: emprego, renda, violência, mobilidade social e futuro dos filhos. Reduzir esse conjunto heterogêneo a um ator político monolítico é um erro analítico que cobra seu preço nas urnas.
Isso não significa, porém, ignorar um dado central da conjuntura: parcelas expressivas desse eleitorado foram mobilizadas à direita nas últimas eleições, sobretudo a partir do acionamento sistemático do medo moral. Aborto, gênero, sexualidade, família e religião transformaram-se em atalhos retóricos capazes de produzir adesão rápida em contextos de insegurança social. Essa inflexão conservadora não nasce da fé em si, mas da combinação entre precariedade material, sensação de abandono estatal e narrativas que oferecem explicações simples para problemas complexos. Quando a política falha em responder a essas demandas materiais elementares, abre-se espaço para que discursos morais ocupem o vazio, oferecendo ordem simbólica onde falta justiça social.
É justamente aqui que a estratégia das esquerdas costuma naufragar. Ao tratar o eleitor evangélico como adversário cultural ou como massa manipulada, parte da esquerda reforça o enquadramento que a extrema direita deseja: o de uma suposta oposição entre fé popular e direitos democráticos. Essa postura não só afasta interlocuções possíveis, como também empurra setores evangélicos moderados e progressistas, que existem, se organizam e produzem pensamento crítico, para a invisibilidade. Ignorar essas pontes é entregar o campo religioso, de bandeja, aos setores mais reacionários.
Para 2026, a lição é ainda mais exigente: disputar o voto de pessoas evangélicas passa, necessariamente, por recolocar no centro do debate as pautas sociais clássicas que dizem respeito, de modo direto e concreto, à vida da classe trabalhadora, da qual a maioria esmagadora desse segmento faz parte. Trata-se de homens e mulheres que vivem do próprio trabalho, enfrentam jornadas longas, salários comprimidos, transporte precário, violência urbana e crescente insegurança quanto ao futuro.
Não é a retórica identitária abstrata que estrutura suas escolhas políticas, mas a experiência cotidiana da precarização. Emprego formal, valorização do salário-mínimo, combate à fome, políticas públicas de habitação, acesso real à saúde e à educação dos filhos são temas que ressoam com força nesse universo social. Reconectar as esquerdas a esse eleitorado exige, portanto, menos pedagogia moral e mais compromisso visível com a dignidade do trabalho, com a proteção social e com a reconstrução de horizontes de futuro palpáveis para quem vive nas periferias urbanas e nos territórios populares onde a presença evangélica é majoritária.
Se as esquerdas insistirem em estratégias caricaturais, ora hostis, ora oportunistas, correm o risco de repetir erros recentes com alto custo eleitoral. O desafio não é “ganhar o voto evangélico”, como se ele fosse um troféu, mas disputar consciências em uma sociedade plural, marcada por múltiplas identidades. Em 2026, quem compreender que religião não explica sozinha o voto talvez descubra que o maior equívoco não está no eleitor evangélico, mas na incapacidade de dialogar com ele sem preconceito, medo ou simplificação.
*Daniel Carvalho de Paula é doutor em História pela USP e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.