EUA
Trump percebeu que o “Sonho Americano” enfrenta um colapso estrutural. O salário mínimo estagnado e o mercado imobiliário inflacionado empurraram a classe média para o abismo das dívidas
O mercado financeiro brasileiro reagiu rápido. Já circulam nos grupos de mensagens da Faria Lima o apelido irônico de “TrumPetista” para o atual ocupante da Casa Branca. A piada surgiu após o post bombástico de Donald Trump contra as operadoras de cartão de crédito. A medida lembra as intervenções econômicas de governos de esquerda, e a ironia ganha popularidade especialmente após a conversa amistosa entre Trump e o presidente Lula.
Contudo, a realidade é mais complexa. O movimento de Trump não reflete uma mudança ideológica. Na verdade, a proposta nasce da deterioração profunda da economia das famílias americanas, que afeta sua popularidade. O sistema atual simplesmente não fecha mais a conta no final do mês.
Pela rede social X, Trump disparou:
“Por favor, fiquem informados de que não permitiremos mais que o público americano seja ‘lesado’ por empresas de cartão de crédito que estão cobrando taxas de juros de 20 a 30%, e até mais, que prosperaram sem obstáculos durante a administração do Sonolento Joe Biden. ACESSIBILIDADE! A partir de 20 de janeiro de 2026, eu, como Presidente dos Estados Unidos, estou propondo um limite de um ano nas taxas de juros de cartão de crédito de 10%. Coincidentemente, a data de 20 de janeiro coincidirá com o aniversário de um ano da histórica e muito bem-sucedida administração Trump. Obrigado pela sua atenção a este assunto. FAÇA A AMÉRICA GRANDE DE NOVO!”
Para entender o “TrumPetismo” na prática, precisamos olhar além dos lucros de Wall Street. A chave está no conceito ALICE, que Luciana Bauer detalha em seu livro Capitalismo de Extinção.
ALICE significa Asset Limited, Income Constrained, Employed (Com poucos ativos, renda limitada, mas empregados). Portanto, não estamos falando de desempregados. Esse grupo engloba famílias que trabalham duro, mas não ganham o suficiente para cobrir o custo real de vida.
O relatório da United Way utiliza dados do U.S. Census Bureau para expor essa ferida. Ele revela que a linha de pobreza oficial dos EUA é artificialmente baixa. Assim, milhões de famílias que o governo classifica como “não pobres” vivem em insegurança constante.
O relatório calcula o chamado Household Survival Budget. Esse índice inclui apenas o essencial: moradia, comida, transporte e saúde. Consequentemente, não sobra dinheiro para lazer, poupança ou qualquer emergência.
No coração do Trumpismo, a situação assusta. Mais de 40% dos domicílios são ALICE ou vivem abaixo da linha de pobreza. Quando o salário não cobre o básico, o cartão de crédito vira sobrevivência. Por isso, juros de 30% ao ano tornam-se insustentáveis.
Trump percebeu que o “Sonho Americano” enfrenta um colapso estrutural. O salário mínimo estagnado e o mercado imobiliário inflacionado empurraram a classe média para o abismo das dívidas.
Dessa forma, ao propor o teto de 10%, o presidente tenta desarmar uma bomba social. Pode soar como “petismo” para os ouvidos da Faria Lima. No entanto, para o eleitor que trabalha 40 horas semanais e ainda deve o triplo do que ganha, a medida parece ser o único fôlego antes da asfixia financeira.