Alckmin é o trunfo de Lula na crise energética Geraldo Alckmin, vice-presidente do Brasil (Foto: José Cruz Agência Brasil) Etanol

Alckmin é o trunfo de Lula na crise energética

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Empresários reunidos na Alesp relembraram o papel central do então governador paulista na redução do ICMS sobre o álcool de 25% para 12%, que foi vital para a expansão do Proálcool

Em meio à nova crise energética global e às ameaças de paralisação de caminhoneiros no Brasil, o presidente Lula tem hoje um ativo político raro dentro do próprio governo: o vice-presidente Geraldo Alckmin. Poucos dirigentes no país têm interlocução tão antiga, direta e respeitada com o setor de biocombustíveis quanto ele. Uma relação construída ao longo de décadas e reconhecida pelos grandes produtores de etanol como decisiva para a expansão do Proálcool e para a consolidação do Brasil como potência em combustível renovável.  Essa trajetória ressurgiu na noite de sexta-feira, na Assembleia Legislativa de São Paulo. O evento homenageou o empresário Maurílio Biagi Filho, nome influente do setor sucroenergético. Mas serviu de Fórum para homenagear o Proálcool e as demandas do setor que assume protagonismo nesta crise e que está reavivando o nascimento do programa numa era em que houve o fechamento do Estreito de Ormuz pela primeira vez, em 1979. 

Sexta-feira na Alesp, uma aula de Brasil

Num momento em que a guerra volta a ameaçar o abastecimento mundial de energia, essa experiência ganha novo peso. Países altamente dependentes de petróleo, como China e Japão, já voltaram a procurar produtores brasileiros de etanol em busca de alternativas, disse o empresário Rubens Ometto, controlador da Cosan. O cenário lembra a crise de anos 1979. Mas agora com uma diferença essencial: desta vez, o Brasil tem uma solução pronta e tem dentro do governo um dos políticos que ajudaram a construí-la.

“O etanol é um negócio que veio e estava na moda.  De repente assume um novo governo nos EUA que começa a abandonar a ideia de energia renovável que é o que nós produzimos que é o carro chefe disso tudo. E a gente começa a ver hoje nas nossas empresas uma procura enorme de outras países que são dependentes de petróleo e que não terão o petroleo por algum tempo. Ninguém sabe quanto vai durar essa guerra, mas deve ser mais do que a gente imagina e fará com que o etanol seja mais valorizado e com que nossas empresas sejam mais valorizadas”, disse Ometto.

Ao relembrar episódios decisivos para o crescimento do etanol, Maurílio Biagi atribuiu a Alckmin papel central em uma medida que mudaria o rumo da política energética paulista e, depois, nacional: a redução do ICMS sobre o álcool hidratado de 25% para 12%.

O mundo volta a conviver com o fantasma da crise do petróleo em meio à guerra no Oriente Médio, às ameaças ao Estreito de Ormuz e à disparada dos preços internacionais. Foi um choque semelhante, em 1973 e depois em 1979, que levou o Brasil a criar o Proálcool. Meio século depois, a dependência global continua sendo um fator de instabilidade, mas o país construiu uma alternativa que hoje se mostra estratégica.

Dados apresentados por Plinio Mario Nastari, controlador da Datagro, ajudam a dimensionar essa vantagem. O etanol substitui atualmente 46% da gasolina consumida no Brasil e 58% no estado de São Paulo. Desde 1975, o programa já evitou o uso de cerca de 4 bilhões de barris de gasolina.

O número ganha ainda mais relevância quando comparado às reservas nacionais. As reservas totais brasileiras de petróleo e gás somam cerca de 12,1 bilhões de barris. Ou seja, o etanol já poupou o equivalente a um terço de todas as reservas conhecidas do país. Em valores, a economia acumulada chega a aproximadamente 740 bilhões de dólares em cinquenta anos, o dobro das reservas internacionais brasileiras, além de evitar a emissão de mais de 1 bilhão de toneladas de CO₂.

Nada disso aconteceu por acaso. A consolidação do etanol como alternativa energética dependeu de decisões políticas tomadas em momentos críticos. Foi nesse contexto que Maurílio Biagi Filho lembrou, na Alesp, a mudança tributária que permitiu ao combustível competir de fato com a gasolina. Na época, a carga de impostos elevada travava o crescimento do setor e estimulava a informalidade.

Segundo ele, a decisão nasceu de uma conversa improvável. Durante a campanha ao governo, Geraldo Alckmin foi alertado por Biagi de que havia insatisfação no interior e que era preciso ouvir quem estava na base da produção. A sugestão foi chamar Maria Zeferina, cortadora de cana de Sertãozinho e campeã da São Silvestre, que se tornara símbolo da força do interior paulista.

Maria Zeferina foi recebida no Palácio dos Bandeirantes ao lado de três colegas trabalhadores. Na reunião, relataram as dificuldades enfrentadas pelo setor e o peso dos impostos. Biagi foi direto: disse ao governador que a alíquota de 25% era, na prática, um convite oficial à sonegação. Se nada fosse feito, afirmou, o próprio governo estaria sendo conivente com o problema.

Pouco depois, Alckmin enviou à Assembleia Legislativa o projeto que reduziu o ICMS para 12%. A aprovação enfrentou resistência, porque mexia com interesses poderosos, mas acabou passando. O resultado foi imediato: o consumo cresceu, a arrecadação aumentou e o etanol ganhou competitividade, permitindo a expansão em São Paulo e depois em todo o país.

Essa vantagem ficou evidente novamente agora. Segundo Rubens Ometto, o Brasil ainda depende da importação de diesel porque sua capacidade de refino atende apenas cerca de 70% a 75% da demanda. Na gasolina, porém, a situação é diferente graças ao etanol, que reduz a necessidade de importação para menos de 5% e evita risco de desabastecimento mesmo em momentos de crise internacional.

A instabilidade provocada pela guerra já começa a pressionar os preços e reacende o temor de paralisações de caminhoneiros, um fantasma que o governo conhece bem. Dentro do setor, cresce a defesa de ampliar a mistura de etanol na gasolina e acelerar políticas que valorizem combustíveis renováveis exatamente como foi feito nas crises anteriores.

Não por acaso, empresários voltaram a lembrar uma campanha lançada na segunda crise do petróleo, em 1979. O slogan dizia: “O álcool do seu carro não passa por aqui” e “Álcool, quem tem não depende de ninguém”. Quase cinquenta anos depois, a frase volta a fazer sentido em um mundo novamente exposto às decisões de poucos países produtores.

Diante desse cenário, Lula tem diante de si uma escolha pragmática. Pode usar o ativo que tem dentro de casa, um vice-presidente respeitado pelo setor, com interlocução direta com produtores e que participou de decisões que moldaram a política energética brasileira.

O problema é que isso também tem custo político. Dar protagonismo a Geraldo Alckmin significaria ampliar o espaço de um aliado que não é do PT, não pretende deixar o PSB e mantém trânsito próprio no agronegócio, na indústria e entre governadores. Em meio à crise, pode ser o caminho mais eficaz. Mas também pode redesenhar o equilíbrio de forças dentro do próprio governo.

A conferir.