Prédio do Banco Central do Brasil | Foto: Raphael Ribeiro/BCB
Mercado Financeiro
Estamos diante de um divisor de águas. Teremos, inevitavelmente, um mercado financeiro “antes e depois do Master”. O desfecho deste caso revelará se o Brasil é uma economia séria ou se sucumbiu ao coronelismo financeiro
O Brasil dos últimos anos nos testou à exaustão. Assistimos a um desfile de absurdos que desafiam a lógica e a ética. Vimos de tudo: boicote a vacinas, desvio de respiradores, tentativas de golpe e articulações externas contra o próprio país. Esses episódios não foram triviais. Se não foram todos tipificados como crimes, certamente orbitaram a fronteira da lei. No entanto, o caso Banco Master consegue superar esses precedentes. Ele é o exemplo mais flagrante de como os tentáculos do dinheiro e do poder político se misturam para sufocar o Estado.
Neste momento, o alvo não é apenas uma instituição financeira. O alvo é a integridade do Banco Central do Brasil. O que vemos agora é um ataque frontal à autonomia e ao corpo técnico da autoridade monetária. Grupos de pressão tentam dobrar as normas e intimidar servidores que zelam pela estabilidade do sistema.
Se essa blindagem técnica romper, o país mergulha no limbo do que chamo de “institucionalidade de fachada”. Nesse cenário, a regra do jogo muda conforme o tamanho do cheque. É um retrocesso perigoso que nos aproxima de um feudalismo financeiro moderno.
Surpreendentemente, a polarização política atua como a melhor aliada deste escândalo. Enquanto as militâncias se digladiam por pautas ideológicas, o Banco Master transita livremente pelos corredores de Brasília. Isso ocorre porque se operou um lobby suprapartidário extremamente eficaz.
De um lado, o banco financiou setores da direita e do Centrão. De outro, infiltrou-se em estruturas do atual governo e do Judiciário como um suposto “investidor estratégico”. Por causa disso, o silêncio é geral. A direita teme expor suas conexões com o banqueiro da Faria Lima. A esquerda evita tocar em uma ferida que envolve figuras do alto escalão da República. Assim, a briga ideológica serve apenas para ocultar o silêncio da corrupção estrutural.
Não se engane: essa promiscuidade institucional tem preço. A economia vive de confiança. Se a integridade do BC sofrer abalos, a conta chegará rápido para o cidadão comum. O esperado afrouxamento monetário do primeiro semestre pode simplesmente virar fumaça.
Além disso, a instabilidade gera um efeito dominó imediato: o dólar sobe e os juros sobem. Pode apostar nisso. Somado a isso, temos o estrago no Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O fundo ainda não indenizou devidamente os aplicadores de CDB do Master, o que abala a confiança no porto seguro do pequeno investidor.
Estamos diante de um divisor de águas. Teremos, inevitavelmente, um mercado financeiro “antes e depois do Master”. O desfecho deste caso revelará se o Brasil é uma economia séria ou se sucumbiu ao coronelismo financeiro. Cabe a nós vigiar e cobrar. Precisamos de um mercado blindado contra ataques políticos e corrupção. A alternativa é o caos e a irrelevância econômica.