POLÍTICAS PÚBLICAS
Essa política de “doutores a qualquer custo” é puro populismo. É cara, drena recursos públicos e transfere a renda das famílias direto para o bolso dos tubarões do ensino
Vamos ser francos. Havia uma expectativa, talvez ingênua da nossa parte, admito, de que um governo de esquerda fizesse algo além de apenas espanar a poeira da mobília do status quo.
Ninguém aqui estava pedindo a tomada do Palácio ou a expropriação do seu jardim. Mas esperava-se, no mínimo, uma certa reforma na velha estrutura de pensamento e produção que rege a economia brasileira há décadas. Sabe, aquela coragem de questionar um modelo que já provou ser tão eficiente no combate à desigualdade quanto um garfo para tomar sopa.
O que vimos, no entanto, foi a continuidade. O discurso mudou, é claro, ficou mais bonito, mais social, mas as velhas engrenagens e vícios continuam lá, rodando a todo vapor e fazendo o mesmo barulho de sempre.
O exército de jalecos
Um exemplo cristalino dessa contradição? A proliferação desenfreada de faculdades de medicina. Vende-se isso como “democratização”, uma palavra adorável que os políticos usam quando querem evitar dizer “negócio lucrativo”. Assim, o resultado, infelizmente, é o oposto do rótulo: o abismo da desigualdade só aumenta.
Como bem notou o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (em entrevista ao MyNews), o Brasil agora opera com duas medicinas. Temos a medicina de elite, nos grandes centros, equipada e competente; e temos a medicina do “boa sorte”, precária, onde o erro médico é um risco ocupacional elevado e a formação deixa, digamos, a desejar.
Essa política de “doutores a qualquer custo” é puro populismo. É cara, drena recursos públicos e transfere a renda das famílias direto para o bolso dos tubarões do ensino. E resolve o problema da saúde pública? Claro que não. Apenas cria um exército de profissionais mal formados disputando espaço e preço, enquanto o restante da cadeia de saúde continua sendo tratado como nota de rodapé.
A hierarquia e o fetiche
Seria muito mais eficiente, e infinitamente mais justo, atacar a estrutura hierárquica que sustenta essa bagunça. Por que não reduzir o abismo salarial entre médicos, enfermeiros e auxiliares? Afinal, o hospital não funciona se um deles faltar. E se mais recursos fossem drenados para universidades públicas? E se estudantes mais abastados pagassem para o Estado? Tem alguém pensando mais seriamente no tema?
Mas, como observou Ligia Bahia, especialista no tema, sofremos no Brasil de um verdadeiro fetiche pela medicina. Existe essa crença quase religiosa de que o “Doutor” é uma casta superior, que estudou mais e merece todas as honrarias. A ironia suprema é que hoje talvez você encontre mais doutores (aqueles que realmente fizeram doutorado acadêmico) trocando curativos na enfermagem do que prescrevendo receitas no consultório.
A pílula amarga
Agora, por favor, abaixem as foices. Não sou comunista, não quero estatizar a padaria da esquina. Mas é impossível ignorar que este modelo falhou na sua promessa básica de reduzir desigualdades.
Em suma, Brasil precisa abandonar o populismo, seja ele destro ou canhoto. A verdade inconveniente é que medidas capazes de enriquecer o país e melhorar a vida das pessoas são, quase sempre, impopulares. Repito: impopulares.
E é aí que a porca torce o rabo. Pois, tomar medidas impopulares exige governar olhando para o futuro, e não para a próxima pesquisa eleitoral. Mas pedir isso talvez já seja exigir demais da nossa classe política, não é mesmo?