Às vésperas do segundo turno: Lula e Flávio Bolsonaro Foto: Nelson Jr./Ascom/TSE

Às vésperas do segundo turno: Lula e Flávio Bolsonaro

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  • Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) disputam o segundo turno da eleição presidencial neste domingo.
  • No primeiro turno (4 de outubro), Flávio obteve 47,03% dos votos válidos e Lula 45,16%, com diferença de 1,87 ponto.
  • Em sete das nove eleições presidenciais desde 1989 decididas em segunda rodada, o candidato à frente no primeiro turno venceu.
  • As campanhas se estruturam no contraste entre mudança (Flávio) e continuidade (Lula).

Chegamos a mais um segundo turno. Das nove eleições presidenciais realizadas desde a redemocratização, em 1989, sete foram decididas na segunda rodada. As exceções foram 1994 e 1998, quando Fernando Henrique Cardoso derrotou Lula ainda no primeiro turno. Nas outras sete, repetiu-se um padrão, pois quem terminou à frente no primeiro turno venceu no segundo. É sob esse retrospecto que Flávio Bolsonaro (PL), primeiro colocado em 4 de outubro, e Lula (PT), presidente que busca a reeleição, chegam ao domingo.

A história, porém, não é destino, nem a Política é ciência exata. Há um segundo dado tão relevante quanto o primeiro: nunca a distância entre os dois primeiros colocados foi tão pequena. Flávio terminou com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, uma diferença de 1,87 ponto, menos da metade dos cerca de cinco pontos que separaram Lula de Jair Bolsonaro no primeiro turno de 2022. A vantagem existe, mas é estreita.

As campanhas organizaram-se em torno de um eixo clássico: mudança versus continuidade. Flávio Bolsonaro aposta na mudança. Procura atribuir a Lula o peso do custo de vida e da insegurança pública e, ao mesmo tempo, apresentar-se como um Bolsonaro moderado, vacinado, distinto do pai, que cumpre pena e está inelegível. Lula defende a continuidade, o que dá ao segundo turno contornos de plebiscito: o eleitor decidirá, em larga medida, se o presidente deve ou não seguir no cargo. Essa moldura não favorece automaticamente o incumbente. Lula disputou, direta ou indiretamente, todas as eleições presidenciais desde 1989, e poucos conhecem tão bem o jogo político brasileiro. Ainda assim, teve dificuldade, no primeiro turno, de estabelecer uma comunicação clara com o eleitorado. Ao longo do terceiro mandato, a desaprovação do governo superou a aprovação na maior parte do tempo, e nenhuma campanha apaga esse passivo em quatro semanas.

Houve, contudo, uma inflexão no segundo turno. O deputado André Janones, repetindo o papel que teve em 2022, criou o canal “Exército do Lula” no WhatsApp, que já ultrapassou 7 milhões de seguidores e a campanha voltou às ruas com atos e mobilização da militância. As pesquisas registram melhora discreta do presidente. Do outro lado, Flávio teve atuação mal avaliada no debate da Band, no domingo (18), numa postura associada ao estilo de Pablo Marçal, que o havia treinado. A reação foi rápida: Marçal ficou fora da preparação para o debate desta sexta-feira, na TV Globo e o treinador passou a ser Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo.  Sejam quais forem as razões, das ruas às redes sociais e às ações de governo do Governo Lula (aumento do Bolsa Família, proibição das bets, acenos aos MEIs, etc.), o quadro é de empate técnico. A pesquisa Quaest divulgada na quarta-feira (21/10) registrou Flávio com 45% e Lula com 44%, dentro da margem de erro; o Datafolha nesta quinta-feira (23/10), indicou 47% para Flávio e 46% para Lula e, nos votos válidos, empate em 50% para cada um. A vantagem numérica é de Flávio, mas uma virada não está fora do horizonte. É provável que domingo produza a menor diferença da história entre eleito e derrotado, inferior até à de 2022, quando Lula venceu Bolsonaro por menos de dois pontos. Ousaria dizer que Flávio gostaria que a eleição fosse hoje, antes do debate da Globo e Lula que fosse no domingo da semana que vem.

Num cenário em que cerca de nove em cada dez eleitores já têm o voto consolidado, cada detalhe pesa. Por isso o debate desta sexta-feira assume importância singular porque é a última grande vitrine para reforçar virtudes próprias e expor fragilidades do adversário, justamente diante do pequeno contingente de indecisos e de eleitores que se abstiveram, capaz de definir uma eleição apertada, nos detalhes. Em síntese, o jogo está aberto. A vantagem é de Flávio, mas a eleição não está decidida. E, se há na política brasileira alguém com repertório histórico para uma virada, esse alguém é Lula.

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