“O inglês vai desaparecer”: Bad Bunny e a histeria linguística nos EUA Super Bowl LX - Show do Intervalo - New England Patriots x Seattle Seahawks - Levi's Stadium, Santa Clara, Califórnia, Estados Unidos - 8 de fevereiro de 2026. Bad Bunny se apresenta durante o show do intervalo. REUTERS/Mike Blake

“O inglês vai desaparecer”: Bad Bunny e a histeria linguística nos EUA

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O episódio recente do show de Bad Bunny no Super Bowl reacendeu um velho fantasma na vida pública dos Estados Unidos: o medo linguístico.

A reação estridente de setores monolíngues, incomodados não apenas com a presença do espanhol, mas com sua centralidade simbólica, no evento, revelou menos uma preocupação estética do espetáculo e mais uma ansiedade política. Não se tratou de “defesa do inglês” como meio comum de comunicação, mas da recusa a aceitar que a língua dominante possa compartilhar o espaço cívico com outras vozes. Onde alguns viram música e representação cultural, outros enxergaram ameaça.

Esse medo não nasce do nada. Argumentos aparentemente benignos: “é preciso aprender a língua majoritária para integrar-se”, costumam encobrir um projeto de poder que usa o pânico do apagamento cultural para impor hegemonia. A exigência do monolinguismo, travestida de pragmatismo, funciona como tecnologia de exclusão: define quem pertence plenamente e quem deve sempre provar pertencimento. Ao converter a língua majoritária em fronteira moral, confunde-se comunicação com identidade e promove-se a ideia de que a diversidade linguística enfraquece a coesão nacional, quando, historicamente, é o contrário.

Importa lembrar, ademais, que o espanhol não é língua “importada” tardiamente ao território estadunidense. Ele é falado há séculos no atual território do país, antes mesmo de o inglês ali se enraizar como idioma hegemônico. Do Sudoeste às comunidades caribenhas, o espanhol é língua de trabalho, afeto e criação cultural de uma expressiva parcela demográfica. Tratá-lo como intruso é um gesto de apagamento histórico. A irritação diante de um artista latino cantando em espanhol num palco global diz menos sobre comunicação e mais sobre quem pode, simbolicamente, ocupar o centro da cena.

Casos semelhantes ajudam a iluminar o fenômeno. Na Finlândia, o sueco, língua oficial de uma minoria histórica, costuma provocar reações defensivas quando reivindica visibilidade pública. No Canadá, o francês no Quebec é visto por alguns como obstáculo à unidade, quando, na verdade, é pilar constitucional da federação. Em ambos os casos, a retórica do “aprenda a língua majoritária” reaparece como solução simples para um problema complexo e, não raro, como forma de assimilar à força, reduzindo a pluralidade a folclore.

O medo linguístico opera, assim, como política do ressentimento. Ele mobiliza a fantasia de uma maioria sitiada por minorias “barulhentas”, mesmo quando os dados demográficos indicam coexistência antiga e produtiva. Ao deslocar o debate para o terreno afetivo do medo, a hegemonia dispensa argumentos racionais e evita discutir desigualdades materiais. A língua torna-se bode expiatório para ansiedades econômicas, raciais e culturais que o monolinguismo, por si só, não resolve.

Defender o aprendizado da língua comum é legítimo; transformar isso em instrumento de silenciamento não é. Sociedades democráticas maduras reconhecem que coesão não exige uniformidade e que a circulação de línguas amplia, não diminui, o espaço público. O espanhol nos EUA, como o francês no Canadá ou o sueco na Finlândia, não ameaça a democracia; o que a ameaça é o uso do medo linguístico para hierarquizar cidadãos. Quando a música em outra língua provoca pânico, não é a canção que desafina, é a ideia de nação que precisa ser afinada à sua própria história plural.

 

*Daniel Carvalho de Paula é doutor em História pela USP e professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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