Jornal Do MyNews
Otaviano Canuto explica como a dependência de minerais críticos fortalece Pequim e transforma os recursos brasileiros em tema estratégico nas eleições de 2026.
As terras raras e os minerais críticos ganharam importância na disputa geopolítica entre Estados Unidos e China. Em entrevista ao Jornal MyNews nesta terça-feira (20), o economista Otaviano Canuto, ex-diretor executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI), explicou como essa competição pode afetar o Brasil. Segundo ele, esses recursos se tornaram estratégicos para a economia global e, consequentemente, podem influenciar as relações comerciais e políticas do país.
Durante a entrevista, Canuto destacou como a China transformou sua posição no mercado de minerais em uma ferramenta de negociação com o presidente americano Donald Trump. Dessa forma, o controle desses recursos passou a representar uma vantagem nas disputas internacionais. Nesse cenário, o Brasil ganha relevância por suas reservas de minerais estratégicos.
Canuto compara os minerais críticos ao petróleo devido à importância que assumiram na economia e na geopolítica. Com o avanço da inteligência artificial e de outras tecnologias, a demanda por esses materiais cresceu. Além disso, eles são essenciais para a fabricação de componentes utilizados em diversos setores industriais.
No entanto, possuir reservas naturais não significa controlar toda a cadeia produtiva. A China saiu na frente ao investir no processamento e no refino desses minerais. Assim, o país ampliou sua influência sobre etapas fundamentais da produção industrial. Enquanto isso, outras economias tentam reduzir a dependência dos fornecedores chineses.
Segundo Canuto, a estratégia americana de recuperar influência no hemisfério ocidental também envolve limitar a presença chinesa em setores considerados estratégicos. Entre eles, estão os investimentos em infraestrutura e a exploração de terras raras e outros minerais críticos.
Além disso, o economista citou a atuação chinesa na República Democrática do Congo, importante produtora de cobalto. O caso ilustra como Pequim ampliou sua participação tanto na extração quanto no processamento de matérias-primas essenciais à indústria. Agora, os Estados Unidos buscam fortalecer suas próprias cadeias de fornecimento. Dessa maneira, pretendem diminuir a dependência de fornecedores estrangeiros.
Para compreender a importância dessa disputa, é necessário olhar além da mineração. Canuto destaca que a extração representa apenas o início de uma cadeia de valor. Posteriormente, os minerais passam por etapas de processamento e transformação até chegar a componentes industriais, como os ímãs permanentes utilizados em equipamentos eletrônicos e eletrodomésticos.
Por isso, o desafio brasileiro não se resume a explorar suas reservas. O país também precisa avaliar como desenvolver capacidade de refino, tecnologia e produção industrial. Caso contrário, poderá continuar fornecendo matérias-primas enquanto outros países concentram as etapas de maior valor agregado.
Essa disputa internacional também repercute na eleição presidencial de 2026. Afinal, o interesse americano pelos minerais brasileiros e a influência chinesa no setor colocam em discussão a estratégia que o próximo governo adotará nas relações com as duas potências.
Nesse contexto, o Brasil precisa definir como aproveitar seus recursos naturais para fortalecer a própria indústria e ampliar sua autonomia econômica. Embora a competição entre Washington e Pequim crie oportunidades, ela também impõe desafios. Portanto, a forma como o país administrará seus minerais estratégicos poderá influenciar sua posição na economia global.