Luxo, corrupção e fome estão entre os pilares para o fim de uma Era
Irã
Enquanto a elite se isola em condomínios luxuosos, o Irã preenche os requisitos para uma revolução, mas esbarra no dilema da interferência estrangeira
Em janeiro de 2023, caminhei pela Trafalgar Square, em Londres quando vi um protesto modesto de iranianos bem próximo à National Gallery. Eles montaram tendas e caminhavam nos arredores com bandeiras do Irã, fotos do antigo Xá e livros sobre a história do país. O grupo pedia o fim do regime dos aiatolás. Aquele ato ocorria logo após a morte de Mahsa Amini, em setembro de 2022. A jovem de 22 anos morreu após a “polícia da moralidade” a deter por não usar o hijab corretamente. Aquele pequeno movimento em Londres ecoava uma revolta muito maior.
A cena dos exilados me remeteu à história do próprio aiatolá Khomeini. Ele também liderou uma revolução vivendo fora do Irã. Contudo, minha experiência no país anos antes me deu outra certeza: a próxima revolução viria pelas mãos das mulheres. Naquela viagem, percebi a economia em frangalhos e a revolta contra a corrupção e opressão contra mulheres. Vi que a guarda imperial vive em condomínios de luxo enquanto o povo sofre, um alimento poderoso para a revolução que há anos vem sendo gestada no Irã.
Para entender o cenário, recorremos à ciência política. Os professores Jack A. Goldstone e Karim Sadjadpour explicam, na The Atlantic, que regimes não caem por falhas isoladas. Eles colapsam por uma “confluência fatal de estressores”. Cinco pilares sustentam uma revolução vitoriosa, segundo eles: crise fiscal, elites divididas, oposição diversificada, narrativa forte e apoio internacional. Atualmente, o Irã preenche quase todos esses requisitos.
Primeiramente, a crise fiscal é devastadora. A inflação passa de 50% e a moeda perdeu 99% de seu valor desde 1979. Ao mesmo tempo, a estrutura política apodrece. A elite se fechou em torno de Ali Khamenei, excluindo técnicos competentes. A Guarda Revolucionária agora opera como máfias focadas no lucro próprio. Essa hipocrisia une grupos diferentes, desde o comerciante do bazar até o trabalhador mais pobre.
Além disso, a narrativa de resistência mudou. Os iranianos agora clamam por uma “vida normal” e pelo nacionalismo, abandonando a ideologia religiosa do governo. Por outro lado, o cenário internacional é hostil ao regime. O Irã está isolado. Perdeu força com o enfraquecimento de seus aliados regionais, como o Hamas e o Hezbollah. Sem parceiros globais, o governo fica exposto e vulnerável.
Consequentemente, analistas definem a República Islâmica como um “regime zumbi”. Sua legitimidade e sua economia já morreram. O sistema sobrevive apenas pela força bruta. Quando as cinco condições de Goldstone e Sadjadpour se encontram, os mecanismos de ordem param de funcionar. A sobrevivência do regime depende agora apenas da disposição das forças de segurança em continuar matando para proteger um sistema falido.
De fato, a opulência do poder em meio à miséria é um gatilho revolucionário universal. Visitei a antiga casa do Xá Reza Pahlevi. Era uma mansão em um jardim colossal, uma palavra pequena para tamanha imensidão. Aquele isolamento impediu o Xá de enxergar a revolução que crescia fora dos muros. Hoje, a história se repete. A nova elite se esconde em condomínios de luxo e ignora a fúria que ferve nas ruas.
No entanto, a imprensa internacional aponta um obstáculo importante. Alguns analistas dizem que falta suporte americano para a revolução avançar. Outros afirmam que a presença dos EUA e de Israel atrapalha o movimento. Um iraniano em Teerã resume o dilema: o povo quer mudança, mas rejeita a interferência estrangeira. Eles temem que espiões externos desvirtuem a causa nacional. Portanto, a grande dúvida permanece: até que ponto o apoio externo ajuda ou sabota o sonho de liberdade do povo iraniano?