A miragem dos 150% do CDI

A miragem dos 150% do CDI

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O retrato do investidor conservador, o Pacato Cidadão, que, sob a promessa de proteção do FGC, foi empanturrado com CDBs do Master que pagavam 150% do CDI

Ele sempre foi avesso ao risco, desde a mais tenra infância. Enquanto outros testavam os limites da velocidade em bicicletas enferrujadas, ele preferia o chão firme e a segurança do quintal. Morria de medo da vida, de ficar desempregado, de amores fortes que pudessem desestruturar sua rotina, de aventuras incertas pelo mundo. Preferia a vida pacata, solitária e previsível, onde o silêncio era o selo de que nada daria errado. Um Pacato Cidadão, cuja maior ambição era a manutenção do status quo, dormindo sob o cobertor da estabilidade que só a falta de sobressaltos pode oferecer.

Por isso, quando seu assessor de investimentos, aquele profissional experiente, de fala mansa que lhe prometera fidelidade absoluta na proteção de seus interesses, lhe ofereceu um CDB do Banco Master, ele sentiu um alívio quase espiritual. Era renda fixa, logo, conservadora por definição. Mas o retorno era espetacular, muito acima da média do mercado, batendo nos 150% do CDI. Repito: 150% do CDI. Parecia uma prova de amor, um presente garimpado especialmente para ele. “É algo ligado ao Mastercard?”, perguntou. O assessor explicou que era um banco novo, disruptivo, que estava revolucionando o setor e abalando a concorrência.

O medo, porém, ainda sussurrava. “Mas e o risco?”, ele insistiu. O assessor, com a segurança de quem conduz alguém por um caminho conhecido, garantiu que aplicariam apenas o limite coberto pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Criado originalmente para proteger o sistema bancário de corridas desenfreadas e dar segurança ao pequeno investidor, o FGC é o seguro que garante que, se uma instituição quebrar, o cidadão receba seu dinheiro de volta até certo valor. Sentindo-se blindado por essa rede de proteção, o Pacato Cidadão deu o sinal verde. Ele não percebeu, mas estava operando o FGC, usando um mecanismo de socorro para validar uma “gambiarra” financeira de moral duvidosa.

A conta chegou com a inevitabilidade das marés. O banco quebrou e, conforme o roteiro, o FGC cobriu o prejuízo. No entanto, foram dois meses de dinheiro parado, sem render um centavo, enquanto a burocracia processava o pagamento. No fim das contas, aquele “negócio do século” rendeu um ganho bruto de aproximadamente 15% em 14 meses. Um valor que, após o desconto de 17,5% de Imposto de Renda, tornava-se uma vitória pírrica. Ele não precisava resgatar o dinheiro naquele momento, mas a quebra forçou o encerramento da jornada, deixando-o com a sensação amarga de quem correu muito para ficar no mesmo lugar.

O que o assessor não mencionou, enquanto vendia o brilho do Master, é que o próprio Tesouro Nacional, o menor risco de crédito, garantido pelo Tesouro, oferecia títulos pagando 20% ou até 25% ao ano, dependendo do vencimento. Essa omissão doeu mais que a perda financeira. O assessor, a quem ele abria a vida e confiava o suor de décadas de trabalho para que fizesse a alocação de acordo com seu apetite conservador, o havia traído. O Pacato Cidadão, que evitava até esquinas escuras, fora colocado no epicentro de um furacão bancário para que a corretora batesse suas metas.

Ao sair do trabalho na repartição pública, o porto seguro da sua estabilidade profissional, ele sentiu o peso da frustração. No caminho para casa, enquanto o sol se punha sobre a rotina que ele tanto protegia, o celular vibrou. Era o assessor. Com a mesma voz aveludada de sempre, o profissional ligava para dizer que tinha um “excelente negócio” para ele aplicar o dinheiro que acabara de receber do FGC. O ciclo da promessa fácil recomeçava, pronto para devorar mais um pedaço de sua tranquilidade com novas ofertas sedutoras.

Não podemos dar um nome único ao nosso Pacato Cidadão porque ele não é um indivíduo isolado. São milhares de brasileiros e brasileiras, empanturrados com CDBs do Master por profissionais que priorizaram comissões em detrimento da ética. Da mesma forma, não é possível nomear apenas uma instituição financeira, pois foram várias as que operaram nesse limite cinzento da responsabilidade fiduciária, transformando o investidor conservador em um peão de um jogo de alto risco que ele nunca quis jogar.

Este texto é um enxerto do livro “A Grande Mentira”, mesmo nome da série que lançamos em novembro, onde denunciamos o esvaziamento da CVM e do Banco Central, além de narrar o crescimento exponencial de fraudes financeiras nos últimos anos. Antes que o escândalo Master explodisse por completo, os sinais já estavam lá para quem quisesse ver. Na série contamos vários casos, entre eles os COEs da Ambipar, que não tinham prote;cão do FGC. Veja mais detalhes no vídeo abaixo. Você, que é assinante da revista Legado, receberá em breve o seu exemplar autografado, um guia necessário para não cair nas armadilhas de quem promete lucros fáceis para quem só quer dormir tranquilo.

 

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