Foto: Lídia Muradás
Eleições
Surpreende a decisão de Lula de comparecer ao desfile da escola que o homenageou. Num país tensionado, a pergunta é simples: valia a pena correr esse risco? Para quê? E por quê?
Se o ano no Brasil começa realmente depois do Carnaval, estamos em apuros. Porque, mesmo após a Quarta-Feira de Cinzas, o barulho continua e, pelo visto, ninguém tirou a fantasia. Enquanto deveríamos estar celebrando a pesquisadora brasileira Tatiana Sampaio, responsável pelo desenvolvimento da polilaminina, molécula promissora na reversão de lesões medulares, o debate nacional segue girando em torno do desfile e do rebaixamento da Acadêmicos de Niterói, que levou à avenida um samba-enredo em homenagem ao Presidente Lula.
Não consigo me omitir de tudo…ainda bem, pois o Lula sempre foi reconhecido, inclusive por opositores, como estrategista hábil, intuitivo e politicamente inteligente. Por isso mesmo, surpreende sua decisão de comparecer ao desfile da escola que o homenageou. Num país tensionado, a pergunta é simples: valia a pena correr esse risco? Para quê? E por quê?
Não encontrei resposta convincente. Ingenuidade não parece provável. Um presidente em exercício tem muito mais a perder do que a ganhar quando cruza certas linhas simbólicas. A liturgia do cargo, essa dimensão invisível, mas essencial da Presidência, exige sobriedade, distanciamento e senso de oportunidade. Especialmente em tempos de polarização aguda.
Como hoje eles se tornaram um casal muito apaixonado, sempre juntos, vivendo em quase em uma simbiose, cogitou-se, inclusive, que a primeira-dama desfilasse. Teria sido ainda mais delicado. Mesmo sem entrar na avenida, sua presença em ensaios com verba pública e compromisso registrado na agenda oficial gerou questionamentos desnecessários. Tudo isso alimenta a percepção de que o governo, por vezes, se sente confortável demais na própria narrativa. E isso, numa democracia madura, nunca é trivial.
Apesar das transmissões ao vivo para milhões de pessoas, da presença do Presidente beijando o pavilhão da escola, e outras evidências, do ponto de vista jurídico, é possível que não haja consequência prática. Fala-se em abuso de poder e campanha antecipada, mas provar materialidade e intenção exige técnica, contexto e interpretação, em um país no qual a insegurança jurídica cresce. Há quem diga que, objetivamente, no enredo ou no samba, não haja elementos explícitos de propaganda. A repetição do número 13 e ecos de jingles eleitorais são aspectos mais sensíveis, é verdade, mas ainda assim se inserem no campo da exaltação artística, território protegido pela liberdade de expressão tão defendida, especialmente no Carnaval.
E aqui cabe ponderação: o Carnaval é, sim, espaço de crítica. Sempre foi. Mas crítica inteligente, criativa, simbólica. Transformar ex-presidente em palhaço ou tangenciar desrespeito a crenças religiosas, mesmo com todo o “carinho apresentado” e ainda que essa não tenha sido a intenção, soa pueril e pouco construtivo. A arte pode provocar, mas também pode qualificar o debate.
Mesmo com alguns recados da ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), acredito que juridicamente o episódio possa não avançar. Eleitoralmente, porém, desagradou até eleitores cativos do PT. Fora dessa bolha, então, representa um passo atrás na pacificação e no diálogo com evangélicos e indecisos. Em política, ampliar pontes costuma ser mais produtivo do que reforçar trincheiras. A grita aumenta, quem nunca tinha se manifestado manifestou, a mídia que praticamente não criticava passou a fazer críticas contundentes. Na vida, às vezes, com as melhores das intenções, que pode ter sido a do presidente, a gente erra e é preciso humildade para reconhecer.
Enquanto isso, o STF segue soberano, com decisões vistas por uns como firmes e por outros como excessivas. Surgem questionamentos envolvendo o Banco Master e a utilização expressiva do Fundo Garantidor de Créditos, tema técnico que ganha contornos políticos num ambiente já inflamado. Ainda que a instituição representasse parcela pequena do sistema financeiro, o uso proporcionalmente elevado do fundo desperta dúvidas legítimas na opinião pública.
No fim, os juízes do Carnaval já deram seu veredito: a escola foi rebaixada. A avenida tem regras próprias e consequências rápidas. Resta saber o que dirão os outros juízes: os institucionais, os eleitorais e, sobretudo, o mais rigoroso deles, o eleitor.
Porque, no Brasil de hoje, cada gesto simbólico pesa mais do que parece. E governar exige não apenas carisma ou aplauso momentâneo, mas senso de medida. Se continuarmos confundindo palanque com passarela, talvez descubramos tarde demais que o país precisa menos de espetáculo e mais de serenidade. Afinal, fantasias são próprias do Carnaval; já a responsabilidade deveria ser permanente com ou sem bateria ao fundo.
Corremos o risco de que tudo acabe virando samba, que as máscaras não caiam e que a espuma dos dias cubra questões mais profundas. Até as eleições, muita baiana ainda vai ter que rodar para manter a harmonia do país e garantir sua evolução. Tomara que o compasso da responsabilidade prevaleça sobre o ritmo da conveniência. E que a folia se restrinja ao Carnaval.
Maurilio Biagi Filho é empresário