Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Escândalos financeiros
Estruturas de corrupção transformaram-se em mecanismos de captura de renda da previdência com a cumplicidade da direita e da esquerda
Há um traço comum que une alguns dos maiores escândalos financeiros do país: todos orbitam em torno do mesmo alvo preferencial, o aposentado. Seja pelo contracheque do INSS ou pelo cofre dos fundos de previdência dos servidores públicos, o dinheiro de quem trabalhou a vida inteira virou território fértil para oportunistas, operadores pouco escrupulosos e estruturas inteiras dedicadas a capturar esses recursos. Podemos elencar ainda outros caminhos, como a fraude com debêntures da Petragold que atingiu economias que visavam a aposentadoria ou mesmo os empréstimos consignados que muitas vezes ultrapassam a margem permitida por lei. A verdade é: todos querem o dinheiro do aposentado.
O caso que hoje movimenta uma CPI no Congresso é exemplar. Durante anos, alguns sindicatos passaram a fazer descontos compulsórios diretamente nos benefícios do INSS, muitas vezes sem autorização dos aposentados. Era um negócio da China: milhares de pequenos débitos pingando todo mês, silenciosamente, para entidades que deveriam representar trabalhadores. Em vez disso, descobriram um filão fácil no extrato de quem recebe aposentadoria.
Se isso já seria grave o suficiente, o escândalo do Banco Master acrescenta outra camada de indignação. Ali, a porta de entrada não foi o desconto no benefício, foi a imprudência institucionalizada dos fundos de previdência de regimes próprios, que administram o futuro financeiro de servidores públicos. Esses fundos, como se sabe, são responsáveis por recursos bilionários, e deveriam ser administrados com rigor quase cirúrgico. Deveriam, mas não foram.
Apesar de alertas formais, análises técnicas e, como revelou o deputado Flavio Serafini na série A Grande Mentira, exibida pelo canal MyNews, advertências diretas sobre os problemas do Banco Master, muitos desses fundos continuaram se lambuzando em títulos de crédito da instituição. Compraram, recompraram, aumentaram exposição e seguiram adiante como se nada estivesse acontecendo. Agora, com o rombo exposto, quem vai pagar a conta? Exatamente: os aposentados e servidores que dependem desses fundos para receber seus benefícios no futuro.
Nos dois escândalos, o enredo é perversamente parecido: estruturas que deveriam proteger trabalhadores e aposentados transformaram-se em mecanismos de captura de renda. O desconto compulsório sem autorização é primo-irmão da compra irresponsável de títulos que já levantavam suspeitas. Em ambos os casos, quem deveria zelar virou risco. Quem deveria fiscalizar cochilou. E quem sempre paga é o mesmo grupo: o aposentado.
O Brasil é pródigo em narrativas que se repetem com novos personagens. Mas há uma constante: a fome pelo dinheiro do aposentado é sempre maior do que o apetite por responsabilidade. Se o país quiser levar a sério a proteção previdenciária, pública ou de regimes próprios, não basta CPI, não basta indignação pontual. É necessário mexer no tripé que sustenta esses escândalos: opacidade, captura e impunidade.
Até lá, será difícil escapar da sensação incômoda de que, nesse jogo financeiro brasileiro, o aposentado continua sendo o troféu mais fácil. E o mais cobiçado. E aqui acrescente-se a o fermento que faz esse bolo crescer: a forte influência política, à esquerda e à direita.