Velha e louca, vítima não SOM NA CAIXA

Velha e louca, vítima não

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Mary del Priore desmonta o mito da “melhor idade” e mostra que a verdadeira liberdade nasce da autonomia financeira e da coragem de mandar as expectativas alheias para o espaço

Som na caixa, pessoal, porque o tempo não para. Se tivermos sorte, somos todos velhos ou estamos a caminho de ser. Esqueça aquela imagem melancólica do século XIX ou o saudosismo triste do passado. Arnaldo Antunes diz que envelhecer é a coisa mais moderna que existe. Por isso, a historiadora Mary del Priore traz uma conversa vibrante e sem papas na língua. Ela nos lembra que a velhice não é uma “melhor idade” açucarada com dor no joelho. Na verdade, o envelhecimento representa uma conquista histórica de sobrevivência em um país que ignora o passar dos anos.

Mary é autora do livro “Uma História da Velhice no Brasil”onde apresenta dados sérios sobre a longevidade no Brasil. Desde o século XVI, jesuítas já relatavam indígenas centenários ativos. Eles atribuíam essa saúde ao clima, à boa água e ao trabalho físico intenso.  A historiadora alerta para a necessidade de protagonismo. Ela combate o “vitimismo” que retira a força do indivíduo. Afinal, o cidadão comum realiza um ato heroico de resistência ao envelhecer em uma sociedade desigual.

Por outro lado, a realidade econômica impõe desafios pesados. O Brasil ficou velho antes de ficar rico. Mary destaca conquistas fundamentais como o SUS e o SESC. O SESC, inclusive, combate a solidão da “poltrona de TV”, um dos grandes riscos no envelhecimento, e promove a socialização, o maior investimento. Entretanto, a falta de planejamento financeiro e o abandono familiar geram gargalos críticos. Hoje, as famílias são plurais e a rede de apoio tradicional muitas vezes desaparece. Esse cenário exige que a sociedade civil pense em soluções urgentes. Não podemos apenas esperar as atitudes do governo.

Mary incentiva as mulheres a priorizarem a autonomia financeira e os próprios desejos. Nesse sentido, a “loucura boa” da velhice surge como uma libertação. Trata-se da coragem de não se importar com as expectativas alheias. Assim, as mulheres valorizam a sororidade e o autoconhecimento acumulado na estrada.

Finalmente, a historiadora propõe um debate corajoso sobre a “revolução da morte”. O colapso demográfico forçará o sistema de saúde a discutir a morte assistida em poucas décadas. Mary encara esse tema como o exercício máximo da liberdade individual e não como algo sombrio. O recado final é direto e claro. Para envelhecer bem, você precisa sair da frente da tela. Engaje-se em projetos coletivos e use sua experiência para ser útil. Em suma, transforme o tempo em um banquete de autenticidade.