Revelação de que houve gravação ilegal em reunião dos ministros, agrava clima no STF ! Foto: Evandro Éboli / MyNews
ARAPONGAGEM
Clima no STF é o pior possível e de apreensão com o seguimento da pauta da Corte; como vão se olhar e comportar lado a lado a partir de agora
Corria o ano de 2019 quando a bancada do PSL na Câmara, partido que elegeu Jair Bolsonaro um ano antes, se viu envolta em um caso de polícia. Um deputado gravou uma reunião do grupo, fechada, e a tornou pública. Acusado de autor do “grampo”, o barulhento Daniel Silveira (PSL-RJ) – condenado a nove anos de cadeia pelo STF por ataques antidemocráticos – tinha o propósito de derrubar o colega Delegado Waldir (GO) da liderança da legenda.
Na tal reunião, Waldir criticou Bolsonaro, o chamou de “vagabundo” e que iria “implodi-lo”. Dois anos depois, em 2021, o Conselho de Ética da Câmara aprovou a suspensão de Silveira por dois meses pela “arapongagem”. Entendeu o relator do caso, Alexandre Leite (DEM-SP), que o autor não “zelou pelo estado democrático de direito” e criticou a utilização de “gravações clandestinas como instrumento de denúncia ou de arapongagem”.
Agora, troquem as personagens da estridente bancada do PSL por ministros da STF, último bastião da defesa da democracia e do zelo pela Constituição, na reunião da última quinta-feira, que definiu o destino de Dias Toffoli na relatoria do rumoroso Banco Master.
É algo inédito e impensável que juízes da mais alta Corte e do tamanho da responsabilidade, que salvaram a democracia de um recente atentado de golpe de Estado, estejam em condições semelhantes a essa relatada. A baixeza e a vilania política chegou ao Supremo.
Revelado pelo site “Poder 360”, declarações literais de quase todos os ministros aparecem na gravação. Alguns curtos exemplos: Alexandre de Moraes chamou de “absurdo” a investigação da Polícia Federal contra um ministro do STF sem autorização; Toffoli afirmou que discutir sua continuação no caso “olhos nos olhos” de Edson Fachin, presidente da Corte, e não “ter nada a temer”; Gilmar Mendes diz que, por trás disso, a PF, com seu relatório de 200 páginas, “quis revidar” Toffoli pelas medidas do ministro no caso.
Seguem outros exemplos. Cármen Lúcia: “todo taxista que pego fala mal do STF”; Nunes Marques: “Para mim, (o caso) é um nada jurídico”; Luiz Fux: “Acabou, não sei o que estão discutindo”, a favor de Toffoli. André Mendonça: ” relação íntima em 6 anos só com 6 minutos de conversa? Como disse o ministro Fux, a palavra do ministro Toffoli tem fé pública. Então, isso está descartado”.
A crise está instalada no STF, que tem pela frente casos de alta relevância para tratar, como a revisão da Lei da Anistia para crimes da ditadura e julgamento dos cinco acusados pelo assassinato de Marielle Franco e de seu motorista Anderson Torres. Questão agora é como vai sentar um do lado do outro com a desconfiança de que um deles fez uma gravação clandestina. Como disse o relator do caso do PSL, uma “arapongagem”.