Morre Manoel Carlos, um pioneiro no combate a violência silenciosa Obituário

 Morre Manoel Carlos, um pioneiro no combate a violência silenciosa

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Manoel Carlos transformou o entretenimento em um serviço de utilidade pública. Ele deu rosto às vítimas e nomeou os agressores. Acima de tudo, ele usou a comoção nacional para pressionar o Congresso

Morreu neste sábado Manoel Carlos. Ele não foi apenas um autor de novelas, foi o homem que forçou o Brasil a olhar para dentro de casa. Maneco, como era conhecido, escancarou feridas da sociedade. Muito antes das leis atuais, Maneco usou o horário nobre para denunciar o que acontecia entre quatro paredes. Ele focou na violência contra mulheres e no abuso sistemático contra idosos.

Sua escrita funcionava como uma denúncia pública. Ele entendia o poder da televisão. Por isso, usou a ficção para gerar indignação e mudar a realidade do país.

Antigamente, muitos acreditavam que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Manoel Carlos decidiu ignorar essa regra. Através de suas Helenas, ele mapeou o ciclo da violência doméstica com precisão.  Mostrou como o controle e a humilhação começam antes do primeiro golpe, retratando a violência doméstica em todas as suas nuances. Dessa forma, a ficção preparou o terreno para a aceitação da Lei Maria da Penha. O público já não aceitava mais o silêncio.

A voz dos esquecidos:

A violência contra idosos era um tema quase invisível na TV brasileira. Contudo, Manoel Carlos mudou esse cenário em Mulheres Apaixonadas. Ele criou a trama de Dóris, Flora e Leopoldo para chocar o país.

Primeiramente, ele focou na crueldade do cotidiano. Ele não mostrou apenas agressões físicas. Ele destacou a violência moral, o roubo da dignidade e o abandono familiar. Em seguida, essa narrativa gerou uma mobilização nacional sem precedentes.

Como resultado direto, a revolta popular acelerou a aprovação do Estatuto do Idoso. Maneco provou que uma boa história pode ser o braço direito da justiça.

Um legado de proteção real

Manoel Carlos transformou o entretenimento em um serviço de utilidade pública. Ele deu rosto às vítimas e nomeou os agressores. Acima de tudo, ele usou a comoção nacional para pressionar o Congresso. Sua morte encerra um capítulo da TV brasileira. No entanto, as leis que ele ajudou a criar continuam protegendo milhões de pessoas. Esse é o seu maior e mais duradouro prêmio.

Maneco tinha 92 anos de idade, era natural de São Paulo, embora a maior parte da vida morou no Rio, no Leblon, o cenário tradicional de suas novelas.

Cenas emblemáticas com impacto social

A agressão de Raquel (raquetadas) em Mulheres Apaixonadas (Lei Maria da Penha)

A revolta com as humilhações de Dóris contra os avós Flora e Leopoldo (Estatuto do Idoso)

A morte de Fernanda por bala perdida e a passeata pela paz no Rio (Estatuto do Desarmamento)

O drama de Camila com a leucemia em Laços de Família (Recorde de doação de medula)

A luta de Santana contra o alcoolismo em Mulheres Apaixonadas

O dilema ético de Helena ao trocar os bebês em Por Amor