O nó dos juros que Lula não quis desatar e alimenta rentistas Eleições

O nó dos juros que Lula não quis desatar e alimenta rentistas

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Enquanto o governo acelera os gastos e o Banco Central pisa no freio, os juros altos devoram o orçamento e mantêm o bolsonarismo vivo no calcanhar do Planalto

Lula não é o pai dos pobres. Na verdade, ao analisarmos os números friamente, ele se revela como o pai dos rentistas. Essa afirmação pode soar forte, mas os dados fiscais não mentem.

Atualmente, o nosso déficit nominal gira em torno de 8% do PIB. Para o cidadão comum, esse número parece apenas uma abstração estatística. No entanto, a decomposição desse buraco revela a verdadeira tragédia brasileira. Desse total, apenas 0,5% do PIB é o chamado déficit primário, ou seja, o que o governo gasta a mais do que arrecada com serviços e obras.

Portanto, faça você mesmo as contas. Se o déficit nominal é de 8% e o gasto real é de apenas 0,5%, o restante,  impressionantes 7,5% do PIB é destinado exclusivamente ao pagamento de juros da dívida. É uma transferência massiva de riqueza de quem produz para quem apenas detém capital. Longe de ser uma acusação deliberada, é possível que nem o próprio presidente se dê conta dessa ironia cruel.

O ativismo de Dino e a inércia de Haddad

A raiz de todos os grandes problemas nacionais hoje é a taxa de juros em patamares indecentes há décadas. Contudo, o combustível para esse cenário é a brutal bagunça no orçamento brasileiro.

Nesse contexto, surge um fato inusitado. O ministro Flávio Dino tem feito mais para derrubar a taxa de juros do que o ministro Haddad ou o próprio governo. Mesmo com limitações institucionais, Dino atacou a “orgia” das emendas parlamentares e, agora, mira os penduricalhos do Judiciário.

É pouco? Sim, é muito pouco. Todavia, é um movimento de ordem que o Executivo parece ignorar. Precisamos urgentemente de uma grande reforma para organizar as contas públicas, mas o governo prefere o caminho da confusão. E mira apenas em entregar a meta fiscal a qualquer custo, fazendo puxadinhos e não reformas.

Lula venceu as eleições sob o signo da frente ampla. Ele atraiu até quem discordava de suas ideias, mas via nele um respeito às instituições que a extrema direita ameaçava ruir. Foi o voto de sobrevivência em nome da estabilidade democrática.

Contudo, de que adiantou o verniz institucional se chegamos ao último ano de mandato com o bolsonarismo novamente nos calcanhares? Embora Lula possua, de fato, uma cabeça institucional superior à de seu antecessor, ele caminha para o fim deste ciclo assombrado pelo mesmo fantasma que prometeu exorcizar.

O erro foi subestimar que a melhor defesa da democracia é uma economia saudável. Ao manter o nó dos juros indecentes, que estrangula o pequeno empresário e massacra as famílias, Lula deixou o flanco aberto. O resultado é amargo: a política mudou de mãos, mas o motor econômico continua fundido.

O carro com o pé no acelerador e no freio

O modelo atual é uma esquizofrenia econômica explícita. De um lado, o governo pisa no acelerador dos gastos e das promessas populistas. Do outro, o Banco Central é obrigado a pisar no freio para conter a inflação.

Experimente fazer isso com seu carro. O pneu queima e o motor funde. Na economia brasileira, quem está queimando somos nós. Lula apostou em medidas como a isenção do IR até R$ 5 mil, mas isso não trouxe a avalanche de votos esperada. Em vez disso, apenas deixou a conta fiscal ainda mais caótica.

O Brasil precisa de alguém que pense o orçamento com seriedade. O economista André Lara Resende apresentou propostas robustas, mas não foi ouvido nem pelo governo que o convidou para a equipe de transição. O especial do MyNews sobre o “Raio-X da Dívida” mostra que o governo que encarar este problema estará, finalmente, colocando a mão na massa.

O caminho de aumentar impostos já se esgotou. A solução não virá de mais arrecadação, mas sim de coragem para enfrentar a engrenagem que sustenta os juros altos.

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