Não há folga eleitoral: polarização limita capital político de quem vencer a disputa Imagem feita com IA Jornal Do MyNews

Não há folga eleitoral: polarização limita capital político de quem vencer a disputa

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Cientista político avalia que a divisão do eleitorado, o fortalecimento da direita radical e a perda de espaço da direita moderada dificultam a governabilidade no Brasil.

A polarização política brasileira deve impor limites ao próximo presidente, independentemente de quem vença a eleição. A avaliação é de André Kaysel, professor doutor do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Para o cientista político, a sociedade está dividida, enquanto o Legislativo apresenta predominância da direita.

No Executivo, por sua vez, a disputa permanece equilibrada entre os dois campos políticos. Nesse cenário, quem assumir a Presidência terá capital político limitado para implementar sua agenda. Assim, a vitória eleitoral não representa necessariamente força suficiente para governar sem enfrentar resistências.

Polarização não é exclusividade do Brasil

Segundo Kaysel, eleições acirradas também aparecem em outras democracias representativas. Países como Colômbia e Peru enfrentaram disputas eleitorais marcadas por divisões políticas profundas. Além disso, a eleição presidencial dos Estados Unidos em 2020, vencida por Joe Biden, também evidenciou uma sociedade politicamente dividida.

Para o professor, a volatilidade da opinião pública é uma característica importante do período atual. Ao mesmo tempo, o antagonismo entre grupos políticos tem aumentado, o que dificulta a construção de consensos.

Nesse contexto, Kaysel recomenda cautela ao classificar os diferentes campos políticos como extremistas. A análise exige observar as propostas, as posições ideológicas e as práticas de cada grupo, em vez de recorrer a rótulos generalizantes.

Direita radical ganha espaço e direita moderada perde força

Outro ponto destacado pelo cientista político é o desequilíbrio entre as correntes da direita brasileira. Na avaliação dele, propostas associadas à direita radical têm ganhado força, enquanto a direita moderada perde espaço.

Esse movimento altera a dinâmica da disputa política. Afinal, a expansão de posições mais radicais pode reduzir o espaço para articulações moderadas e dificultar acordos entre diferentes grupos.

Kaysel também caracteriza o governo Lula como uma gestão de centro-esquerda moderada. As alianças políticas do presidente, incluindo a presença de Geraldo Alckmin na composição do governo, ilustram a busca por interlocução com setores que não pertencem tradicionalmente ao núcleo do PT.

Entretanto, essas alianças não eliminam as tensões presentes no sistema político. O governo precisa negociar com um Congresso em que a direita tem presença expressiva, o que limita sua capacidade de avançar em determinadas pautas.

Disputa política também envolve o direito à participação

Kaysel chama a atenção para propostas e posicionamentos que questionam a própria participação política. Nesse debate, ele menciona o exemplo de um personagem identificado como Campopiano, associado a posições contrárias ao sufrágio e ao direito de participação na política.

A contradição apontada está na defesa de restrições à participação democrática por alguém que atua no próprio debate público. Para o professor, esse tipo de posicionamento ajuda a ilustrar as tensões existentes entre diferentes concepções de democracia.

A comparação também levanta uma questão sobre a agenda da direita brasileira: quais propostas sociais e econômicas ocupam espaço no debate e quais acabam ficando em segundo plano? Entre os exemplos de pautas que poderiam integrar essa discussão está a reforma agrária, historicamente presente em diferentes correntes do pensamento político brasileiro.

Vitória nas urnas não garante governabilidade

A análise de Kaysel aponta que a disputa eleitoral brasileira ocorre em um ambiente de forte divisão política. Ao mesmo tempo, o predomínio da direita no Legislativo e a polarização no Executivo criam obstáculos para a construção de maiorias estáveis.

Por isso, o resultado das urnas não encerra o conflito entre os diferentes campos políticos. Pelo contrário, o próximo presidente terá de negociar com forças divergentes e enfrentar uma opinião pública sujeita a mudanças.

Nesse cenário, a capacidade de articulação política será fundamental. Mais do que conquistar votos, o vencedor precisará construir apoio para suas propostas em um país marcado pelo antagonismo e pela dificuldade de estabelecer consensos.

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