INVESTIMENTOS
Levantamento mostra como integrantes do Judiciário e do Legislativo acumulam patrimônios de luxo incompatíveis com seus rendimentos oficiais.
O que a família Bolsonaro e os Moraes têm em comum? O gosto por investimentos em imóveis luxuosos. Mas eles não são os únicos funcionários públicos a exibir fortunas imobiliárias. O MyNews fez um levantamento da cobertura política recente e compilou dados de carteiras que mostram um número impressionante de recursos investidos por servidores do Executivo, Judiciário e Legislativo. Fica a pergunta: como servidores públicos compram imóveis milionários tão acima de sua capacidade de pagamento? Método ou coincidência?
A matemática em Brasília costuma desafiar a lógica. O patrimônio do ministro Alexandre de Moraes e sua esposa cresceu 266% desde que ele assumiu a toga no STF em 2017, como relevaram os jornalistas do Estadão Gustavo Côrtesm Weslley Galzo, Aguirre Talento e Hugo Henud. O casal acumula R$ 31,5 milhões em imóveis, tendo desembolsado R$ 23,4 milhões à vista nos últimos cinco anos. É um fôlego financeiro invejável para quem vive de salário público.
No papel, um ministro ganha R$ 46 mil. Se Moraes fosse um “Tio Patinhas” e poupasse 10% do salário, levaria 479 anos para quitar esses bens. Se vivesse de luz e poupasse 100%, ainda precisaria de 30 anos. A explicação parece morar na banca privada de advocacia da família, que viu o sucesso explodir justamente quando o patriarca passou a usar a toga mais poderosa do país.
O escritório da família Moraes ostenta contratos astronômicos, incluindo um com o Banco Master, liquidado pelo Banco Central, de R$ 129 milhões. Ninguém explicou o escopo ou o porquê de cifras tão generosas. É a “mão invisível do mercado” agindo com precisão: o prestígio no tribunal parece ser o melhor fertilizante para honorários na iniciativa privada. Uma feliz coincidência que o destino tratou de providenciar.
Do outro lado, os Bolsonaro mostram que o serviço público é um celeiro de investidores. A família toda é composta por servidores, mas negociou 107 imóveis em três décadas. O “toque de Midas” do clã envolveu 51 transações em dinheiro vivo, totalizando R$ 25 milhões. É preciso muita paciência para contar tantas notas, mas disposição nunca faltou ao grupo.
Flávio Bolsonaro, o “01”, elevou o jogo ao comprar uma mansão de R$ 6 milhões em Brasília. A casa de 2,4 mil metros quadrados é um monumento à prosperidade parlamentar. O senador foi acusado de usar a valorização artificial, o famoso “compro por um, vendo por três”, para legalizar recursos. No mercado imobiliário da família, o lucro não é sorte, é método.
A devassa do Ministério Público mirou 37 imóveis ligados a Flávio. A suspeita era de que as “rachadinhas” na Alerj tenham financiado o império de tijolos. É o ciclo da vida pública: o dinheiro sai do contribuinte, passa pelo gabinete e termina em escrituras luxuosas. O senador nega tudo. E as principais investigações contra o senador Flávio Bolsonaro, incluindo o caso das “rachadinhas” na Alerj, foram arquivadas pela Justiça e tribunais superiores (STJ/STF) entre 2021 e 2022. O arquivamento ocorreu principalmente após a anulação de provas consideradas cruciais, como os relatórios do COAF e quebras de sigilo bancário. Dessa forma, tornando o caso sem provas válidas. Mas a pergunta não cala: como servidores públicos compram imóveis milionários tão acima de sua capacidade de pagamento?
A “febre do tijolo” ignora ideologias. A deputada Gorete Pereira (MDB-CE) acabou de tornozeleira eletrônica após a PF investigar propinas do INSS. Ela teria usado uma sobrinha como “laranja” para um apartamento de R$ 4,4 milhões. É a clássica timidez patrimonial: o político paga, mas prefere que o nome de outra pessoa brilhe no cartório.
No Rio, Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, atualmente preso, viu seu patrimônio inflar 830% em quatro anos. Nas suas propriedades, a PF encontrou portas blindadas e até “camarote para garçom”. É a prova de que a meritocracia funciona em velocidade supersônica para certas castas. Enquanto o cidadão briga com o financiamento da casa própria, a elite política foca na blindagem do conforto.
Para o investidor comum, imobilizar fortunas em casas é um erro estratégico, especialmente com juros altos. Mas o funcionário público de elite não busca rendimento; busca segurança. No Brasil, o imóvel é o cofre que não emite extrato bancário. É o ativo perfeito para quem precisa de opacidade em um mundo cada vez mais vigiado.
O cerco regulatório sobre os bancos aumentou e o compliance faz perguntas demais. Tente depositar R$ 1 milhão sem origem e o sistema trava. Já o mercado imobiliário é um oceano de tranquilidade. Não há intermediários vigilantes entre comprador e vendedor. Se o preço está fora da realidade, o cartório registra, o imposto é pago e a vida segue.
Por fim, fica o registro de uma elite que ganha como servidor, mas investe como magnata.
| Nome / Cargo | Valor Estimado | Principal Imóvel / Ativo | Característica da Transação |
|---|---|---|---|
| Família Moraes (Ministro STF) | R$ 31,5 Mi | Mansão no Lago Sul (R$ 12 Mi) e apartamentos em SP. | Pagamentos à vista. Crescimento de 266% no patrimônio desde 2017. |
| Flávio Bolsonaro (Senador) | R$ 6 Mi+ | Mansão no Lago Sul, Brasília. | Mix de financiamento e entrada vultosa. |
| Gorete Pereira (Ex-Deputada) | R$ 4 Mi | Apartamento de luxo (local não revelado). | Recursos do INSS. Suspeita de desvio de aposentadorias para quitação do imóvel. |
| Rodrigo Bacellar (Pres. Alerj) | R$ 3 Mi+ | Mansão em Teresópolis e aptos em Copacabana. | Uso de “laranjas” e blindagem. Imóveis suntuosos com sinais de pouco uso. |
| Virgínio de Carvalho (Suplente) | R$ 5 Mi | Mansão em SE e flat em Campos do Jordão. | Enriquecimento súbito. Salto de 5.800% no patrimônio; imóveis quitados à vista. |