Fachada do palácio do Supremo Tribunal Federal (STF) | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil - 11/04/2023
Milhões
Para comprar a mansão do ministro Lewandowski, o brasileiro comum precisaria de 42 anos de jejum financeiro e uma disciplina de monge
Seriam necessários mais de 40 anos, exatos 511 meses, de aportes ininterruptos para chegar a R$ 9,4 milhões. Se você sonha com uma casa igual à do ministro Ricardo Lewandowski, prepare-se. Economize R$ 4 mil todo santo mês com a disciplina de um monge. Aplique tudo a uma taxa de 0,5% mensal. Esqueça o cafezinho, as férias e os boletos. Gastamos esse tempo com a calculadora na mão porque nós, meros mortais, precisamos de um mapa para entender o país dos milhões. O “milhão” brota nas manchetes da cúpula do Judiciário com uma facilidade que a aritmética do seu contracheque teima em ignorar.
O susto é aritmético
O espanto é puramente matemático. A conta é simples. Lewandowski passou 17 anos no STF. O teto salarial lá é de R$ 46 mil. Se o investidor com o mesmo salário poupar 5% do líquido, o prazo para a mansão à vista sobe para 54 anos. O ministro tem 77 anos de idade. Portanto, ele teria que ter começado a “caixinha” aos 23 anos. Precisaria atravessar planos econômicos e hiperinflação sem nunca resgatar um centavo. Enfim, é um fenômeno financeiro. Os gurus da Faria Lima teriam aulas com ele. Para nós mortais, o teto constitucional parece, portanto, apenas um trampolim para saltos ornamentais muito mais altos.
Mas há um porém
O currículo de Lewandowski é um hino ao serviço público. Ele advogou entre 1974 e 1990. Depois, ocupou cargos em São Bernardo e na Emplasa, a Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano, um órgão técnico do governo do Estado de São Paulo, fundado em 1975 e extinto em 2019. Construiu a carreira na magistratura. Ademais, começou no Tribunal de Alçada por indicação de Orestes Quércia. Chegou ao topo da pirâmide jurídica no STF em 2006. A defesa jura que uma empresa familiar fez a compra dentro da lei. Mas o mistério teima em rondar nossa mente de classe média que se desdobra em cálculos para alcançar os exuberantes milhões. Em suma, essa engenharia patrimonial faz a lei da gravidade parecer mera sugestão.
O enredo termina com um deboche do destino. Pois, o imóvel pertencia a um empresário que a Polícia Federal investiga por sonegação bilionária. É, portanto, o toque final de ironia. O ministro adquire o refúgio de um alvo da lei com leveza. Enquanto o brasileiro comum reza para quitar o financiamento em três décadas.