Foto: Artur Amaro/divulgação
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Única Carnavalesca presente nas Séries Ouro e Grupo Especial, abre o jogo sobre sua trajetória e conta detalhes do mundo do Carnaval
No Carnaval de 2026, na Sapucaí, tanto na Série Ouro quanto no Grupo Especial do Rio de Janeiro, a carnavalesca Annik Salmon foi a única mulher presente e esteve à frente da Arranco do Engenho de Dentro. Agora, para o próximo ano, terá a missão de levar novamente a UPM (Unidos de Padre Miguel) à elite do samba carioca.
Para o site do MyNews, a carnavalesca contou sua trajetória profissional até chegar ao mundo do samba.
Annik: Eu comecei no carnaval logo depois da faculdade, após vencer um concurso da LIESA em parceria com a EBA/UFRJ. Fui para a Porto da Pedra trabalhar com Alexandre Lousada e logo ele me contratou para ser assistente. Depois trabalhei com Alex de Souza na Vila. Quando Paulo Barros, após fazer um carnaval com o Alex na Vila, foi para a Tijuca, ele me chamou e eu fui com ele. Depois da saída dele, para o carnaval de 2015, o presidente Fernando Horta me convidou para integrar a Comissão de Carnaval. Saí da Tijuca para o carnaval de 2020, na Porto da Pedra. Em 2022, fui para a Mangueira, onde assinei 2023 e 2024 com Guilherme Estevão. Depois de dois anos na Arranco do Engenho de Dentro, estou indo para a UPM assinar o desfile de 2027.
No último Carnaval, Annik foi a única mulher carnavalesca entre o Grupo Especial e a Série Ouro, levando um enredo sobre a primeira palhaça negra do Brasil. Ela explica a importância desses espaços de comando e reconhecimento para as mulheres.
Annik: Acho que são de extrema importância. Tento fazer a minha parte. Este ano organizei com o Artur — meu assistente e enredista — oficinas no Arranco e pretendo seguir com o projeto na UPM. Fiquei muito feliz quando a Lara colocou a Lissandra para comandar o carro de som. Tenho certeza de que, pouco a pouco, as escolas vão reconhecer mais mulheres e abrir espaço para que elas brilhem.
Antes de Annik brilhar, passaram pela Sapucaí mulheres que se consagraram no Carnaval carioca, entre elas Márcia Lage e Maria Augusta, além de Rosa Magalhães, que foi enredo do Salgueiro. A carnavalesca conta como elas foram e ainda são inspirações para sua jornada.
Annik: A Rosa é uma grande inspiração para mim, pela forma como contava seus enredos e apresentava alegorias e fantasias belíssimas. A Maria Augusta era uma grande amiga, me ligava, me mandava horóscopo e sempre estava ali como amiga e conselheira. Com a Márcia eu não tive muito contato, mas reconheço e admiro o brilho que ela tinha, a energia maravilhosa que nunca deixava a tristeza abatê-la. Precisamos lembrar dessas mulheres pela genialidade e pela força de permanecerem resistentes. Hoje, tendo sido a única mulher a assinar na Sapucaí em 2026, sinto-me sozinha e tenho feito de tudo para trazer mais mulheres para o carnaval. Sonho com o dia em que metade das escolas de samba do Brasil tenha grandes mulheres artistas assinando seus desfiles.
Em 2027, Annik terá o desafio de comandar uma escola que, para muitos, não deveria ter sido rebaixada há dois anos e era favorita ao acesso neste ano. Ela explica como será assumir esse compromisso com a UPM.
Annik: É um desafio ao qual estou acostumada. Sempre projetamos o carnaval para ganhar, mesmo que o projeto sofra reduções por falta de aporte financeiro, o que inviabiliza tempo hábil para construir muitas coisas. Reaproveitamos materiais, pensamos no meio ambiente e mantemos o foco: ser campeões. Estar na UPM é uma felicidade enorme, sobretudo por encontrar uma comunidade apaixonada. Na Vila Vintém, as pessoas vestem a camisa, choram pela escola e sempre esperam que os enredos contem parte da vida delas e da comunidade. Isso me deixa muito feliz, animada e com mais vontade de levar o Boi da Vila Vintém de volta ao Grupo Especial.
Entre 2023 e 2024, Annik dividiu o comando artístico do carnaval da Mangueira com Guilherme Estevão. Ela fala sobre a diferença entre trabalhar em parceria e assumir sozinha a construção do desfile, além das distinções entre Série Ouro e Grupo Especial.
Annik: As diferenças entre fazer um trabalho no Especial e na Série Ouro vão do tamanho ao orçamento. O Especial tem mais alegorias e tripés. No Grupo Especial você trabalha com cinco ou seis setores; na Série Ouro, com três. Às vezes você precisa adaptar uma narrativa pensada para um desfile maior e com mais tempo a um desfile menor, hoje sem tripés e com limitações de barracão que a Série Ouro ainda enfrenta. Construir um projeto sozinha me dá mais liberdade para decidir e fazer tudo. Tenho uma equipe que me ajuda e sugere ideias — e sou muito aberta a ouvir a comunidade, os segmentos, a presidência e as direções de carnaval e harmonia —, mas, quando estou sozinha, tomo as decisões narrativas, visuais e estéticas.
Muitos carnavalescos admitem que sonham com um enredo específico, mas não é o caso de Annik. Ela prefere alinhar o tema à escola em que atua, embora destaque o desejo de exaltar a força feminina.
Annik: Sonho em ter uma carreira longeva, marcada por enredos que exaltam o feminino. Claro que existem cidades e artistas sobre os quais gostaria de falar, mas assumi a missão de exaltar o feminino. Espero ser campeã várias vezes e ser lembrada por isso. Amo o carinho das pessoas nas redes sociais. Tento acompanhar tudo, ler as mensagens. Às vezes são tantos comentários que me perco, mas procuro observar como meus enredos podem dialogar com o público não apenas no desfile, mas durante todo o ano.
Por fim, Annik comenta os desfiles deste ano e a homenagem da Acadêmicos de Niterói ao presidente Lula.
Annik: Acho que o carnaval de 2026 homenageou pessoas. Fiz um enredo no Arranco sobre a primeira palhaça negra do Brasil, Maria Eliza Alves dos Reis. A Mocidade trouxe Rita Lee; a Imperatriz, Ney Matogrosso; a Mangueira falou de Mestre Sacaca; e a Unidos da Tijuca exaltou Carolina Maria de Jesus. Até na Série Ouro tivemos Leci Brandão, Xande de Pilares e Roberto Burle Marx. A Viradouro conseguiu dobrar a meta: homenageou o Mestre Ciça em vida e foi campeã celebrando um mestre que estava no exercício da função no desfile que o homenageou. Todas essas personalidades são de grande importância para a cultura do Brasil e ajudam a contar partes da nossa história. O presidente Lula também é uma figura política reconhecida internacionalmente, com títulos, prêmios e medalhas. A história da vida dele faz parte da história do Brasil e pode ser contada no carnaval. Acredito que nossa fronteira agora seja trazer o público para viver o enredo durante toda a temporada, do lançamento ao desfile. Assim, as pessoas entendem que o desfile é o fim de um processo: é onde tudo se junta, a magia acontece e se encerra na apoteose.