Urna eletrônica utilizada nas eleições | Foto: José Cruz/Agência Brasil
A cinco dias do segundo turno, a eleição segue empatada na margem de erro, com Flávio Bolsonaro ainda em vantagem numérica sobre Lula. A recuperação do presidente na última semana reduziu a distância entre os candidatos e abriu a possibilidade de uma votação decidida por uma diferença entre 500 mil e um milhão de votos. […]
A cinco dias do segundo turno, a eleição segue empatada na margem de erro, com Flávio Bolsonaro ainda em vantagem numérica sobre Lula. A recuperação do presidente na última semana reduziu a distância entre os candidatos e abriu a possibilidade de uma votação decidida por uma diferença entre 500 mil e um milhão de votos. Embora o tempo seja o principal adversário de Lula, uma virada não pode ser descartada.
Quatro vetores serão decisivos até domingo: a velocidade de crescimento de Lula, a capacidade de Flávio de preservar sua vantagem, a mobilização dos eleitores e o desempenho dos candidatos no último debate.
O primeiro vetor é a trajetória de crescimento de Lula. Depois de um primeiro turno marcado pela desorganização da comunicação digital e pela subestimação da competitividade de Flávio, a campanha governista finalmente conseguiu mobilizar a militância nas redes e nas ruas.
A entrada de André Janones deu à campanha uma estrutura de distribuição de conteúdos que não existia no primeiro turno. O chamado Exército do Lula, com cerca de 5 milhões de participantes, passou a coordenar a divulgação de vídeos e mensagens, melhorando o desempenho digital do presidente.
A mobilização virtual ganhou as ruas. Depois de perder para o campo conservador o protagonismo nas manifestações a partir de 2013, a esquerda voltou a ocupar esse espaço com intensidade surpreendente. Lula conseguiu reproduzir um mecanismo que o bolsonarismo explora há anos: transformar engajamento digital em mobilização presencial.
O movimento ajuda a explicar a recuperação do presidente, mas veio tarde. Se a reorganização tivesse começado meses antes, o cenário poderia ser diferente. Agora, resta saber se Lula conseguirá manter a velocidade de crescimento e ultrapassar Flávio nos poucos dias restantes.
A internação de Janones na UTI acrescentou uma dificuldade justamente quando a operação digital começava a produzir resultados. Manter o ritmo de mobilização sem seu principal coordenador será um teste importante. Para virar a eleição, Lula precisará não apenas continuar crescendo, mas também desconstruir a imagem de Flávio, retirando votos do adversário ou desestimulando parte de seu eleitorado a comparecer às urnas.
O segundo vetor é a capacidade de Flávio de administrar a vantagem. O candidato conta com uma estrutura política relevante, especialmente no Sudeste, onde Tarcísio de Freitas, Cleitinho e Nikolas Ferreira participam ativamente da campanha. A atuação dessas lideranças, inclusive fora de seus estados, amplia sua capacidade de mobilização.
O debate da Band mostrou uma campanha mais preparada para a lógica dos cortes nas redes sociais. Flávio explorou melhor os enquadramentos das câmeras e a movimentação no estúdio, mas sua postura de deboche pode ampliar a rejeição entre os eleitores moderados.
Lula demonstrou irritação com o adversário e dificuldade para seguir as orientações da equipe. O confronto foi pouco propositivo, com os dois candidatos mais preocupados em ampliar a rejeição do adversário do que em conquistar novos votos.
O terceiro vetor é o comportamento do eleitorado ainda disponível. A polarização reduziu o contingente de indecisos, estimado entre 5% e 7%, mas não eliminou sua importância. Parte desse eleitorado tem baixa disposição para comparecer às urnas.
Numa eleição tão apertada, conquistar novos apoios não será suficiente. A mobilização das bases e a abstenção poderão ser decisivas. Para Flávio, evitar a sensação de vitória antecipada é essencial. Para Lula, a recuperação da aprovação do governo pode indicar maior capacidade de atrair os eleitores que ainda estão em disputa.
Mais do que oscilações pontuais nas pesquisas, será importante observar se a melhora na avaliação do presidente se sustenta e se transforma em intenção de voto.
O quarto vetor é o debate da Globo. O confronto será o último grande teste antes da votação. Depois da experiência na Band, as campanhas conhecem melhor as fragilidades dos adversários e poderão ajustar suas estratégias.
Flávio precisa evitar que sua postura seja percebida como desrespeitosa, enquanto Lula terá de controlar a irritação e se adaptar melhor à dinâmica audiovisual. Numa disputa que pode ser decidida por algumas centenas de milhares de votos, um erro pode custar caro.