Foto: Lídia Muradás
Colunista
Há coisas que fazem parte da paisagem do Brasil tanto quanto a Amazônia, as lindas praias do nosso litoral, a biodiversidade e a capacidade de empreender do nosso povo. Uma delas é a burocracia.
Ela não tem rosto, não tem partido, não tem ideologia. A burocracia brasileira é quase uma instituição cultural. Vem de longe. Talvez tenha desembarcado junto com as caravelas de Pedro Álvares Cabral, misturada às cartas régias, aos carimbos, às autorizações da metrópole.
Tão presente que, em determinado momento da nossa história recente, de 1979 a 1986, o país chegou a criar um Ministério da Desburocratização, cujo primeiro ministro a assumir a pasta foi o finado Hélio Beltrão, pai da jornalista Maria Beltrão. Sim, tivemos uma pasta inteira dedicada a tentar reduzir a burocracia – o que, por si só, revela um traço curioso do nosso modelo: criar uma nova estrutura, novos cargos e novos procedimentos para tentar simplificar aquilo que já era excessivamente complexo. A intenção era correta, mas a burocracia venceu.
Séculos se passaram, governos mudaram, tecnologias avançaram, mas a lógica do “falta mais um papel” continua surpreendentemente intacta. Falo isso não como teoria, mas como alguém que vive o dia a dia de quem tenta investir, gerar empregos e melhorar a cidade onde nasceu.
Alguns anos atrás, participei de uma parceria com uma construtora para desenvolver um condomínio residencial em Ribeirão Preto. Um projeto planejado, responsável, com estudos técnicos, preocupação ambiental e potencial de gerar trabalho, renda e moradia. Parecia simples: cumprir as exigências, entregar a documentação, obter a licença, que deve ser, sim, criteriosa, mas também transparente. Levamos oito anos para aprovação do projeto. Isso mesmo, oito anos.
A cada etapa, surgia uma nova lista de documentos. Quando entregávamos o que havia sido solicitado, apareciam outras exigências. Não havia um roteiro definitivo, um checklist que permitisse dizer: pronto, agora está completo. Era como correr atrás de uma linha de chegada que mudava de lugar. No fim, a diferença não é “flexibilizar regra”. É ter regra clara e processo que não reinicia. A sensação é a de sempre estar no penúltimo passo e é justamente aí que o tempo escorre.
Nesse período, o mercado mudou, os custos aumentaram, oportunidades foram perdidas. O projeto saiu, mas o preço da demora ninguém calcula. E ele é alto para todos, não só para o empreendedor, mas principalmente para o consumidor que compra o imóvel mais caro porque assume os custos da burocracia.
Recentemente, vivi outra experiência, ainda mais simbólica. O LIDE encabeçou campanha para trazer a ONG Gerando Falcões a Ribeirão Preto, com o objetivo de revitalizar uma comunidade carente como projeto piloto a ser replicado posteriormente. Conseguiu mobilizar empresários, voluntários e doadores, inclusive eu. Arrecadaram recursos suficientes para começar. Havia vontade, havia dinheiro, havia gente disposta a trabalhar. O que faltava? Autorização.
Estamos há dois anos aguardando liberações formais. Nesse período, a prefeitura já mudou de gestão, secretarias foram reorganizadas, processos recomeçaram do zero. O projeto social está pronto para acontecer, mas permanece parado, aguardando carimbos.
Poderia dar vários outros exemplos, mas suponho que esses dois representam bem o cenário burocrático brasileiro.
Outra forma de manifestação silenciosa da burocracia é a do sistema tributário. O chamado Custo Brasil passa, inevitavelmente, pela maneira como arrecadamos impostos. Pagamos tributos em várias fases do processo de consumo: na compra, na venda, na produção, na circulação. Cada etapa exige cálculos, registros, declarações e interpretações diferentes.
E quando falamos de tributos, a confusão não está só na alíquota. Às vezes, está no nome. No Brasil, não raro, o imposto depende da interpretação do que uma coisa “é”. Um produto pode mudar de categoria, e com isso mudar de regra, de cálculo, de disputa, como se a realidade precisasse pedir licença à classificação. No fim, o esforço que deveria estar na produção acaba escorrendo para o jurídico, para a contabilidade, para o “vamos ver como enquadra”.
A isso se soma o cotidiano das obrigações acessórias: protocolos, validações, recálculos, retificações. Não é só pagar. É provar. Provar de novo. Provar em outro sistema. E, se possível, provar com um carimbo. O país vai ficando especialista em burocracia aplicada, enquanto o essencial – produzir, empregar, construir, ajudar – anda no passo de quem carrega uma pasta pesada.
Agora vivemos o debate da reforma tributária, que nasce com o propósito de simplificar. Mas, paradoxalmente, o que se vê é um emaranhado de regras, transições longas, exceções e explicações tão complexas que entender o que veio para facilitar acaba exigindo ainda mais tempo, especialistas e custos. Simplificar, no papel, parece fácil. Na prática, seguimos presos ao mesmo labirinto.
E aqui não se trata de culpar este ou aquele governo. A questão é mais profunda. É sistêmica. A máquina pública brasileira foi construída para desconfiar primeiro e permitir depois, às vezes muito depois, principalmente para quem não se dispõe a cortar caminho por vias não oficiais ou por meios escusos.
O resultado é perverso: quem quer produzir espera; quem quer construir adia; quem quer ajudar esbarra. Enquanto isso, o país segue discutindo crescimento, emprego e inclusão social.
Talvez o maior desperdício brasileiro não seja de recursos naturais ou financeiros, mas de tempo. Um tempo que se perde em filas, protocolos, exigências sucessivas e na sensação permanente de que sempre falta um documento. Esse é o custo invisível da burocracia. Ele não aparece nos balanços, mas pesa sobre toda a sociedade.
Às vezes tenho a sensação de que criamos um modelo curioso: em vez de facilitar soluções, criamos obstáculos. Como se fosse preciso inventar o problema para depois oferecer a solução. O detalhe é que, em muitos casos, o problema fica. E a solução nunca chega.
E se o problema é sistêmico, a solução também precisa ser. Não dá para pedir eficiência de um país que ainda não ensinou o básico com consistência: educação de qualidade, noções de direitos e deveres, ética, respeito, responsabilidade, justiça e segurança. Sem isso, seguimos tentando consertar no topo o que nasce frágil na base.
Se o Brasil quer mesmo “ordem e progresso”, a burocracia precisa ser repensada do começo ao fim.
Maurílio Biagi Filho é empresário