A águia, o condor e a onça-pintada Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump | Foto: Harrison Koeppel/Official White House Photo

A águia, o condor e a onça-pintada

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Coluna do Daniel Carvalho de Paula

A história do continente americano pode ser lida como um longo embate simbólico entre animais de poder. A águia, emblema dos Estados Unidos, paira desde o século XIX sobre o hemisfério ocidental, reivindicando para si o direito de arbitrar destinos, governos e economias. O condor, associado aos Andes e à América Hispânica, representa povos que aprenderam a sobreviver entre impérios e catástrofes. Já a onça-pintada, ou jaguar, símbolo profundo das culturas indígenas da Grande Amazônia e do Brasil, evoca força territorial, soberania silenciosa e resistência. É nesse cenário que se inscrevem as recentes investidas estadunidenses contra a Venezuela, as ameaças reiteradas de Donald Trump à Colômbia e ao México e o desconfortável retorno de uma Doutrina Monroe reembalada, travestida agora de guerra às drogas, à imigração e ao “caos regional”. Cortina de fumaça para a crise interna por que passa Trump e a própria sociedade estadunidense.

A retórica da guerra às drogas, repetida à exaustão, funciona como álibi moral para intervenções que têm pouco a ver com saúde pública ou segurança coletiva. Décadas de evidências mostram que essa “guerra” fracassou em seu objetivo declarado: o consumo de drogas segue elevado nos próprios Estados Unidos, enquanto países latino-americanos arcam com os custos sociais, ambientais e humanos da militarização. A Venezuela, ao ser tratada como ameaça hemisférica, cumpre o papel clássico do inimigo conveniente, justificando sanções, bloqueios, sabotagens e até a ameaça aberta de intervenção direta. Trata-se menos de combater drogas ou autoritarismo e mais de reafirmar zonas de influência, controlar recursos estratégicos e conter projetos políticos autônomos que escapem à órbita de Washington.

As ameaças constantes de Trump à Colômbia e ao México reforçam esse diagnóstico. Ambos são países centrais no tabuleiro latino-americano: grandes economias, parceiros comerciais estratégicos e, não por acaso, governados por forças políticas que buscam maior autonomia frente aos Estados Unidos. Ao evocar tarifas punitivas, pressões diplomáticas e insinuações de ações unilaterais, Trump atualiza a velha lógica monroísta: “a América para os americanos”, desde que esses “americanos” estejam alinhados aos interesses da Casa Branca. O século é outro, o discurso é mais tosco, mas a substância permanece: hegemonia, coerção e desprezo pela soberania alheia.

Mais grave, contudo, é observar como esse projeto encontra eco interno no Brasil. Setores do bolsonarismo, vendilhões da pátria sob a fantasia do nacionalismo, não hesitam em sugerir que os Estados Unidos façam aqui o que fizeram ou tentaram fazer na Venezuela. Ao defenderem sanções, intervenções ou tutelas estrangeiras sobre o Brasil, revelam o caráter farsesco de seu patriotismo. Amam a bandeira apenas quando ela serve para atacar adversários internos; abandonam-na sem pudor quando se trata de submeter o país a interesses externos. Não é nacionalismo: é entreguismo ideológico, travestido de moralismo.

O jaguar brasileiro, contudo, não é presa fácil. O Brasil não é indigente diplomático, nem economia irrelevante. Sua história recente mostra capacidade de articulação regional, diversificação de parcerias globais e defesa, ainda que por vezes vacilante, do princípio da não intervenção. A soberania não se preserva com bravatas nem com submissão, mas com política externa altiva, integração regional e consciência histórica. Entre a águia que pretende dominar e o condor que resiste do alto dos Andes, o jaguar precisa afirmar seu território, não pela força predatória, mas pela inteligência estratégica. O maior risco para a América Latina não vem apenas de fora: vem de dentro, quando falsos patriotas abrem as portas da casa e convidam o império a entrar.

*É doutor em História pela USP e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie

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